As cobras!

As cobras fazem parte dos pavores mais entranhados no profundo do meu inconsciente. São um pesadelo recorrente nos meus sonhos indesejados!
Rastejam nele com a mesma letal e insidiosa falsidade e maldade com que rastejam no mundo real. Elas são entre todas as criaturas da natureza, aquela que mais incorpora da essência da maioria dos humanos.
Cobras comem cobras, cobras matam cobras, cobras perseguem cobras, cobras são falsas para as próprias cobras e até há quem em desespero invective contra humanos: - És falso como as cobras! Assim invectivam porque as cobras de má igualha nem as da sua espécie, aquelas tão iguaizinhas a si próprias, poupam. Qualidade que por inteiro roubaram, certamente, aos seus mestres humanos! Categoria de humanos – talvez mesmo uma subespécie- que conheço e que conheci nos longos e perigosíssimos caminhos que tenho percorrido na minha vida.
Ainda pequenito, talvez ainda pequenino, um cobrão dentro da minha família, do tipo das víboras cornudas, por inveja, picou-me várias vezes, injectando o seu peçonhento veneno repleto de inveja odienta, daquele que nos atrofia, nos corta os passos, rouba-nos o Sul e desnorteia-nos, baralha-nos o discernimento sem que saibamos o porquê daquilo que nos está acontecer e, na nossa inocência, convencemo-nos que é apenas da pouca sorte ou dos maus caminhos. Sim, de facto, também é pouca sorte ter um cobrão daqueles na família, o resto…, é mal de veneno de cobrão, consequências de peçonha que só desaparece com a morte do bicho, porque uma vez cobra…, cobra para sempre!
Depois fui crescendo e caminhando… Caminhando o meu caminho, nada procurando nem nada me atrevendo fora dos seu recto traço, mas elas…, de rápido ziguezaguear, rectas não conseguem caminhar e, por isso, não têm caminho próprio, indo inevitavelmente parar ao caminho dos outros.
No meu caminho, esquivei-me de muitas, matei algumas, pisoteei desesperadamente muitas mais, pontapeei outras tantas, porque infelizmente, aqui, ali, acolá, além, mais além e no distante a perder de vista, lá estavam elas…, e eu ainda nem sabia que esse, já doloroso caminho, era apenas um tirocínio…
Quando finalmente encetei a sério o caminho do meu ganha pão diário, então sim, então embrenhei-me na pior das selvas. Embrenhei-me na selva das profissões liberais e, não satisfeito, segui o desvio ainda mais perigoso, segui o caminho da advocacia.
Completamente só nesse mundo, sem o chapéu do conforto e do amparo da tradição familiar no exercício dessa profissão, sem a protecção nem o auxílio dos “amigos” das mancomunações secretas, das filiações partidárias, dos conluios, dos compadrios e muitos outros “baixa-calças”, ombreei, lutei apenas socorrido pela minha força, pela minha destreza intelectual, pela minha inteligência e ganhei muitas epopeicas batalhas, ganhei a barões, a tubarões e a muito maiores cobrões…, mas perdi a guerra que nunca por nunca poderia ganhar, sem perder os meus valores.
Contas feitas, fiquei com meus valores que me são tão caros, e que tão caros me saíram, e que tão caro me custam, mas que para esse mundo…, são desvalores, são parvoíces… sem valor nenhum, são parvoíces, são saloiices próprias dum desgraçado cabeçudo feliz! Sou um cabeçudo feliz!
Nesses caminhos, lutei muitas vezes corpo a corpo com constritoras enormes, poderosas e aguerridas, deslassando-lhes os apertados e asfixiantes nós com que me queriam sufocar ou com que sufocavam as suas desafortunadas vítimas. Saquei-lhes muitas vítimas indefesas das suas fétidas bocarras. Desviei-me e desviei muitas outras vítimas dos botes traiçoeiros e mortais de rastejantes víboras, cobras capelos, mambas negras e tantas outras povoadoras deste imenso mundo de pesadelos. Chutei e esmaguei a cabeça de muitas peçonhentas, e ministrei antídotos a centenas e até milhares de vítimas das mordeduras de cobras insidiosas, falsas e traiçoeiras que mordem pela calada, silenciosamente, e que até se chegavam a fingir de mortas, só para conseguirem morder mais facilmente. Foram imensas, a teimosia e a força do meu querer!
Assisti, sem nada poder fazer, a emboscadas, botes traiçoeiros, e lutas corpo a corpo horrorosas e mortais entre elas. Vi cobras a matar cobras e vi cobras a engolir outras ainda vivas. Vi constritoras soberbas, convencidas da sua força e da sua invencibilidade, a sufocarem com os seus poderosos anéis, outras letalmente venenosas que com os seus instintos se defendiam e contra-atacavam com mordidelas tão venenosas que acabavam por causar também a morte da constritora que na sua agonia apertava mais ainda. Morriam ambas, sem honra nem proveito naquele abraço mortal em que permaneciam até que os oportunistas viessem aproveitar-se dos despojos.
Neste cruel e perigoso mundo, apenas uma espécie de cobra me picou a sério, repetidamente, sempre sem eu saber nem me aperceber. Contra esse tipo de cobra estou desarmado, estou completamente indefeso e nem sequer tenho antídoto e, mesmo que tivesse, não sei se teria coragem para o usar. Essa cobra é a tal cobra que se reveste com a pele da amizade, duma amizade falsa. Ela encanta-nos, olha-nos olhos nos olhos, hipnotiza-nos enquanto nos vai mordendo sorrateira e impiedosamente.
É triste, é ironicamente triste, porque muitas vezes esta cobra só é descoberta quando entra em conflito com outra ou outras do seu séquito – elas, mais cedo ou mais tarde, acabam sempre por entrar em conflito, faz parte da natureza das cobras- e, quando elas entram em conflito, apossa-se delas um tal frenesim predatório que põe tudo a descoberto!
Nessa altura, desolado, fico com a dor.
Fica-me também o receio aumentado, de poder ser novamente picado por outra cobra disfarçada com a pele da amizade!

*Este texto foi escrito segundo os termos da ortografia anterior ao recente (des)Acordo Ortográfico.

 

COMENTÁRIOS

ou registe-se gratuitamente para comentar.
Critérios de publicação
Caracteres restantes: 500

mais

QUEM SOMOS

O «Figueira Na Hora» é um órgão de comunicação social devidamente registado na ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social). Encontra-se em pleno funcionamento desde abril de 2013, tendo como ponto fulcral da sua actividade as plataformas digitais e redes sociais na Internet.

CONTACTOS

967 249 166 (redacção)

geral@figueiranahora.com

design by ID PORTUGAL