Barca, a velha barca

Finalmente conseguira, reduzi a bom tempo, tuta a tuta, tudo o que não cabia na minha caixinha guru, meio betinha, meio hippy, dos meus sonhos, ora desviados, ora inconhos, que de tão grandes se tinham começado sem a minha ordem a trasladarem-se em pequenos, irrisórios, incómodos, meio erguidos e a custo tentados a serem escondidos dentro de semi-estátuas, de semi-deuses, de semi-divinos.
Deitados e arruinados pelas castas pomposas do vento, pelos esses esses, e pelos outros aqueles. Com conclusões do meu corpo em relação a nus, a nós, a dós. O telefone toca incessantemente, desconheço a voz do outro lado, invento formas e mais formas para não a querer dialogar.
Exponho que não estou aqui, que sou uma gravação breve, respirada e pausada de um ir sem fim para a barca, a velha barca. Que era o que ela de certeza não ligara à procura e não tencionara morrer assim, de e para si.
Eu não sou eu, e até o meu eu não está aqui. Respondi. A para-raios, para que alguém os parta.
Barca, a velha barca. Sonhar é uma doença. Pior doença é não poder sonhar. Pior ainda é isso não o pensar. Acordo. Contemplo o nada. Só assim, o tudo pode ganhar asas e voar nas graças de poder ser um eu, um tu, um um.
Ser tanta coisa e ao mesmo tempo ser um grande Piquet nada. Não há nada aqui. Nada. Perfeito. Só a Barca, a velha barca. Espero que continue assim. Com um bramido parei o tempo e todos os seus calculistas efeitos e defeitos.
A caixa da minha hora-a-hora, aquela que presa ao meu pulso, avisa-me e dita-me constantemente as várias tarefas que me cabem fazer a cada hora que passa, começa a prescrever-me a primeira dose de meia hora. E porque é que elas passam? As horas? As meias horas? Podiam ficar acidificadas de vez, mesmo a mentir. Horas são horas. A vida é só uma. E vem só de uma vez. O resto é mentir atrás de mentir.
Não a uso por falta de memória, pois se esta me falhasse não a punha no pulso, nem lhe dava corda, nem tão pouco olhava mais para ela, e para as tarefas, essas e outras peças, que ela me confina com as suas pressas. Mas hoje, não há nada aqui. Aqui nada. Perfeito. Só a Barca, a velha barca. Espero que continue assim.
Todas as incumbências que a caixa nas disparidades dos dias me confinara, cessaram por ora, não sei bem porquê, se por efeitos do tempo que teimou e passou, ou pelo inverso, tempo que não teimou e não passou.
Tanto tempo depois, engoli dois copos de água misturados com o dentífrico e ao tormento que este me obriga, de me torturar logo de manhã, ordens que vêm do lado, cedo lado, custam tanto a um residente de toda a maldita manhã.
Ao longe vejo-me ao espelho. Não há nada aqui. Perfeito. Só a Barca, a velha barca. Deparo-me e depuro-me ao espelho, um nosso a nosso momento. O tempo não volta, e dá cada volta o tempo.
Não há nada aqui. Perfeito. Espero que continue assim.
Não há nada aqui. Perfeito. Nada.
Só a Barca, a velha barca. Espero que continue assim.
A barca, a pequena e velha barca.

 

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