Fui à minha procura

Hoje não resisti à solidão que sinto de mim e parti à minha procura. Fui tentar descobrir por onde ando, por onde me perco e o que é que ando a fazer. Há imenso tempo que não sei de mim! Será que me perdi para sempre por aí…, sem nada ter para fazer, nem para dizer de mim a mim? – bate-me forte a angústia.
Sinto que o tenho de encontrar-me urgentemente, porque me sinto perdido de mim com tantas saudades de mim e só minhas... Quero desesperadamente pedir-me desculpa e perdoar-me, necessito-me de dizer-me na minha cara com a maior simplicidade e franqueza: - Desculpa-me! Perdoa-me! Desencontrei-me e perdi-me de mim! Perdi-me de mim há tanto tempo… Andei por aí nos círculos concêntricos de diâmetros diferenciados e espalmados nas ilusões da vida que não nos levam senão ao constante recomeço desta caminhada para o nenhures de final de duvidosos sentidos…, enquanto passava enganosas tangentes a mim próprio, menino pequenino que apavorado chorava com saudades de mim mesmo, imóvel, quieto, parado, paradinho, abandonado e pasmado perante tal absurdo…
Assim se passaram muitos anos, passaram-se dezenas de anos e eu sempre naquela minha teimosia, embirrado e de costas voltadas para mim, porque queria crescer rapidamente, queria depressa e à pressa ser homem – sem saber sequer o que é ser homem e sem saber que me negava assim a mim e ao homem que tanto queria ser.
Agora, relativamente a esse meu passado passado sem história de mim, já cerrado na interminável noite escura e sem ilusórias promessas, mas que também já não me preocupa nem me faz sofrer porque já desponta uma nova manhã carregadíssima de esperanças, também elas ilusórias como foram todas as outras anteriores – maldita madição amaldiçoda!
Olha!, meu querido menino!, mesmo que morramos agora encontrados, morreremos ainda meninos e puros com as lágrimas grossas a correrem-me-nos pela face cheia de saudades de mim. Foi muito bom, foi maravilhoso porque é dádiva de Deus… ainda te ter-me encontrado.
Enquanto te me procurava a mim nos caminhos perdidos desta vida não menos perdida de mim, perguntava a muita gente por mim e todos me respondiam que não sabiam de mim e…, que também todos andavam à procura de si.
Foi quando um menino muito velhinho ou um velhinho muito menino – não tenho a certeza- me disse que todos nós morremos reconciliados com o menino pequenino que fomos e que nunca deixámos de ser, e que é por isso que a nossa querida mãezinha por quem chamamos sempre, também chamava sempre pela sua querida mãezinha…

* Este texto, foi escrito segundo os termos da ortografia anterior ao recente (des)Acordo Ortográfico.

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