Ainda me lembro como se conheceram os poetas cá de casa

Para mim, escrever é vencer o cansaço.
No fim disso, renascer.
Ainda me lembro como se conheceram estes dois.
Antes mesmo de ambos me escreverem.
O beija mais que beija e a flor e, a mais bonita, bela flor.
Hoje só agradecem estarem um por perto do outro, um no outro, por cima, por baixo, atrás, à frente, finalmente de lado. Outra maneira haverá certamente, mas essa, deixo-a só e unicamente só para eles.
Ainda me faz espécie e encanto quando recordo quanto tempo esperaram um pelo outro.
Ophelia e Marley.
Eis os dois. E em parte eis nós.
Os olhos dela são azul vindo do céu, o pêlo dela foi pintado nas nuvens por cada anjo que no seu esmero a concebeu.
Já ele é todo cores de coisas tão inebries de fofas e doces que são, ao ponto de me darem medo de as agarrar e estragar, um gato pelo nosso inimitável e inimaginável céu. Cor de caramelo e olhinhos de príncipe de bem escolhido adereço, chapéu.
Mal se viram caíram de amores um pelo outro, e foram separados como que à nascença por uma porta que era como se fosse o muro de Berlim na altura, por medos nossos de possíveis doenças da Ophelia.
Felizmente o tempo passou e nada os podia separar. Nem doenças, nem medos, nada. Mal se abriu a porta ela caiu no colo dele e para sempre o vento levou, fazendo-os seu.
Ser pai de dois poetas é trabalho desnecessário, ao que um agudiza, outra rima, e nem todos os poetas são tristes. Para ela poesia é sol enganador que a faz deambular na casa de um lado para o outro aos pinotes e cambalhotas, é enrolar-se por entre as mantas e nos livros na minha caverna de Saramago, para ele é a mãe, só mãe, até eu vir para a cama, aí adormece-me e vai aninhar-se outra vez, num de profundis mãe.
Não é preciso explicar-me mais Deus.
Não me importa se vão ser bem-sucedidos, mas para mim, vão ser sempre os meus poetas, os poetas cá de casa, ela tudo faz com o seu olhar, ele tudo faz, tudo a deixar-se amar.
A partir de agora não há dúvida que eu tenha para os explicar.
Ainda me lembro como se conheceram estes dois. Os meus poetas, os poetas cá de casa. Sem eles faltava-me um pedaço, agora tenho dois. Eu? Nós.

 

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