As meninas pintam-se

Hoje de manhã, quando decidiste por fim sair do quarto, cheia de preguiça e de mimo, na sombra cabalística do sol madrugador, disseste-me – amor, vou pintar o meu cabelo. Pensei in loco que estavas a brincar, que era uma forma de nos chamares de velhos enquanto te olhavas pelos encantos e recantos do espelho velho. Aquele que eu digo que tem o efeito reverso do tempo, pois, quanto mais te olhas nele, mais bonita ficas para ele. Sabes? Dou graças a Deus por termos um espelho assim, assim tão belo. E, ao mesmo tempo, tão na dele. Vidro antigo, raro, efuso e belo.
Hoje de manhã, quando saí do quarto atrás de ti, caminhavas toda em espanto. Ao mesmo tempo pensava para mim, porque não em tons de amar belo? Porquê não ser eu a querer fazer algo que está definido e indefinido na ordem natural das coisas? Escutava a tua voz, no seu tempo próprio e espaçado. Olhava para ti, amor, não conseguia ver mais nada. Olhei-te pelo buraco deixado um dia no sítio mais a extremo do atlântico. Vi-te perdida em matéria naufragada de ser, ai, eu quase que me berro, porque amo e tanto que te quero, não nos vejo em desando. Morro de o pensar, credo! Vi-me, vi-te. Celebrei a palavra amo-te no covo autêntico e insubstituível que é agora o feitiço no teu cabelo. O teu beijo no meu beijo. Os teus fios de cabelo ásperos e belos, simples e belos. Únicos, como o extremo do atlântico, onde as nuvens traçam os caminhos dos homens e dos seus afazeres, -essa, eu quero, digo eu a olhar para a tinta húmida presa por um objecto estranho no teu cabelo quase de mar belo.
Consegues ser, sem o saber, as pálpebras no espanto de cada minha manhã, tudo é lato, quando não me abres os olhos de manhã em manhã em manhã. Fico logo farto de qualquer afã. Perco o gosto pelo feio e odeio o belo.
E, hoje. Hoje, quiseste pintar o cabelo de cor sol de agosto, queimá-lo e bramá-lo sem pensares nunca o porquê do espelho além de ver, ser só teu, sendo-o, vive-te e assim pode viver. Eu via-te ali, aqui, além de tudo o que há de mais de belo.
Oxalá, que espreites cada dia o espelho com o mesmo olhar belo.
Oxalá que vivas mais do que apenas nas horas de espelho.
Lá fora tudo também pode ser belo.
Oxalá...peco sim, por defeito.
As meninas pintam-se, oxalá, um ano inteiro, belo.

 

COMENTÁRIOS

ou registe-se gratuitamente para comentar.
Critérios de publicação
Caracteres restantes: 500

mais

QUEM SOMOS

O «Figueira Na Hora» é um órgão de comunicação social devidamente registado na ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social). Encontra-se em pleno funcionamento desde abril de 2013, tendo como ponto fulcral da sua actividade as plataformas digitais e redes sociais na Internet.

CONTACTOS

967 249 166 (redacção)

geral@figueiranahora.com

design by ID PORTUGAL