Acuso e acuso (-me)!

Naquele “cemitério” as campas são todas iguais, são poltronas brancas, tão brancas como as lajes que atapetam os cemitérios tradicionais.
Elas estão dispostas com as costas voltadas contra as paredes, estão encostadas à parede, tal como estão os viventes ali a morrer lentamente. Há uma para cada um. Ali reina um silêncio sepulcral.
Incrédulo, interrogava-me se eles ainda seriam gente da minha gente. Sim, eram ainda corpos certamente, eram ainda, confiadamente, corpos de gente.
Muitos eram corpos imobilizados e com olhos lentos. Vi desistência em muitos olhares. Muitos tinham olhos que nada divisavam, tinham os olhos presos no espaço exíguo da vida que lhes sobrava.
Muitos gritavam com olhos apressados para partirem, para mudarem de sítio, para mudarem daquela quietude comprimida para imobilidade totalmente libertadora.
Alguns querem partir deste tempo com fim para mergulhar definitivamente no tempo sem fim e substituir aquele branco negro por qualquer negro verdadeiramente negro, mas sem dor. Confessam-no os seus olhos mortiços.
Muitos são corpos e mentes amordaçados, comprimidos, muito comprimidos, mortalmente comprimidos para não falarem nem se queixarem.
Engana-se quem assim comprime, porque o silêncio forçado, comprimido, muito comprimido, soa tão alto que é capaz de abafar o mar, mas não consegue abafar todas as consciências, porque elas são esguias como a água que tudo perfura até encontrar um caminho que a liberte.
Lá, não ouvi os sons da alegria da vida, nem ouvi música nenhuma, talvez porque a música distraia ou até afugente a “bem-vinda” morte. Não ouvi gargalhadas, conversas, risos e, tão-pouco, ouvi discussões, talvez porque aqueles viventes estejam muito comprimidos e só os comprimidos abafam tudo isso numa paz podre de morte.
Muitos daqueles corpos viventes, já quase mortos, estão enterrados dentro de paredes brancas sujas dos remorsos dos seus entes que se queriam queridos, sujas de muitas culpas mal disfarçadas e por resolver.
Alguns dos que “para-ali-estão”, estão presos atrás de grades de enormes vidraças que nem o som, nem o cheiro da vida do lado de fora deixam entrar. Nem sequer os passarinhos se conseguem fazer ouvir, apesar de eles esvoaçarem aflitos à frente daquelas grades na tentativa de fazerem notadas as lufadas de ar e de vida que animam. É tudo em vão e, também tudo de tudo com eles se “vão”!
Lá não há música, não a ouvi, nem ouvi som algum melodioso. Lá, até o bom dia dito em voz alta parece que não é audível e, talvez seja por isso que ninguém responde.
Lá, a vida entra e sai com os que “para-aqui-estão” e apressadamente lá vão, mas que lá não estão, mas…, quem sabe…, se um dia também lá ficarão?
Nos cemitérios tradicionais estão milhares de flores naturais e muitos outros milhares de flores artificiais, mas ali não. Não as vi ali, nem dumas, nem doutras.
Aqueles que “para-aqui-estão” limpam os cemitérios tradicionais das culpas e dos remorsos com muitos baldes de água, mas estoutros, debalde limpam das mágoas, das culpas, das palavras mal ditas e das não ditas e dos abraços que os seus braços negaram.
Neste “cemitério” dos corpos ainda viventes não há baldes nem flores! Senti e vi apenas flores em corpos gementes de silêncio comprimido!
Senti que se o instinto da vida não fosse tão forte, poucos passaríamos dos cinquenta anos e, senti também, que felizmente ou infelizmente poucos descobrimos que, na maioria das vezes, morrer dói muito menos do que viver assim.
Hoje fiquei triste, fiquei muito triste e, por isso, hoje não consigo ouvir música, os meus ouvidos não querem, não obedecem e, hoje os meus olhos não se encantam com os volteios dos passarinhos porque a dor daquele silêncio agrava-me o desconforto.
Valter Hugo Mãe levou-me a olhar para essa realidade através do seu livro intitulado: «A MÁQUINA DE FAZER ESPANHÓIS.» Mas, no tanto que disse…, deixou muito mais por dizer…

 

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