Fugas!

Querido Zéquinha:
Partiste!
Por fim partiste depois de muito me afligires e a muitos outros mais também.
Essa tua inconstância; esse permanente descontentamento; esse não estares bem em lugar nenhum; esse nunca estares bem onde estás e, tampouco, onde nem sequer estás; esse estar mal contigo e com todos os outros também; esse tormentoso cabo que te atormenta e dá cabo de ti e de nós também, não se resolve com partidas nem com fugas de ti próprio.
Não há Nepal, -essa Meca dos transviados e dos insatisfeitos-, nem Conxichina, nem Everste, nem Farwest que te valham porque partiste com todos os fantasmas que te atormentam. Partiste para fugir unicamente de ti e dos teus estimados demónios, partiste por não quereres admitir que eles não calcorreiam as ruas por onde passas, nem pesam no voo dos passarinhos que as habitam, a esses bastam-lhes os seus. Os que te atormentam vivem, alimentam- -se, escondem-se e multiplicam-se erraticamente à prova de prova nenhuma dentro da tua cabeça e são filhos dos teus pensamentos absurdos, doentios e malvados.
Bem podes percorrer o mundo, porque esse mal não se combate com a contemplação de paisagens idílicas. Esse mal não se combate, nem se vence por percorreres milhares e milhares de milhas, porque sabes muito bem que esse mal és tu próprio. Esse mal está em ti, está na tua essência e só o podes vencer secando a fonte donde ele brota, limpando e modificando os teus pensamentos e os teus sentimentos.
Procura-te! Olha-te nos teus olhos com verdade! Encara-te! Deixa de mentir a ti próprio! Já só consegues mentir a ti e aos poucos incautos que inadevertidamente tropeçam em ti, porque esse sorriso tão lindo quanto pérfido já não engana nem encanta.
Vai! Vai sim! Vai com pressa e para muito longe! Leva-os contigo! Leva esse maldito séquito para longe, para muito longe! Continua a acarinhá-los! Alimenta- -os bem de ti! Multiplica-os até..., mas dá- -me descanso! Faz boa viagem e goza uma longa estadia por lá e, se possível..., até sempre!
Da, nunca mais tua, Miquinhas
com um beijinho de grande alívio e de muita satisfação!
NB: Encontrei uma bola de papel amarrotada e, como sou muito curioso... Apenas lhe dei o título.
Nunca saberei se chegou ao destinatário, mas de qualquer forma..., serve para pensarmos...

Figueira da Foz, 5 de Dezembro de 2019

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