Aprender a ser feliz na era técnica

Quando decidi criar Os Filhos do Mondego - o meu blog - há sete anos, sabia que estava a sair das minhas fronteiras, dos muros que me mantinham em segurança, ficando exposto aos elementos.
Muitos conhecidos chamaram-me maluco; outros mostraram-se surpresos por não saberem sequer que escrevia em silêncio, longe dos olhares indiscretos; outros acharam que seria apenas um capricho de um miúdo que estava ainda a descobrir o que queria fazer da vida.
Houve uma pessoa que acreditou em mim, que descobriu a minha vontade, o meu chamamento, disse-me: “tu não és engenheiro, és escritor. É isso que te faz feliz. Cria o blog e depois logo se vê”
Durante meses quis acreditar naquelas palavras. Sou escritor. Ainda hoje não sei se nelas acredito, porque sempre que me perguntam isso do és escritor?, eu respondo de forma evasiva, tento ser.
O blog foi criado, as pessoas começaram a ler, a gostar, eu continuei a escrever: cada vez mais, cada vez mais, cada vez mais. Quando dei por ela já o fazia sem querer, durante o dia, no telemóvel, à noite quando as insónias se deitavam ao meu lado, ou algumas vezes quando chegava bêbedo a casa (julgava-me uma espécie de pupilo do Hemingway nessas vezes).
A bola foi rolando montanha abaixo, foi crescendo, os convites foram surgindo, as palavras de carinho de quem me lia também e tudo parecia um sono leve, dentro de um cobertor de pêlo numa noite de inverno. Fui escrevendo sobre a minha vida, deixando a nu algumas fragilidades, a escrita não era coesa, escrevia em catarse, sem pensar em editar depois.
Tentei criar espelhos e alguns leitores muitas vezes viam-se neles, achando que estava a escrever sobre e eles e não sobre mim. Os meus textos sobre Coimbra ainda hoje ecoam por aí, fizeram parte do boom nas minhas redes sociais que me aproximou de mais pessoas.
Mas nem tudo nesta história se resume a dias quentes de verão. Vivemos numa era em que a informação anda de um lado para o outro sem qualquer filtro. O meu trabalho foi atirado ao mundo e, mesmo um russo, que não perceba uma ponta daquilo que escrevo o pode tentar ler.
Esse nível de exposição faz com que haja também quem não goste daquilo que escrevo, quem me ache um charlatão, quem me compare a outros. Faz parte.
Os avanços tecnológicos criaram novos críticos das artes - e de tudo o resto. A opinião é um direito de todos e tendo a concordar com Tolstoi quando dizia existirem tantos amores no mundo como corações: também existem tantas opiniões no mundo como cabeças.
Nem todos podemos gostar das mesmas cores, dos mesmos estilos, das mesmas sapatilhas, das mesmas palavras, mas devemos aprender a coexistir com tudo isso, respeitando.
Durante a minha juventude critiquei publicamente autores que não gostava. Não o fazia por mal, mas não podia dizer que gostava de uns, tendo lido outros infinitamente melhores. A questão é que o tempo me foi ensinando que o facto de eu não gostar, não invalida o facto de eles trabalharem por um sonho, em prol duma arte nobre, sendo felizes com o que escrevem.
A minha opinião a mim me pertence e não tenho o direito de ser vil, de descarregar frustrações, ou falar do alto de uma torre de marfim que não existe; vivemos todos no mesmo rio de merda (muito ao jeito de Flaubert).
Portanto aprendi a guardar a minha opinião, ou a partilhá-la em privado, deixando o espectáculo do mundo continuar pelas redes sociais, sem o meu contributo.
Durante este tempo de vida do meu blogue e das minhas páginas, apaguei uma dezena de comentários e bloqueei o acesso a algumas pessoas por achar que o que procuravam era um banho de sangue, ou uma forma de se autoproclamarem, descarregando alguns ódios em comentários tóxicos - se a ideia fosse apenas criticarem, de forma construtiva, fá-lo-iam com outros argumentos, ou de forma privada, não sendo mesquinhas.
Sei ter dito que cada um tem direito à sua opinião, mas a maravilha das redes sociais é que nos permite alhear das pessoas tóxicas, com maior facilidade que na vida real - não sou um carrasco das opiniões, com lápis azul na mão, mas dada a possibilidade de poder gerir os conteúdos, faço-o.
Não sou um assassino de ecossistemas, também, mas se um mosquito me chatear durante a noite, tento fazê-lo desaparecer, por prezar demasiado uma boa noite de sono.
O tempo, como já disse, tem o condão de nos ajudar a aprender - tenhamos nós essa vontade. Eu continuo a aguardar palavras menos boas e pessoas com sete pedras em cada mão.
Aguardarei em silêncio, sem me manifestar, porque a minha felicidade depende também da forma como lido com os factores externos.
Escrever continua a dar-me um gozo do caraças. É disto que gostava de fazer vida. E quem não gosta das minhas palavras? Meta à borda do prato.
Uma maravilha do mundo tecnológico: não seguir.
Uma maravilha do mundo real: o poder de escolha. (Acabam por ser os dois um pouco um do outro.)
De uma miríade de livros, se não gostarem, não comprem os meus.
Há espaço para sermos todos felizes.

PedRodrigues

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