Gosto de viajar

Gosto de viajar. Quando viajamos crescemos dentro de nós. Contudo, viajar não é simplesmente deslocar o corpo de um lado para o outro, não é simplesmente deslocá-lo do ponto A para o ponto B. Viajar é muito mais do que isso.
Muita gente esgota-se, esfalfa-se a carregar o corpo dum lado para o outro, fazem-no até esgotarem o abecedário com o nome dos países visitados e até esgotarem os passaportes com os carimbos dos pontos de destino, geralmente, sítios distantes e prenhes de exotismo, mas verdadeiramente, muitos deles nem sequer chegam a viajar.

Muitos regressam sem terem visto quase nada. Regressam sem terem sentido os locais, o ambiente, enfim, regressam sem terem estado lá. Regressam sem saudades e sem terem trazido um pouquinho de lá e, tão pouco, sem terem deixado lá um pouquinho de si. Muitos regressam mais tristes, mais pobres e mais cansados – que tristeza!
Outros viajam verdadeiramente. Sorvem as viagens. Levam de si para lá e trazem muito de lá consigo ou dentro de si.
Os verdadeiros viajantes trazem saudades de lá, e também costumam deixar saudades por lá. Esses fazem por saturar os seus cinco sentidos. Eles distendem incomensuravelmente a sua alma por lá, sentem tudo aquilo em que tocam, saboreiam tudo o que provam, gravam na memória tudo o que veem, tudo o que ouvem e o que cheiram e, sobretudo, aprendem e aprendem muito.
Viajando ganhamos consciência da nossa dimensão, da nossa pequenez, da nossa plenitude, dos nossos preconceitos e também da nossa grandeza!
Quando viajamos verdadeiramente, olhamos para dentro doutros olhos, percebemos outras formas de olhar a vida, tocamos em mãos cheias de outros “saber fazer”, ouvimos vozes e proferimos palavras e gestos que sabemos serem definitivas e que sabemos que nunca mais repetiremos. Guardamo-las na nossa memória porque sabemos que são irrepetíveis, sabemos e sentimos que são os verdadeiros - nunca mais!
Por isso, nunca mais me esquecerei daquela menina que algures no profundo interior do Estado de Goiás, isolada numa fazenda, ficou encantada por conhecer um português – que por sinal era eu. Ela saboreava as diferenças nas palavras que eu usava e saboreava as diferenças da minha pronúncia. Ela chegou a ir buscar uma lapiseira e papel para verificar que eu usava o mesmo alfabeto e que escrevia as palavras da mesma forma que ela.
Para saciar-lhe a sua curiosidade relativamente ao sítio donde vim, tive que desenhar essa parte do mapa com o Oceano Atlântico a separar os três continentes e, depois tive que sinalizar Portugal no extremo ocidental da Península Ibérica, tive que tracejar a rota do avião desde Lisboa a São Paulo e a sua travessia sobre o Atlântico.

De são Paulo ao ínfimo pontinho onde nos encontrávamos, eram terras por si pisadas, relativamente a essa parte da viagem era ela que me dava lições.

Ali, naquele pontinho deste imenso mundo, estava eu e a menina. Os meus outros companheiros de viagem estavam uns metros distanciados de mim, protegidos do sol escaldante por um alpendre, eu optara, dadas as minhas particulares circunstâncias, por permanecer no carro.

Quais as razões, quais os desígnios, quais os acasos, que me levaram até ali - perguntava-me com a absoluta certeza de nunca vir a saber.

Ali estávamos, eu e a menina. Estávamos separados por tempos tão distantes e tão diferentes, mas estávamos ali, estávamos naquele presente, e, naquele presente, ela juntava os seus três tempos: passado, presente e futuro e, ainda me dava um grande e delicioso presente.

Do passado, dizia-me que a sua professora lhe ensinara que quando os Portugueses chegaram ao Brasil, aquelas terras estavam repletas de árvores vermelhas que, vistas à distância, pareciam que estavam a arder. Foi por isso que eles puseram o nome de Brasil àquelas terras. Disse-me ainda, que os descobridores gostaram tanto daquelas árvores que as arrancaram todas e as levaram para Portugal e que agora já não existem mais daquelas árvores no Brasil.

Por uns momentos fiquei a olhar para a menina, enquanto pensava no lado perverso da história, enquanto pensava nos complexos e nos preconceitos que remanescem da colonização, sempre tão presente, e também ainda tão presente noutros povos doutras nossas antigas paragens.

Optei por brincar com a situação e, com um ar muito sério disse à menina:

- Se os Portugueses levaram essas árvores todas para Portugal, agora Portugal já não é mais Portugal, mas sim um Brasil e, aqui não é mais um Brasil porque, aqui, agora, só há muitas árvores verdes, portanto, aqui, agora é um Verdil e, lá, é um Brasil, não achas? – perguntei-lhe com sofisma.

A menina abriu a boca de espanto, mas como era muitíssimo inteligente, imediatamente me disse:

- Não! Os Portugueses só levaram as árvores, mas deixaram o nome. É por isso que aqui ainda se chama Brasil, e, lá se chama Portugal.
Depois, astutamente, mudou de assunto e, do seu presente, disse-me que gostaria de ir viver para a cidade por causa da Internet e, do seu futuro, disse-me que queria ser como a sua professora. Queria saber tudo, queria saber muitas coisas, para depois ensinar aos meninos.

Desta vez, não lhe disse que eu, do meu presente, queria voltar a ser menino para poder sonhar como ela, ser novamente cheio de inocência e candura e, então sim, poder ainda iludir-me com o futuro.

Isto sim! Isto é viajar, isto é levar e trazer! Quando me despedi da menina, olhei bem para os seus olhos negros e disse-lhe simplesmente: «Adeus!» Não sei se ela percebeu, mas eu sabia que era um definitivo adeus!

Foi também lá, num magnífico planalto no Estado de Goiás, que senti que tocava no céu. É para lá, para esse pedaço de paraíso na terra, que muitas vezes corro para me refugiar. É lá que me imagino a atirar pedras àquela majestosa mangueira, é lá que me refastelo debaixo dela, enquanto me distraio a tocar nas nuvens, juntando-as e afastando-as a meu bel-prazer e é lá que escrevo com o meu dedo na imensa folha azul claro, os sonhos encantados e a poesia pura e livre…, pura e livre, até no tamanho dos versos e das letras.

Mas…, mas em boa verdade vos digo que os verdadeiros viajantes nem sequer precisam de deslocar o corpo nem, tão pouco, precisam de se deslocar do corpo.

Os verdadeiros viajantes, viajam nas suas mentes. Eles deslocam-se em sonhos, transportam-se num simples postal, na fotografia dum rosto, num som, numa de mil palavras ou até nas mil como se fossem só uma.

Isto aprendi com o Fernando Pessoa, que por outras palavras me fez entender, que mais importante que desembarcar em Marselha, é sonhar com Marselha.

Pode-se ir, sem lá estar, e, pode-se lá estar, sem lá ter ido… Para se ser um bom viajante tem que se ser um bom sonhador…, um sonhador não se fica por metades…

Cada vez se torna mais fácil viajar. Nunca foi tão fácil, tão barato e tão cómodo viajar. Nem quando o corpo nos trai, ou quando as circunstâncias da vida nos limitam, somos impedidos de viajar.

Stephen Waking padecia desde muito novo duma muito severa doença neuro-degenerativa, praticamente só conseguia mover os olhos, e, no entanto, provavelmente, viajou mais do que qualquer outro ser humano.
Ele viajou para lá da nossa Galácia, descobriu buracos negros, teorizou sobre a compressão e sobre a expansão do Universo, montado somente na sua prodigiosa mente.

Fernando Pessoa foi tão viajado e foi tão grande que me apetece chamar-lhe Pessoa(s). Ele viajou, viveu, experienciou, tantas pessoas (seus heterónimos) dentro de si e viveu tanto das vidas delas, percorreu mudos e mundos, enquanto fumava à janela do seu quarto na Rua dos Fanqueiros, na sua amada Lisboa, ou enquanto amargurava devaneios e delitos mentais em “delitros” consumados.

Também foram grandes viajantes e grandes sonhadores, Carl Sagan, Albert Einstein, o Infante Dom Henrique – conhecido como o Infante de Sagres ou O Navegador- que com os seus sonhos fez tantos navegadores e tantos sonhadores, Richard Bach e tantos, tantos, tantos outros …

Há tempos atrás, com Umbelino e pela mão de Umberto Eco – agora viajante na derradeira viagem-, viajei até ao reino de Prestes João, sem nunca ter saído da minha sala.

Frequentemente, viajo pelas estradas do Congo, da Libéria, da República Centro Africana ou atolo-me na los lamaçais da BR-230 (Brasil), a famosa Rodovia Transamazónica, porque não há impossíveis, não há viagens impossíveis nem interditas para os verdadeiros viajantes e, sobretudo, porque mais importante que desembarcar em Marselha, é sonhar com Marselha. Pode-se ir, sem lá estar, e, pode-se lá estar, sem lá ter ido…

“Bora” viajar?


*Este texto foi escrito segundo os termos da ortografia anterior ao recente (des)Acordo Ortográfico.

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