Doce amanhecer!

Sempre gostei de me levantar cedo. Passados tantos anos continuo a concordar que deitar cedo e cedo erguer é bom, bom, muito bom, sabe bem, bem, muito bem, faz bem e faz crescer até certa idade..., depois mantém e, por fim..., que havemos de fazer?...
Levantar cedo é renascer com o dia no dia-a-dia-de-cada-dia, é apanhar a promissora energia cristalina transportada pelos primeiros raios do - a todos ainda pertencente - sol. É captar o vigor e a energia matinal que alimenta e embeleza tudo, até as flores! Logo pela manhã tudo é diferente, tudo até a gente!
É precisamente de gente gente que quero falar-vos! Nos dias em que de manhazinha, cedo ainda, vou contente e revigorado buscar a Pi ao hospital, finda a sua sacrificada noite de árduo trabalho, costumo cruzar-me com um ancião, bem ancião, muito, mas muito velhinho, bastante desgastado pela erosão do tempo ido, meão e encurvado à força da idade (não perante Deus nem por condutas falhadas!), tremelicante nas mãos e nos passos, indeciso na passada e decidido no querer e na vontade de viver, amparado na bengala que ainda conduz, protegido nas ideias pela boina à esquerda que usa descaída, sempre vidente do seu caminho através das grossas e redondas lentes graduadamente intelectuais, absolutamente necessárias a quem tantas grandes e miudinhas letras durante toda a vida uniu e sentiu. Ei-lo!, deste modo caracterizado! Vede-lo?...
Cruzo-me com ele quando vou para lá, já ele vem de lá para cá. Já ele vem feliz do quiosque dos jornais. Ele vem feliz porque seus já são os dois jornais e mais uma ou outra revista que invariavelmente traz afagadas e protegidas dentro dos jornais dobrados e apertados no sovaco do braço liberto da bengala guiada.
Acompanha-o sempre no canto da boca, o inseparável amigo que o haverá de enterrar e, com ele haverá também de morrer. Bafora um... e evola-se o outro em nuvem branca espiralada e ascendente até desaparecer... Quando muito minguado, logo logo outro cigarro torna a acender.
Debaixo do sovaco prende a sabedoria que conserva. Debaixo do sovaco traz a vontade de ainda conhecer as novidades tristes e as alegrias do promissor dia. Também lá vêm o sudoku; as palavras cruzadas; sopas de letras; as adivinhas e as sete diferenças entre os demais enigmas que lhe ocuparão a mente que não quer ociosa.
Espera-o outro amigo de longo hábito, o seu também velhinho e prestimoso sofá, abnegado companheiro de muitas horas... Deste modo vive, vive com sabedoria e rodeado de muitos e pequenos afectos, vive feliz em si, vive com muita sabedoria que alimenta com conhecimento e novidades que são lenha para a fornalha do seu cérebro, são lenha para manter a destreza e a agilidade intelectual, é esta a agilidade que lhe compensa aqueloutra que lhe falha nas cansadas pernas e que lhe tremelica e indecisa o caminhar.
Por tão grande ânsia de livremente pensar, de continuar a alimentar aquele sereno meditar..., imagino que tivesse sido professor.
Deleito-me a imaginar que tenha exercido a profissão mãe de todas as profissões - a profissão de ensinar!
Imagino-o a formar, a abrir os olhos ainda crianças das criancinhas na manhã do dia da vida. Imagino-o professor daquelas criancinhas que hoje já são pais, alguns até já são avós..., imagino-o o senhor professor de muitos dos adultos que, agora, de manha ainda cedinho com ele se cruzam nos muitos caminhos da vida e lhe dizem com profunda gratidão: «Bom dia! Bom dia Senhor Professor! Estou tão feliz por o ver! Como vai o Senhor?...»
O senhor professor não lhe perdeu o jeito nem a "arte" e continua com o seu distinto ar professoral a "ensinar" à sua reduzida turminha: à sua abençoada "mulherzinha", aluna, companheira e, agora, até mãezinha a quem lê as notícias e com quem desabafa e comenta com desencanto, tantas injustiças que diariamente o assoberbam; aos quatro bisnetos a quem ensina o Bê-a-bá e com quem termina o dia a brincar com carrinhos e a dar a papinha às bonequinhas... com as quais termina o dia desta segunda e regalada infância...
Gosto de imaginar assim, a doce velhice do ainda enérgico e sedento de conhecimento, do sempre professor.
Tenho pena, tenho muita pena de muitos, muitos, tantos, demasiados velhinhos que por egoísmo dos seus filhinhos, -que pela sua pressa em "desviver"-, ficam sem netinhos pequeninos, ficam sem meninos com quem conviver e brincar na sua segunda meninice...
É assim a vida! Ela é tremendamente bela se soubermos bem olhar para ela...
Desejo uma feliz e santa páscoa a todos!
Desejo uma santa e feliz páscoa recheada de amêndoas, chocolates, ovinhos e coelhinhos muito docinhos...
Walter Ramalhete
Figueira da Foz, "sonhado" antes das 8 horas da manhazinha deste Dia da Páscoa, 30 de Março de 2018.
P.S. Este texto foi escrito dentro do meu carro, depois de ter cruzado com o SENHOR PROFESSOR e enquanto esperava pela Pi, em frente ao bailado das atlânticas ondas, escutando aquela suave música de fundo que orquestra alguma jamais conseguiu reproduzir. Dedico este texto com reconhecida gratidão àqueles que foram meus professores e a todos os PROFESSORES!
Ah! Todo este encanto que acabei de viver, foi grátis, foi completamente grátis!, sem nenhum "Costa" - ou outro que tal - às minhas costas..., que maravilha!

* Este texto, foi escrito segundo os termos da ortografia anterior ao recente (des)Acordo Ortográfico.

 

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