Entreabertas

Às vezes, deslizo a chave pelo ferrolho
se queres saber
não sei se é porque me olho
sinto com alegria o manuseio da ferrugem
que deixo de propósito, como plano de fuga
de nascente a oriente
esse eterno “paleio”
para poder ir
e saber que sou restolho
de penugem em penugem
como o pó nas folhas
o que tanto me delas me produzem
que me fazem
de pulha a pura etérea aragem
no trinco, que trinco, da entreaberta portagem
às vezes, encontro-me comigo
sem me estar
sem me ver
penso que sou eu
ainda não tive verdadeiramente
a oportunidade para me achar
de pé, sentado ou deitado
no quarto, ou
na sala de estar
se queres saber
nem me quero com isso
sequer importar
que importa se sou eu
importa se me sou
nisso, quero um eu
nas entreabertas, sei ver
sei-me abrir
sei-me fechar
ao que chamam de libertar
eu chamo de entreabertas “transportar”
com um ir
com permissão ou não para voltar
não sei se faço o conveniente ou imperfeita”mente”
por aí, caminhar
nem sequer se sou homem
se sou gente
ao passear em mim
vejo tanta coisa, que me perco, que coisa
pondero se são os sonhos que constroem a minha realidade
ou se é a realidade a construir-me em sonhos, seja o que for
será assim
temos de ter
temos de ser
aventuras de mim
subo ao primeiro degrau
menos mal
algum transitário dá-me uma pista
um sinal, um ideário, um pessário, uma alpista
uma ordinária ideia, afinal, ou um verdadeiro artista
não corro até me perderem de vista
fico sentado a meio no quintal
venham, venham
os galos correm na pista
sou o árbitro e o treinador
de tanto jogo de animal
de tanto jogador
auguro que nem numa nem noutra
jogada sairá um ganhador, ou
me achem, por final
a minha primeira encarna-acção
se me amo
se me odeio
eu já não me sei
se me broto
se não me “levo” afinal
não há junção,
talvez uma “segunda de mão”
seria o ideal
e, talvez devia
ser outro
a quem o desejo beija aos pedaços
a quem os pedaços deixam o desejo
ao que eu sou de besta, de animal
de beijo
do que sei e do que faço
o que interessa são os ósculos
o resto,
para quê, afinal?
lá me perco outra vez, por sinal
a porta está entreaberta
a janela também não
olho para mim e fujo para outro lugar
dou e não dou a mão
para a encoberta parvoíce
de tentativa de homem hermético
há entreabertas por encontrar e descobrir
nem aqui, nem ali
eu já não me sei
já não me encontro
o que interessa são os ósculos,
mínimos males
sou e não sou assim

 

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