Apita o comboio

Ricardo Santos

Ricardo Santos

(da memória)


Há linhas que atravessam os campos, que os atravessam por dentro, esventrando-os. Por essas linhas, seguem vagões carregados de memórias, pessoas e histórias: a pesada maquinaria, freios e automatismos irrompe pelos campos do Mondego, de quando em vez, como uma trovoada passageira. Os passageiros têm destinos marcados, estações que os esperam ainda hoje, mesmo quando os ponteiros do relógio teimam em rodar sobre as cordas de um passado distante.
Devia haver um poeta em cada comboio para guardar as palavras que se calam entre os passageiros e as que atiramos janela fora sempre que atravessamos uma estrada. Sabemo-lo pela música dos carris: é outro compasso, mais lento, para logo depois retomar a toada cadente que nos embala o sono. Há sempre um passageiro de olhos fechados a ver outras paisagens que não os campos de arroz sob a vigia das cegonhas em ninhos altaneiros.
Ir a Coimbra de comboio faz parte das memórias de infância dos figueirenses: oportunidade para passeios em família, cruzar os portões do Jardim Botânico e admirar a sequóia, que se afunda nas raízes da terra e esconde o azul do céu. O revisor, no seu impecável uniforme cinzento, picava as orelhas dos meninos que se portavam mal, fazendo com que permanecessem quietos, colados à janela. Um ou outro mais afoito arriscava colocar a cabeça de fora para levar com o vento na fuça até que alguém, mais atento, o puxava para dentro da carruagem não fosse o apoucado menino ficar sem cabeça à entrada de algum túnel.
As estações e apeadeiros – Fontela A, Fontela, Lares, Bifurcação de Lares, Reveles, Verride, Marujal, Montemor, Alfarelos, Formoselha, Pereira, Amial, Vila Pouca do Campo, Taveiro, Casais, Espadaneira, Bencanta, Coimbra-B, Coimbra – tinham sempre gente e apitos.


(do presente)


Quando por estes dias circulam notícias de que a falta de manutenção do equipamento ferroviário, entenda-se comboios, coloca em risco a continuidade dos suburbanos Coimbra-Figueira a nostalgia dá lugar à preocupação (Público, 06.04.2018).
A ligação Coimbra-Figueira assegura ainda hoje o equilíbrio de muitos orçamentos familiares, servindo as necessidades de mobilidade de muitos profissionais e estudantes que se deslocam diariamente para a capital do distrito. Para além de ser um meio de transporte seguro e acessível, contribui para a diminuição da pegada de carbono e o seu uso merece, por isso, ser estimulado.
Assim, num tempo em que as preocupações com o ambiente e com a mobilidade urbana impõem mais e melhores transportes públicos é paradoxal assistir ao desinvestimento que o país tem feito no transporte ferroviário, pelo que estas notícias, mesmo que especulativas e alarmistas, merecem a nossa reflexão e uma incisiva ação do executivo municipal junto do poder central.

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