Amar é partir, varanditas suas

Às vezes, se falar para mim muito baixinho, debaixo do meu cobertorzinho, consigo pensar porque é que penso. Penso na verdade duas vezes. A que penso e a (outra) que penso. Duas metades de uma tangerina, que depois de cortada, escorrem-se-me por entre os dedos sequiosos de respostas, os "sulcos da sua verdade".
Corto o polegar com ela (o meu carpo em busca dessa e mais outra e outra e outra questão), e não encontro nenhum penso.
Nada nem ninguém consegue ser feliz sem uma boa resma de “folhas de pensos” oriundos das mais belas florestas que vivem em cada nosso jardim, público ou privado, não interessa, interessa sim é que curam, que alvitram, que vituperam, de tão vivas que são as suas cores que coram e decoram o que há por aí e por aí e por aí.
Essa decisão de pensar o que penso, é ambição, pura e desmedida ambição.
"Única"-"Mente".
Realizo uma peça de teatro, ou uma novela, ou um pacto (conforme se estou farto, ou se quero outra sequela, enfim, apanágios de dolce stil nuovo). Nesse circo ou enredo do que endereço ou me esqueço, ou não, outra questão surge-se-me para mais tarde pensar.
Já lá vou, já o penso. já “o sou”, se o penso. Será que mereço pensar no que penso? Ou deveria apenas pensar, sem não o pensar? (Tudo apanágios de dolce stil nuovo).
Esses castelos onde eu construo janelas habitadas e ruas desnuas, (vizinhas maliciosas, anosas e varanditas suas,) onde os outros vão de mão dada ou em fila indiana em pé-de-marcha com a tocha bem arqueada (lume, quer-se lume, com ou sem lua, basta amá-la, basta querer ser-se sua).
Com mapas e pontos geodésicos de eternas "idas e chegadas", presas nos ilhais dos dedos que teimosos lá passeiam de incursões em incursões às mais belas rias formadas. Leio tudo o que penso, pois, penso que sou tudo o que leio. Ou não? Ouço tudo o que penso, pois, penso que sou tudo o que ouço.
Chamaram-me? Não! Falo tudo o que penso, pois, penso que sou tudo o que falo. (Falo, portanto, com a mão.) Que praceta sem graça. (A voz assim “passa”). Sonho tudo o que penso, pois, penso tudo o que sonho. Acordei? Ainda não. Faço tudo, tudo o que penso, pois, penso que sou tudo o que faço. Mas, será que o penso? Às vezes, penso. Outras penso. É isso que faço. Às vezes, dói-me a mão, de vez em vez, quando?!
Assim parto até à ria formosa. Quando chego à ria formosa não me dói a mão. Depois, apenso-me dos seus porquês. Serás tu ria herbosa, bebida de uma folha silenciosa de papel, velha e fiel, cheia de tinta ilusória, de gotas caindo num pomposo moscatel?
Ou, invés, pintada em meia dúzia de linhas, numa frase feita ao acaso numa parede suja com um pequeno pedaço de pincel? Toda a mudança acompanha memórias, toda a bonança cristianiza vitórias, toda a vida colhemos rias formosas.
Toda a vida é nada, nós é que somos tudo. Somos vítimas de termos no calo das nossas mãos, as pedras que constroem “a nossa caminhada” e o nosso “muro”. Os nossos, tão nossos, sim e não. O eu-falado, o “eu-mudo”.
Enquanto desfolho mais uma e outra página deste livro que fala sobre o quanto é redutor amenizar com argumentos enluvados e ponderar ter conversas com pseudo-ajuizados, até poder indagar com os mais descansados sobre a relação (estranha conexão) entre ser humano e ser amor, ser demasiado humano e ser em demasia “mais” em amor.
Assim parto. Outra vez. Sem perceber essa estranha relação.
Haverá porventura alguma relação que não seja uma estranha condição?
Estranho paradoxo (culpo a minha mão).
Em todas as voltas e reviravoltas que ele nos dá, como nos fere, como nos manda para o chão, quando nos dizem que basta, que chega, que não.
Como alimenta o nosso sorriso mais solto, mais aconchegante, mais nervoso, tão morbidamente quente e ao mesmo tempo destemperado e húmido, de tanto desejo, de tanto “vejo”, de tanto subitamente aparecido humo, de alguém que paira cá dentro de uma tal forma, que em cada gota de sangue nos sente (assim eu penso), como se esse alguém fosse todo o mundo, e o mundo fosse todo esse alguém (como nos lamentos?).
Gente. Gente. Que nos beija e que nos canta, que nos berra e nos eleva adiante, até à estrela mais brilhante, pertencente à constelação do amor-de-e-para-sempre. Como que um santo invertesse o jogo e fosse ele a beijar-nos os pés por estarmos tão bem.
Tão nós.
Tão além.
E as músicas, as músicas, são tal e qual como as mulheres que vamos conhecendo, engraçando, amando, encarando e fugindo pela nossa vida afora. Quando ouvimos pela primeira vez uma música que nos toca, tentamos não ouvir sem parar.
Depois, tentamos decorar as letras. Tentamos imitar as batidas, (dançamos e beijamos tudo, tudo, até as grosas do artesão da praça velha que nos roça, passam a limas e cheiram a rosa). Com o passar do tempo, a música começa a entediar-nos, descria-nos, quase lentamente afoga-nos, (ou o amor morre, simplesmente, consome-nos até à última gota) ou quiçá, prefere passear-se “noutros rádios”.
Então, (re)começamos na (des)aventura de tentar ouvir outras músicas, outras batidas, outros estilos, outros ritmos, outros sentidos, entre lágrimas, copos, murros, desmaios, risos, pedras atiradas aos rios e a porcaria dos livros de autoajuda com preços amigos. Precisa-se de perceber muito de música para se tentar qualquer coisa nesta vida. E, em matérias de coração temos (mesmo) de ser muito artistas (parte de outras histórias da nossa vida).
São as músicas, tal e qual as mulheres que compuseram as nossas (v)idas. Nós até gostamos de as ouvir, só muito de vez em quando, só para sentirmos aquela mística sensação de fase ultrapassada (ou de asa arrancada, fendida, serrada) ou que somos mutuamente a perfeita e eterna balada. Faz todo o sentido, mais ainda porque as mulheres não têm stop, não vêm de fábrica, são peça única, não têm número de série, não têm botão de replay, não se deixam gravar nem tampouco entoar, nem toleram que as ponham mais ou menos alto.
O tom é delas, só e unicamente delas, batam palmas lá atrás, por favor e alto! São por demais belas. (São a “rainha de ouro” e a “copa de paus” apresentada em destaque e escondida lá atrás, noutro aparte, conforme o cenário de onde “estás”). São todas originais, como todas as músicas que ouvimos, e todas têm o seu tempo, o seu ritmo, a sua frequência, o seu amor, o seu cunho e sem dúvida, o seu valor. Tudo e todas, são bem mais do que meras e simples palavras, acho.
Assim parto e chego. Amar é partir. Em paz.
Assim corro, sem fugir. Amar é partir. Para a paz.
Assim coro, sem fingir. Amar é partir. Em paz.
Assim parto. Amar é partir.
Paz.

 

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