Eduquemos os meninos e também as meninas!

“O amor não está na posse. O amor está na apreciação.” (Osho).
Na apropriação não há amor. A apropriação traz quase sempre a escravatura e até, muitas vezes, a morte, sendo a mais subtil de todas, a dos sentimentos, aquela que se sente mesmo que não se veja, que congela por dentro mesmo que não transpareça por fora, aquela que pode parecer que não é, mas que é, mesmo que não pareça.
“O amor não está na posse. O amor está na apreciação.” (Osho).
Incutiram-nos a ideia errada que o amor é um sentimento que só se completa quando é correspondido. Felizmente ou infelizmente não é bem assim: infelizmente, porque ele é maravilhoso, é poderoso, é sonho quando é correspondido e, por isso, o ideal é que fosse sempre assim, devia ser sempre correspondido; felizmente, ele é tão poderoso que mesmo quando não é correspondido, quando é solteiro, solitário, divorciado, viúvo ou até mesmo cego, tolinho, é amor. Pode até ser pesadelo, mas é amor e existe, e pertence apenas a quem o sente, não é diminuído por isso, talvez seja apenas um sem-abrigo solitário cheio de sonhos e de dignidade.
O amor pertence exclusivamente a quem o sente. Quem sente amor, sente-o. Ponto! É um sentimento que não tem de pedir desculpas a ninguém por existir. A ninguém: nem a quem ama, nem tampouco a quem é amado.
Quando ele não é correspondido, não deixa por isso de existir. Pode tornar-se “sossegado”, quase silencioso e oculto. Pode transformar-se num agridoce que tão depressa adocica, como amargura o coração que o alberga. É um sentimento que apenas se defende e protege na penumbra do silêncio e do segredo, fechado dentro do cofre seguro do peito de quem ama. Existe lá, e, na maioria das vezes, por lá morrerá, quando morrer também aquele que ama sem ser correspondido. Esse amor talvez seja o mais genuíno, o mais verdadeiro de todos, porque não tem intuitos de apropriação, não se exacerba, não demonstra ciúme, é um sentimento sossegado, conformado, que nada reclama, que se dá fielmente sem nada esperar em troca. Raramente é desalojado por outro, mas…, é sabido que o amor também é um sentimento muito caprichoso e volátil… Esta é a minha ideia, posso estar muito enganado…
“O amor não está na posse. O amor está na apreciação.” (Osho).
Passarinho que não pode voar porque lhe cortaram as asas ou porque está preso numa gaiola, pode ser tudo, até pode transformar-se num gatinho com um lindo biquinho, mas jamais será outra vez um verdadeiro passarinho.
O mesmo acontece com o amor quando lhe cortam as asas ou quando o prendem numa gaiola, mesmo que ela seja feita em ouro maciço, seja incrustada com as pedras mais preciosas, seja feita sob a forma duma coroa real e transportada dentro dum coche luzidio e dourado, puxado pelos mais belos e garbosos alazões, porque “o amor não está na posse, o amor está na apreciação”. (Osho).
Papás e mamãs; “pofessolas e pofessoles”; “picólogos”; “abózinhos e abózinhas” ensinem-nos enquanto somos ainda meninos, que o amor é como as lindas borboletas que são muito mais lindas a voar livremente e que ele, tal como elas, morre, seca, fica imobilizado para sempre, quando lhe espetam o mortífero alfinete do ciúme e da apropriação.
Alertem as meninas, eduquem-nas, ensinem-lhes, mostrem-lhes que o ciúme é o primeiro indício da falta de amor. O ciúme é sintoma de doença perigosa e incurável que mata o amor. Alertem as meninas, eduquem-nas, ensinem-lhes, mostrem-lhes que o amor já morreu quando se tornou violento. Amor e violência são tão incompatíveis quanto a luz e as trevas. A violência é a campainha que soa para avisar que o amor morreu e que a relação morreu também.
Papás e mamãs; “pofessolas e pofessoles”; “picólogos”; “abózinhos e abózinhas”, alertem as meninas, eduquem-nas, ensinem-lhes, mostrem- -lhes, incutam-lhes nos seus espíritos que quando aquela campainha soar pela primeira vez, que quando aquela campainha soar pela primeira vez, devem fugir, gritar, pedir socorro, denunciar, defenderem-se e nunca mais permitir que o agressor doente se volte a aproximar delas, mesmo que dentro delas continue a existir amor por ele. Ensinem-lhes que o amor pertence exclusivamente a quem o sente. Quem sente amor, sente-o. Ponto! Ensinem-lhes que o amor é um sentimento que não tem de pedir desculpas a ninguém por existir. A ninguém: nem a quem ama, nem tampouco a quem é amado. Quando ele não é correspondido, não deixa por isso de existir, mas nunca mais permitam que o agressor doente se volte a aproximar delas. Ensinem às meninas que se não conseguirem esquecer aquele amor que sentem, que vivam esse sentimento dentro de si em segredo, sosseguem-no, vivam-no em profundo silêncio, mas longe…, tão longe que os olhos não vejam, nem os ouvidos tornem a ouvir o doente agressor, porque o amor pertence exclusivamente a quem o sente.
Veio-me tudo isto à mente pela conjugação de dois factos: o das crescentes notícias da morte de mulheres às mãos de agressores doentes que matam a coberto dum amor inexistente, e porque entretanto acabei de ler “o remorso de Baltazar serapião” de valter hugo mãe (não se trata de erro meu, nem de minha desconsideração, ele é que escreve tudo com letra minúscula). “o remorso de baltazar serapião” de valter hugo mãe é um marco na forma de escrever na língua portuguesa. Abre sem dúvida novos caminhos. Fará escola. A obra em si, trata a temática do ciúme no amor, a apropriação do outro ser e “a latere” trata das suas causas e consequências.
baltazar serapião foi um menino e agora já é quase homem (porque HOMEM nunca será) que é vítima -a par com a sua vítima, a sua amada ermesinda- da educação, do ambiente, das relações de poder e submissão, dos preconceitos, dos exemplos, da violência social de muitas épocas seguidas e somadas, violência essa que ainda está muito presente e muito viva nas sociedade árabes hodiernas.
Ele, os seus irmãos, os seus pais, os seus amigos, os seus vizinhos e todos os seus contemporâneos são tão vítimas da tradição e das trevas, quanto o foram os seus avós e os avós dos avós dos avós e por aí atrás no infindável recuo temporal.
Para trás não há nada a fazer para além de não repetirmos os erros e, para diante, eduquemo-nos e eduquemos os nossos baltazares e as nossas ermesindas.
Mais não digo…, leiam o livro, leiam-no devagarinho, sintam-no a fazer doer, sofram-no dentro de vós, dai-o a outros para que o sofram também aprendendo, para que possamos todos nós educar os meninos e também as meninas, ensinando-lhes que: “ O amor não está na posse. O amor está na apreciação.” (Osho).

*Este texto foi escrito segundo os termos da ortografia anterior ao recente (des)Acordo Ortográfico.

 

 

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