As partidas da vida

A vida é o porto misterioso de todas as chegadas e partidas. Até à morte, a vida é cheia de chegadas e de partidas nas inúmeras partidas que nos prega.
Da minha cidade, da cidade onde chego e donde me parto todos os dias, gosto da entrada da barra e entristece-me a sua saída, embora ambas sejam o mesmo sítio, apenas lhes mudo o sentido. A ela arribam os barcos que tanto me alegram e que depois à saída com grande tristeza vejo-os partir, mesmo imaginando que sulcarão ondas de sonhos e que se continuarão a cumprir em mil e uma viagens e mais mil e uma outras com atracagens e desatracagens, mas nunca gosto de os ver partir –porquê?
Gosto de ver os barcos a chegar. Rejubilo com a chegada dos barcos que são engolidos num instante pela esfomeada boca da barra tão ávida deles, mas entristeço-me sempre que os vejo sair vomitados numa partida apressada. Alguns, acabaram de fazer a última partida, acabaram de fechar o grande e definitivo círculo que começou com a primeira chegada, o princípio e o fim que balizam um tempo que já foi, já não é, já não será mais, porque já acabou. Na última partida, na passagem derradeira, já os barcos vão mortos e carregados de despojos que foram a vida congelada nas memórias que se apagaram para sempre e delas nem lama ficou. É por isto que não gosto dos fins de ciclos. Embora consciente da certeza da partida que consigo trazem, recebo com alegria as chegadas, excepto –em tudo há sempre uma excepção- aquela última chegada já lacrada com o selo definitivo da partida. Talvez um dia a receba também com alegria…, talvez quando for a chegada da minha partida…
Não gosto da dor da partida que sentem os corações partidos, mas gosto da ansiedade que afunda os cais com o peso das promessas das chegadas cumpridas. Não gosto da dor do desamor que causam as promessas de amor não cumpridas, mas gosto da azáfama da chegada das andorinhas, confirmada com milhares de chilreios e voos rasantes de alegria apressados, mas odeio ver os móveis amortalhados com lençóis brancos. Não gosto de arrumar livros em caixotes, nem gosto de tropeçar nos pedaços amarelecidos dos restos de vidas já passadas, mas gosto do azul e do rosa com que se vestem os recém-nascidos. Não gosto, não gosto porque não gosto mesmo, do amor aprisionado nas letras que dizem o que já não é, letras que estão igualmente aprisionadas dentro de maços de envelopes atados com fitas que asseveram as fitas que elas enlaçam e que não foram senão instantes que passaram num instante. Gosto de ver quatro pés a par e em compasso marcados na areia da praia, testemunhos de sonhos e esperanças num radioso porvir. Não gosto quando os vejo a afastarem-se, marcados pela dor da despedida silenciada pelo orgulho que queima as entranhas com o fogo da incompreensão assassina dum amor que ainda não morreu, mas que se adivinha que terá uma morte muito lenta, torrado no lume brando do desespero e, também não gosto de retornar em memória àquele ponto de partida em que a troca de olhos vazou mil promessas, derramou sonhos, soltou desejos, encantamentos que se transformaram em beijos e em carne na carne e em tudo o mais que o amor traz e depois… o desamor transforma na forçada e dolorosa partida que tudo mata. Menos gosto ainda, das partidas forçadas pelas pontes partidas pelo peso das mentiras desnecessárias que nos deixam desolados e abandonados na outra margem sem forma de a tornarmos a transpor, porque as pontes da confiança nunca mais se reconstroem.
Recebo a alegria das chegadas com a certeza da tristeza das partidas que não consigo e que consigo sempre aportam: bem-vindo; muito prazer em conhecer-te; que bom ver-te; chegaste!!!!, são sempre maravilhas e, maravilho-me sempre com o nascer, seja ele dia, criança, flor, rio, riso ou sorriso; gosto de ver o sol rabugento e ensonado a aparecer, mas sobressaltam-me as incertezas do até já!; do até logo!; do até que desconheço até se é até…, e que desconheço até… até onde é, porque até já a morte –não a minha- me feriu assim com algumas das suas muitas desgraçadas partidas sem graça nenhuma nem regresso possível… «Até ao dia da noite da consoada», foi o reencontro combinado naquela breve despedida, mas que afinal era… senão um final, um até nunca!, perpetuado na sensação das mãos ao desapertarem-se sem saberem nada da falsidade daquele até… já morto de despedida; até aqueloutro instante…, cravado implacavelmente pela morte no olhar já turvado que quebrava sem lógica nem racionalidade a ordem natural e fazia-o partir…, partia primeiro o mais novo para desconsolo e amargura do restante de mim mais velho.
Ficou-me a lição! Ficou-me a lição! Agora, até mesmo nas chegadas gravo o olhar com o meu olhar, tudo gravo com olhos de bem ver e ver bem, porque nunca sei se até… essa chegada vem enroupada do negro luto das despedidas da última partida.
É uma condição da própria vida: para tudo -mas mesmo para tudo- há sempre uma primeira e uma última vez…, de tal modo assim é, que a primeira vez pode ser, ela própria, também a última vez – quem sabe?
A vida é o porto misterioso de todas as chegadas e partidas. Até à morte, a vida é cheia de chegadas e de partidas nas inúmeras partidas que nos prega.

* Este texto, foi escrito segundo os termos da ortografia anterior ao recente (des)Acordo Ortográfico.

 

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