Crónicas de tudo e de nada: Em tempo de aniversário…carta à Figueira

(Texto escrito para O Palhinhas de 20 de Setembro 2019)

Minha querida Figueira,
Pediu-me o nosso Palhinhas, discreto amigo comum, que em tempo de aniversário da nossa bela cidade eu enviasse uma prenda. Não ao Palhinhas, a ti, detentora da beldade. Pensei, pensei e pensei (tenho sempre que pensar três vezes antes de escrever asneira), e continuei sem saber como é que me ia safar de tremenda trabalheira.
Achei que daria um ar de certa intelectualidade recordar datas e factos do passado mais remoto quando romanos, sarracenos, cristãos e outros que tais se entretinham por estas bandas com conquistas, povoamentos e testamentos reais; ou quando, nos finais do século dezoito, toda a gente rejubila por D. José te conceder a categoria de Vila; ou quando uns anos mais tarde vem de França Monsieur Junot com a ideia peregrina de dominar a região desde aqui até Coimbra, ocupando sem cerimónia o Forte de Santa Catarina. Ah! Mas tu tinhas o Zagalo, académico de bom porte, que com os seus voluntários expulsou os franciús do forte num tremendo mão-a-mão, o que deu um certo jeito ao exército de Wellesley para mais tarde escorraçar as tropas de Napoleão. E com o século dezanove, pujante foste crescendo (não em altura, atenção!), o porto desenvolvendo, aumentando a população, e os turistas espanhóis descobriram, com razão, que a praia, a serra e o rio estavam aqui mesmo à mão! Com o caminho-de-ferro da fronteira até aqui, D. Luís não resistiu e caiu de amores por ti. Quando te viu, bela terra, crescida e desenvolvida, prenhe de actividade, concedeu-te a grande honra de te elevar a Cidade! Era 20 de Setembro de 1882! E passado tanto tempo (137 anos depois) continua lindo o mar; a serra, o rio e o sol ninguém tos pode roubar.

Cidade maravilhosa, orgulho das tuas gentes, bem podias melhorar… e se eu tivesse esse dom estas seriam as prendas que eu gostava de te dar:
- Cidadãos mais cuidadosos que te saibam respeitar, não estacionem nos passeios, não atirem lixo para o chão, paguem impostos a tempo, apanhem o cocó do cão, mas também que participem na tua vida empenhados, não te deixando refém de uns quantos iluminados.
- Autarcas de gabarito (não interessa de que côr) que não embarquem em obras escusadas e fatelas só porque há dinheiro a rodos que lhes mandam de Bruxelas. E que cuidem do que temos: património edificado, histórico e natural, monumentos e lagoas, árvores, dunas e areal.
- Projectos de melhoramento vantajosos e agradáveis, mas que sejam estudados com detalhe e competência, que comecem e acabem, livrando a população do enorme inconveniente das ruas intransitáveis.
- Um sério esforço de marketing, minha amiga podes crer, terá mais utilidade se feito para cativar investimento no emprego do que para inglês ver;
- Uma política de apoio ao desporto e à cultura nas associações locais vai trazer, no longo prazo, maior retorno ao concelho do que os fundos utilizados em badalados festivais.

Querida Figueira, eu confesso, também gosto de te ver enfeitada para as festas, com música e muita gente e alegria no ar. Mas gostava mais ainda de ruas arborizadas, de praças bem arranjadas, de prazos de obras cumpridos, de jardins bem concebidos, de trânsito sem novelos e estacionamento sem atropelos, de sombras para refrescar e comércio de rua a funcionar.
E tudo isto, acredita, eu declaro agora e aqui, não é para te chatear, é porque gosto de ti!
Em tempo de aniversário, estas seriam as prendas que eu gostaria de dar à nossa linda cidade! É poucochinho, eu sei, mas é de boa vontade!

COMENTÁRIOS

ou registe-se gratuitamente para comentar.
Critérios de publicação
Caracteres restantes: 500

mais

QUEM SOMOS

O «Figueira Na Hora» é um órgão de comunicação social devidamente registado na ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social). Encontra-se em pleno funcionamento desde abril de 2013, tendo como ponto fulcral da sua actividade as plataformas digitais e redes sociais na Internet.

CONTACTOS

967 249 166 (redacção)

geral@figueiranahora.com

design by ID PORTUGAL