A Pilar del Rio

Querida Pilar del Rio, graças a si, graças a uma passagem duma entrevista sua, que li há muito tempo - já não sei onde- na qual dizia que após ter lido o livro intitulado “O Ano Da Morte de Ricardo Reis”, ficou de tal modo deslumbrada, esmagada, estarrecida (as palavras podem não ter sido estas, mas foi-o o sentimento!), que decidiu que tinha que vir a Portugal conhecer o autor, tinha de conhecer quem assim escrevia e quem assim pensava. Depois dessa entrevista, confesso, ficou-me também o “bichinho”, ficou-me a curiosidade de voltar a Saramago.

Confesso que, já antes, havia devorado, por três vezes, vários “Saramagos”. Devorara a “Jangada de Pedra”, o “Memorial do Convento” e o “Ensaio sobre a Cegueira”, mas os “Saramagos” não se podem devorar. Fi-lo como, nessa altura, fazia tudo na minha vida. Fi-lo a “ cento e cem ou a mil e mil”. Retive a ideia, retive a história principal e perdi tudo o resto, ou seja, retive quase nada e perdi quase tudo. A escrita do José, o seu subtil pensamento, a sua arquitetura frásica, aquele modo de enxertar a burilada palavra na frase de filigrana arte conseguida, são para serem saboreados, são para serem derretidos na boca, são para captar com a mente o delicado perfume que as ideias contidas, apertadas ou as insinuações subtilmente amassadas, libertam.

Concordo consigo, querida Pilar, quando diz que Saramago é a-rra-sa-dor! Concordo consigo quando acha nele “ um dos cidadãos mais completos do século XX”. Como bem a compreendo quando diz: “ acordo todos os dias para viver “ da e com a memória”, consciente de ter sido protagonista de uma experiência que muitas mulheres gostariam de ter tido”. Tem razão, Pilar! Está certíssima! Por isso dou comigo a imaginar como terá sido “ comungar “ com um ser com uma sensibilidade, com uma subtileza, com um encanto e um trato fino, diria, principesco, na forma como consegue dizer certas coisas, pela sua natureza, “difíceis” de dizer. Estou a pensar, na descrição do “envolvimento” de Ricardo Reis com a Lídia: “(...) Ao entrar no quarto vê a cama aberta, colcha e lençol afastados e dobrados em ângulo nítido, porém, discretamente, um aquele desmanchado de roupa que se lança para trás, aqui há apenas uma sugestão, em querendo deitar-se, este é o lugar.” Depois, depois...”Entrou no quarto, e, não advertindo que fazia este movimento antes de qualquer outro, olhou a cama. Não estava aberta como de costume, em ângulo, mas por igual dobrados lençol e colcha, de lado a lado. E tinha, não uma almofada, como sempre tivera, mas duas. Não podia ser mais claro o recado, faltava saber até que ponto se tornava explícito.” Ou, nesta crua, mas inegável, verdade retirada do diálogo do médico Ricardo Reis com Marcenda -a menina da mão paralisada- “(...) Para quê, Para manter a esperança, Qual, A esperança, nada mais, chega-se a um ponto em que não há nada mais senão ela, é então que descobrimos que ainda temos tudo.” Continuo a citar Saramago: “pródiga e feliz língua a nossa que tanto mais é capaz de dizer quanto mais a entorcam e truquejam.” Atente, caro (a) leitor (a), na fluência deste diálogo, aparentemente misturado dentro da mesma frase, sem pontos de interrogação, sem pontos de exclamação, sem travessões nem pontos finais assinalados e, todavia, perfeitamente escorreito, entendível e harmonioso: “ Oito eram elas quando o doutor Sampaio foi bater à porta de Ricardo Reis, que não valia a pena entrar, muito obrigado, vinha apenas convidá-lo para jantarem juntos, nós três, que a Marcenda lhe falara da conversa que haviam tido, Quanto lhe agradeço, senhor doutor, e Ricardo Reis insistiu para que se sentasse um pouco, Eu não fiz nada, limitei-me a ouvi-la e dei-lhe o único conselho que poderia ser dado por uma pessoa sem especial conhecimento do caso, persistir nos tratamentos, não desanimar, É o que eu lhe estou sempre a dizer, mas a mim já não me dá muita atenção, sabe como são os filhos, sim meu pai, não meu pai, (...) a conversa não ficou por aqui, por esta mesma conformidade trocaram ainda algumas frases, parelhas de intenção, escondendo e mostrando meio por meio, como é em geral nas conversas todas, e nesta, pelas razões que sabemos, particular,”, (sabemos nós, leitores, que as consultas de Marcenda eram, também, perfeita capa doutros pretextos e doutras “vidas” na vida do extremoso e bondoso pai, o senhor doutor Sampaio...). Continuando, “... e assim foi, chegado o tempo bateu Ricardo Reis a porta do quarto duzentos e cinco, seria muito indelicado chamar primeiro Marcenda, esta é outra das subtilezas do código.”

Hoje, é mais fácil ler, apreender e aprender. Lembro-me que há muito, muito tempo, li uma citação e, só uns anos mais tarde, encontrei, por mero acaso, a fonte. Só nessa altura fechei o texto na minha mente, só então concluí a leitura... Hoje, felizmente, temos os meios complementares ao nosso dispor, basta escorregar o oponível polegar – que há muito nos diferenciava e cada vez mais nos vai diferenciando - pelo ecrã para escutarmos a marcha nupcial de Lohengrin, ou a de Mendelsshon, ou a de Lucia de Lamermoor de Donizetti, para sentirmos, visualizamos e acompanharmos a entrada de Marcenda e Ricardo Reis no restaurante do Hotel Bragança, seguidos pelo senhor doutor Sampaio.

Saramago, como bem diz, é inesgotável! Agora, partirei à procura da “ Declaração Universal do Deveres Humanos”, da “Jangada de Pedra”, e outros e outros..., dos ensaios, das peças de teatro, das publicações em jornais e revistas, sonhando com a “Revolução da Bondade”, concordando que “O amor não Tem nada que Ver com a Idade”. Quem sabe, se não me tornarei também, num “saramaguito”?!?

Ah!, reportando-me à sua entrevista ao Expresso, digo-lhe: - Sinta-se nossa! Desde já, porque foi, é e será o “Rio” onde o José muito bebeu, e porque é metade do todo, é a (o) “Pilar” daquela monumental “ponte” de ideias, de criatividade e de diálogo chamada José Saramago!

“Bora” lá , ler os autores portugueses!

Escrito durante uma curta “vadiagem” mental...

 

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