E eu respondi: Seres únicos são cheios de coisas

Estávamos apenas os dois naquele pequeno e terrível fragmento de folhas que querias pôr a sobrevoar as nuvens que tu por teimas tuas, por demais olhas.
Agulhas que ferem, agulhas que cedem e de vez em vez nos "molham".
Lembras-te quando decidimos voar juntos? Mais por imposição tua do que por vontade minha? Eu naquela altura só queria um copo vazio e lá dentro toda a vida.
Tínhamos prometido um ao outro que íamos ter mais tempo, e que o tempo ia fruir-nos mais. As coisas, tínhamos de esquecer as coisas. De tanta coisa, que nem sabíamos por onde começar, ou se algum dia iríamos conseguir essa tarefa árdua findar.
Íamos voar juntos, sem coisas. Então, um dia, fizemos as malas, despedimo-nos de toda a gente, os de cá, os de lá, os que choram, os que riem, os que falam, os que se calam, os que atacam que nem baratas, pela frente, pelas costas, aqueles que nos "rimam", aqueles mais imos, aqueles que não dizem coisa com coisa. Até nos rimos.
Até à tia e ao tio nós fomos, e dissemos adeus aos mais pequeninos. Ao dizer adeus, percebi que tudo e todos também iam a algum lado, o mundo gira, gira tanto, tanto, e não vai a nenhum lado.
Será que sabiam? pensava eu para comigo. Assim, ainda haviam mais coisas. Porra! gritei eu. Que pesadelo este, o amor pelas coisas!
E lá anui, e fomos para a pista com o intuito de descolar. Querias ir por aí, sem destino, ou melhor, como que, a própria vida pudesse ser assim. Julgo que o que tu tentavas era tornar-nos imortais, ao abrigo do amor que tens por mim e por essas (mesmas) malditas coisas.
Disse-te em casa que não precisávamos disso, de apanhar aquele compêndio de folhas que certamente nos ia magoar, e tu, na tua forma mais sisuda, respondeste que agora era eu que estava com coisas.
Mas que coisa, respondi-te eu. Disse-te e recordo-me perfeitamente do teu olhar enquanto te falava, brilhava tanto que parecia que beijava a vastidão do oceano ao mesmo tempo que disparava titanescos incêndios pelas serras sem ar.
Serei eu a pessoa correcta para pilotar? Perguntei-te eu a medo enquanto entrávamos pelas folhas adentro. Tu. Tu começaste a rir, começaste a correr, a lamber as nossas fadigas que tinham ficado nas folhas, nas cinzas, puseste o cinto, e disseste: vamos lá acabar com as coisas.
Atibiei com medo do que podíamos encontrar e vim embora, fugi, peguei nas minhas malas e voltei para casa.
Passado algum tempo, tocaram à campainha, eu não sabia de ti, nem se tinhas ficado presa com mais coisas ou se tinhas partido com elas.
Apareceu-me um puto acompanhado por um velho, nunca os tinha visto na vida, um com camisa amarelecida pelo sol e o outro empobrecido de tão mole.
Perguntaram-me o que se passava, por que é que eu tinha deixado a noiva no altar. Tanta coisa e no final, tinha-te deixado sozinha a tentar voar.
Ao que respondi: Seres únicos são cheios de coisas, deixem-na voar, primeiro ela precisa de perder o amor pelas coisas.
Ao mesmo tempo, estava quase descansado, pois pressentia o teu destino.
Era o fim de todas as coisas, já lá tinhas chegado e eu já de lá tinha vindo.

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