As abelhas

Hoje foi assim: descontraído, passeava no “Face” quando deparei com um vídeo que mostrava imagens de uma boa dezena – uma daquelas dezenas com quase vinte, do tipo da dúzia de treze ou da meia-dúzia de sete, que as vendedeiras de bolos e salgados caseiros, usam no Brasil-, dizia, que o vídeo mostrava imagens de uma boa dezena de cachorrinhos que tinham acabado de aprender à sua custa, que não era bom, que não era nada, mesmo nada, recomendável comer abelhas. Metia dó! Tantas bochechas inchadas! Tantos olhos esbugalhados! Tantos olhares incrédulos que bem poderiam significar: «Porque é que isto me aconteceu?»; «Logo a mim?!»; «Eu não fiz nada!»; «Estava tão sossegadinho!!!»
Dei comigo a gargalhar sem conseguir parar. O “ Face” tem destas coisas…Por vezes, inesperadamente…, catapulta-nos para as nossas memórias!
Lembrei-me logo da sova que eu e o Francisco José apanhámos das respectivas mães porque, daquela vez, a “distracção” não correu bem, não correu mesmo nada bem!
A “distracção” - naquele tempo em que tudo era real e vivido ao segundo- consistia em atirar umas inofensivas pedrinhas ao cortiço das abelhas e depois…depois… depois era correr, ziguezaguear, era ” pernas para que te quero!…”. Só parávamos de correr quando deixávamos de as ouvir zunir furiosamente atrás de nós. Só nessa altura é que apurávamos os “estragos” e arrancávamos os ferrões.
Daquela vez, a coisa correu mal! Diria que correu muito mal! Hoje, rememorando, penso que o “desastre” se ficou a dever ao facto de se ter associado à ”diversão” um magano mais espigadote que, em vez das inofensivas pedrinhas, arremessou um calhau ao cortiço.
O impacto daquele calhau deve ter causado um autêntico terramoto! Esbaforidas, enraivecidas e completamente desnorteadas, “as madames” abandonaram em massa o cortiço. Vai daí.., atacaram tudo o que mexia e tudo o que não mexia, tivesse ou não tivesse a ver com aquele inusitado impacto, como aconteceu com o pacato e recatado quarteto e demais vetustos assistentes que, habitualmente, durante horas e horas jogavam à sueca na fresca e calma esplanada do bar do Virgílio.
Não sei porquê. Ainda hoje me dá gozo dizer que não sei porquê que, de repente, instalou-se uma tal algazarra naquele pacato grupo. Ele entrou num frenesim desesperado, levantaram-se uns, tombaram outros das cadeiras, partiram-se copos e garrafas, espalharam-se pelo chão as cartas, atropelaram-se os mais lestos, debandaram sem nexo enquanto se encharcavam de palmadas e chapadas. Coisa estranha?!...
Para agravar a situação, “aquelas desalmadas”, “aquelas estraga-prazeres” sem pontinha de sentido de humor e intolerantes, começaram a serenar e a formar novamente “cacho” na esquina da porta principal do bar do Virgílio.
Dois daqueles vetustos, também de fraco humor, também com as respectivas caras já inchadas de tantas picadas das intolerantes abelhas, levaram-nos arrastados pelas orelhas, às nossas mães e ainda complicaram mais a situação quando lhes disseram, com verdade, que nos tinham avisado para deixarmos as abelhas em paz.
Confesso que não me lembro de ter apanhado uma sova tão grande e tão dolorosa com a mangueira do jardim. A minha mãe estava desvairada! Ao Francisco José nem o facto de estar com os olhos tão inchados que não os conseguia abrir, lhe valeu de nada! Comeu a “sopinha de macaco” todinha e a ferver!
Epílogo:
Dias mais tarde, novamente, numa convivência pacificada e sem rancores, eu e o Francisco José, tristes, enfadados e quietinhos, olhávamos para o realojado cortiço com ganas de lhe atirar umas inofensivas pedrinhas, enquanto eles, numa alegre algazarra recorrendo a olhares e sinais eivados de implícita batota, com gáudio, cortavam as jogadas com trunfos que batiam com força na mesa, açambarcando os pontos que rendiam os incautos Reis, Damas, Valetes e uma ou outra desprevenida Manilha.
Quem me dera aquele tempo! Quem me dera, poder tornar a atirar umas inofensivas pedrinhas àquele cortiço…e que se lixasse a merecida tareia…!
Memórias minhas, dolorosamente boas! Ai!... Quem me dera!!!…
Obrigado, “FACEBOOK”!

PS: Na versão moderna destas memórias, uma criança com dez anitos, sozinha, num quarto escuro, enfadada, acaba de atingir o nível dez do seu jogo (virtual) e com uma metralhadora destroça impiedosamente aquele cortiço, mata os velhotes e com um míssil faz implodir o bar e a mãe perde a custódia do filho por violência e maus tratos…

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