Divã

Faço um esforço. Fecho muito bem, mordendo-me bem, perdido em mil versões, com a força da verdade de alguém, valendo no nudu o que valem, os meus pequenos e húmidos olhos.
A muito custo, tento sentar-me meio de lado, nem assim, consigo ser-me tão pouco dado. Misturo o meu único amanhã com uma pedra de gelo do meu imaginário. Poderá o Dr. céu estar assim tão longe?
Para ele não há ditado, nem recado. Para ele, o desejo do eu-achado é um abraço de um querido amigo há muito esperado.
Reconstruo passo a passo, peça a peça, o meu de outrora dia-a-dia-relicário. Em cada jardim que não pisei com teimas e pressas de alguém, só vendo o Dr. céu ao de longe. Nunca tentei agarrá-lo, poderia eu beijá-lo?
Sempre pensei que a liberdade em excesso me poderia trazer coisas más. Poderia eu dar-lhe a minha vida para nele poder ser entrelaçado, liberto e dado?
Cansado do esforço, adormeci. Alguém me dizia ao ouvido, haja o que houver, eu estou aqui. Corria e beijava-o. Veio-me ao estômago o que não vi, senti aquele cheiro de borras de café que lá aparecem no recobro do que é isto, o milagre de poder sonhar alguém, sem ter quê, nem como, nem quem, nem porquê.
Ao longe sentia os meus beijos a beijarem-me, os meus braços a abraçarem-me, os meus pés a levarem-me. De repente, acordei e vi que era um erro imaterial, um dado sem mesa para poder ser atirado, um tiro sem testa de animal, ou senão, tratava-se de poesia.
Nada feito, ficou tudo sem efeito. Já quando me ia, chorei de alegria, aqui poesia! ali poesia! Ai poesia, sem ti, eu nada seria.
Sentei-me a lufar no divã, parei e parti, comecei e acabei todas as conversas de homem para homem, que olha para ontem, para hoje, para amanhã. Para si, para si. Sim, poesia, sim, pois ia! Poderá o Dr. céu ser também assim?
Compreendendo o sonho, só pelo sonho em si? Espera, que eu agora não posso mentir, o Dr. céu já não me deixa ser assim.
Senhor Dr., eu sei quem sou para aí e para aqui? Misturo o dito fruto proibido com aquele meio cigarro aceso, cigarro.
O resto ficou guardado para ser apagado no dia em que aqui me fui achado. Senhora minha vida, fecho os olhos já bem gastos. Olho para a cadeira deposta a meu lado, pudera, como percebo porque não se inclina para o que lhe falo.
Misturo o tom mesclado da voz do divã com o cheiro da minha ainda iniciante tabaqueira que não aceito pôr de lado. Subtilmente, fui tudo sendo nada, eu não quero, nem nunca quis ser encontrado.
No presente deste amanhã, não sentarei mais nenhum lado. Sou tudo, sendo nada, sou toda a hora, que ora se lembra, ora não se lembra (de mim).
Oro, rio e choro.
Assim, vou a todo o lado.
E a poesia me encontra aqui e ali.
Em todo o lado.

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