A certeza!

Não gosto de falar sobre a certeza. Aliás nunca gostei, mas não se pode viver sem falar nela, porque ela sim, ela é a verdadeira certeza.
Ultimamente, tenho lido muito de António Lobo Antunes, ele tem-se revelado um “durão” carente, sensível, solitário na enorme e inesgotável companhia de si próprio. É um homem transbordante de memórias e de experiências de vida tão vastas e abundantes quanto as águas das marés maiores.
«Que hora tão improvável!», foram as últimas palavras da SUA AMADA MULHER – Maria José.
Quantos pensamentos lúcidos naqueles instantes finais preencheram aquela mente até a certeza a desligar? Ela sabia com toda a certeza que se aproximava a sua certeza, sabia, tinha certeza, que se aproximava a maior de todas as certezas. Sabia que aproximava a sua hora.
A nossa vida física corporizada nesta densidade –penso que há mais, muito mais, do que este curto carnaval- é uma pequena baliza no tempo, esse sim, indiferente, sem princípio nem fim. É por conceber esta vida como uma pequeníssima baliza no tempo, que tenho desde muito tenra idade a consciência de existir sempre uma primeira e uma última vez para tudo.
Por vezes, olho, gravo, vivo, saboreio ou despeço-me com a sensação, com a quase certeza que é a última vez, e outras vezes, na dúvida, olho, gravo, vivo, saboreio ou despeço-me como podendo ser a última vez…, porque não tenho a certeza de não poder ser a última vez.
Tal como ele, sou assaltado por inúmeras memórias recorrentes, memórias que não consigo apagar, porque elas tornaram-se parte de mim, transformaram-se em carne da minha carne sob forma de palavras, mãos nas mãos, olhares, silêncios cobardes, euforias e impotências, promessas cumpridas com marcas de sangue e promessas incumpridas que ainda sangram, êxitos e falhanços, alegrias e tristezas, bebedeiras de ilusões e de desilusões, enganos e desenganos…, vida!
Ler, consoante a disponibilidade e a sede do leitor, permite participar daquele pedacinho de vida, daquela memoriazinha, daquela alegria ou daquele drama da vida ou da imaginação do autor. Quando leio, vivo vidas, adquiro memórias que adiciono às minhas, por isso, ler, enriquece-nos, dá-nos vidas e memórias, dá-nos ensinamentos de vidas, mas…, mas ler, quando bem lido, também pode doer… e pode doer muito. (“A última coisa que a Maria José me disse antes de morrer foi: “Que horas são?” É muito frequente nas pessoas que estão a morrer: perguntar as horas. Respondi: ”Um quarto para as seis” E ela disse: “Que hora tão improvável!” É tudo muito íntimo. Não gosto de falar nestas coisas. Se eu tirasse as máscaras, começavam a aparecer estas histórias. Não tem interesse nenhum. Só me interessa porque foi a minha vida. Tudo me comove…Uma pessoa anda com a ternura assim faz um gesto de segurar no colo e não sabe onde a pôr.”)
- Dói, não dói? – pergunto eu.
Devemos proceder sempre assim, devemos olhar para tudo como se fosse a última vez, porque a única certeza que temos para além daquela certeza certa certinha e derradeira certeza é a certeza que não há certezas.

*Este texto foi escrito segundo os termos da ortografia anterior ao recente (des)Acordo Ortográfico.

 

COMENTÁRIOS

ou registe-se gratuitamente para comentar.
Critérios de publicação
Caracteres restantes: 500

mais

QUEM SOMOS

O «Figueira Na Hora» é um órgão de comunicação social devidamente registado na ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social). Encontra-se em pleno funcionamento desde abril de 2013, tendo como ponto fulcral da sua actividade as plataformas digitais e redes sociais na Internet.

CONTACTOS

967 249 166 (redacção)

geral@figueiranahora.com

design by ID PORTUGAL