É tua, e eu não sei porquê

Escrever-te é perder-te e encontrar-te outra vez.
Dança comigo, até ficarmos cansados das músicas, de vez.
Descrever-te é inoperável, pois não possuo cubicagens de recriar-te outra vez.
Fazia sol nesse dia, quando me apercebi disso, a lua não se via, e tu estavas sentada à minha frente, e eu sem que desses conta amava-te de vez. Embaí o diabo e acordei da sua mentira. O sol lá se debandou, fiquei eu com as suas mãos presas ao teu pedido, de te falar da lua, sem perceber bem porquê. Não sabia se fazia parte de um plano teu, ou se fazíamos parte dum plano maior. Sermos o menino e a menina, deixados por sorte no perfume dum altar da capela do amor-brio-à-beira-mar.
Dança comigo, já sei dançar, vês? Olha bem para mim e diz-me o que vês.
Escrever-te é perder-te e encontrar-te outra vez.
Solto dos meus bolsos as réstias de concordâncias que compus para ti numa noite caiada de branco pálido, desmaiado e desmandado, com aquela cor pura e serena, trabalhada pelas tuas mãos secas de arranhaduras e iluminadas pela lua que é tua, e eu não sei porquê.
Danças comigo outra vez? Desta vez? Vês?
Escrever-te é fatal ou banal, é fazer o tal e qual ou esquecer aquele terrível mal. Já dançar não. A dançar eu e tu somos mais.
Escrever-te é perder-te e encontrar-te outra vez.
Dançar contigo é bailar por cima dos abraços das pontes, é escorregar pelos passadiços que nos fazem parecer aos montes, que nos passeiam e nos abrem aos mais apartados horizontes, em busca de caminhos, em escapula de afrontes. Em diante de destino, fugidos por toda a parte. Mundo vivido é um mundo aparte. Aparte.
Tudo na vida deve ser livre e solto, sem um idem. Amor também? Porque é que os que por si passam, de si partem?
Dança comigo, a música do talvez.
Escrever-te é perder-te e encontrar-te outra vez.
Às vezes, para dançar, é preciso abrir bem os braços, soltar as ancas, criar espaços, desatracar as âncoras, desbravar os palcos a dois, sem porquês, nem de quês. Os nivelados, os embargados. Os paraquedas dos nossos quês, sem termos de verdadeiramente de ser achados.
Eu e tu somos mais. Levantar e cair, ganhar forças e desfalecer em mil e um pedaços, perder todos e quaisquer traços, erguer, deixar ir e dançar, talvez.
Pedes-me para te falar da lua. Pedes-me tanto e não sabes porquê.
Escrever-te é perder-te e encontrar-te outra vez.
Esse pedido, essa ideia, faz-me lembrar daquela aranha que vimos no outro dia no nosso terraço, que só quer mais e mais teia, mais protagonismo no jardim dos catos. Mais bichos para enfeitar a sua teia. Que braços fartos.
Na verdade, dançar contigo alua-me, este mundo não o vê.
Não tens nem vaga ideia do que o sol é. E do que no seu depois” assim o é”.
E pedes-me para te falar da lua, para eu poder dançar contigo, dizes-me que “só assim serei tua”. Não sei bem porquê.
Escrever-te é perder-te e encontrar-te outra vez.
Julgo que tens medo do seu brilho, julgo que passeias pouco a tua mão pelo seu umbigo.
Sabes? Também é redondo, também é escondido. Também muda de destino, com formas e cores de carinho, porque também tem medo de perder o brilho…sim a lua também tem medo do seu brilho. Pedes-me para te falar da lua.
Danças comigo, a música do talvez?
Pedes-me para te falar da lua.
É tua, e eu não sei porquê.
Escrever-te é perder-te e encontrar-te outra vez.

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