Benvindo!

Já tinha começado a escurecer quando deparei-me contigo a correres desesperado atrás do carro que te tinha acabado de largar naquele local ermo e frio.
Tentavas desesperadamente alcançar o carro que velozmente se afastava cada vez mais e mais, até o perdermos de vista.
Corrias atrás de um mundo que já não te pertencia, que já não era teu e nem te queria. Desististe derrotado e completamente estoirado. Vi as lágrimas a saírem dos teus olhos. Senti a tua aflição e tornei a reviver sentidamente a dor do abandono.
Compreendi imediatamente que tinham acabo de te fazer o mesmo que alguém me tinha feito há muito tempo atrás.
Parei o carro ao teu lado. Abri calmamente a porta e chamei-te docemente e repetidamente, repetidamente, repetidamente…
Tiveste…, mas já não tinhas nome, porque eu não o sabia e nunca virei a saber. Eras um verdadeiro anónimo e abandonado. Repetidamente e docemente chamei por ti. Chamei, chamei, chamei…, mas tu estavas com o coração destroçado e já não conseguias confiar em mais ninguém.
Como te entendia! Como me revia em ti! Finalmente…, talvez vencido pelo cansaço e pelo medo de ficares sozinho por ali, confiaste no meu olhar e entraste no carro.
Quando entraste, olhámo-nos profundamente olhos nos olhos e, em silêncio, as nossas almas selaram que seríamos inseparáveis. Nunca mais nos abandonaríamos, prometemo-nos!
Apresentei-me, disse-te que me chamava Renascida. Também te baptizei, dei-te o nome de Benvido! Sentiste-te bem-vindo e adormeceste exausto, mas muito tranquilo e novamente confiante. São assim as almas boas: confiantes! O Beethoven que nos embalava ajudou também e, também o quentinho do carro ajudou a relaxares.
Naquele instante voltaram-me todas as más recordações. Ao lado do amor que entre nós nascia, eu expurgava também a dor e o ódio que quase me mataram. Revi-me. Revi-me totalmente em ti –Benvindo-, revi-me naqueles desesperantes instantes de profunda angústia.
Um dia…, alguém também me abandonou…, alguém também me expulsou cobarde e traiçoeiramente da sua, e também da minha vida. Bateu com a porta na minha cara e partiu velozmente como um ladrão acossado, como o ladrão que realmente era.
Corri, corri, corri desesperadamente durante anos atrás dele e daquilo que julgava que ainda era a minha vida e do único mundo que conhecia. Corri em vão!
Desencontrei-me achada num mudo que não conhecia. Encontrei-me rodeada de sorrisos falsos, muitas mãos estendidas falsamente e cheias de nada, muitas camas duma só noite dormida consolavam–me durante as primeiras horas e expulsavam-me durante a madrugada, soberbamente nauseada com álcool barato e rasca. A ilusão do amor acolhia-me à noite e expulsava-me de madrugada ainda.
Nesses tempos definhei! Adoeci! Emagreci! Caminhava rente às paredes tentando fazer para que não me vissem. Temia os pontapés traiçoeiros e as dentadas em forma de risadas e gargalhadas malvadas de quem ainda estava mais perdido do que eu.
Escondia-me só em pele e osso dentro de mim. Caminhava apavorada, sentia-me insignificante e com o rabinho acobardado entre as pernas. Eu nada valia e nada mais me valia. Gania e gemia assustada cada vez que me tocavam ou, simplesmente, me tentavam tocar. As vozes e as falas, por muito doces e mansas que fossem, assustavam-me e causavam dor na minha alma desassossegada e desconfiada, mesmo que fossem festinhas do coração verdadeiramente dadas. Descri totalmente! Perdi-me nos becos e lixeiras que nunca supus existirem e, onde, de resto, nunca fora bem-vinda quando lá aparecida.
A traição do abandono é uma das crueldades maiores e, é também uma das maiores cobardias! Sofri o indizível!
O Aparecido chamou por mim insistentemente. Bem-vinda!, nos meus olhos mo disse muitas vezes. Eu, a medo, sempre com muito medo, gritava e gemia sempre que me tentava tocar, porque na minha cabeça havia sons de pavor horrendos; no meu corpo não havia lugar para festas nem festinhas sequer, só havia feridas, algumas já com crostas e outras ainda a sangrar; no meu peito só havia fome de amor e dor; no meu estômago havia vómitos de ódio e de descrença; nos meus sorrisos havia esgares de medo.
O Aparecido lutou, insistiu com mansidão e com amor e… assim foi vencendo o receio e foi destapando o negrume do abandono pintado na minha vida, até que, por fim renasci e passei a chamar-me Renascida!
Benvido! Para onde eu –Renascida- te levo, existe um Aparecido de amor que me trouxe de volta tudo da vida e tudo devido pela vida, até Beethoven em alegria tocado me trouxe. É tudo isso que a partir de agora te vamos dar também, nada mais temas nunca mais!
Logo lá aparecido e finalmente renascido, serás para sempre também bem-vindo e nós os três seremos: Aparecido; Renascida e Benvindo, todos envoltos em amor. Lá, jamais entrará o traiçoeiro abandono. Prometo-te!

Praia da Cova, entre as 8:00 e as 9:00 horas do dia 3 de Dezembro de 2019.
* Este texto, foi escrito segundo os termos da ortografia anterior ao recente (des)Acordo Ortográfico.

 

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