Hoje calhou ao Zé Manel! - Histórias com ambulâncias pelo meio

Hoje a vítima é um caloiro.
Refiro-me a um dos muitos amigos que tenho na Corporação dos Bombeiros Voluntários da FIGUEIRA da Foz, insigne senhora que está quase a comemorar os 150 anos!
Foi fundada por GENTE muito grande e foi continuada por GENTE muito grande até aos hodiernos dias. GENTE com um coração enorme e muito generoso. GENTE que dá o melhor de si aos outros sem vacilar. GENTE que num segundo ou num minuto pode ter a sua vida em perigo como aconteceu com a Anabela e com a Alexandra quando a malvada Leslie as apanhou em cima da ponte e lhes levantou várias vezes as rodas da ambulância, rugindo-lhes furiosas ameaças. Uns minutinhos mais tarde e o desfecho poderia ter sido outro…
Sim! Eu tenho o privilégio de lidar e de ser acarinhado por GENTE abnegada, cheia de verdadeiro amor pelo próximo, que se preocupa com aqueles a quem acodem. GENTE que se esforça por cumprir horários, que evita os solavancos, os ressaltos, as guinadas, as travagens bruscas, que nos olha para dentro dos olhos para se certificar se está tudo bem. GENTE que dá verdadeiramente de si!
Para todos sem excepção, e também em nome daqueles que já não têm capacidade para agradecer, aqui fica: - MUITO OBRIGADO! SARAVÁ!!!!!
Posto isto! Vamos aligeirar a vida. Vamos brincar. Hoje é o Zé Manel que está na berlinda!
O Zé Manel é fino no trato e no físico. É um verdadeiro leptossómico e como tal, também come que se farta sem engordar, por isso, causa muita inveja aos pícnicos! Tirando essa desagradável, muito desagradável característica de tudo poder comer sem engordar – que inveja que eu tenho!- ele é um bom camarada, é um rapaz “às direitas” e que as prega pela calada!
Ele é daqueles que depois de as pregar afivela uma máscara com um ar de santinho –daquelas capazes de deixarem uma pedra em pranto- e ciranda entre nós com um ar sério, inocente ou pungido, próprio de quem não sabe de nada e de quem nada fez! Fino! Ele é fino!
Aqui há dias - ele comigo abre-se, faz “pandã” - íamos sozinhos na ambulância e ele começou a rir-se sem conseguir parar. Pouco depois, eu também me ria sem saber porquê. Quando finalmente conseguiu controlar-se disse: « -Não sei se é a Ana Sanches ou se é a Lúcia que está de serviço, mas está a apetecer--me pregar uma partidinha.»
- Então? – perguntei-lhe com o bichinho da curiosidade a morder-me.
Respondeu-me com um ar muito sério: « -Logo baralho o serviço de retorno e entrego algumas pessoas nas moradas erradas e depois sigo para Coimbra, sigo para os HUC onde tenho um serviço. Quando derem pelo erro, começam a chover as chamadas na central telefónica. Estou a imaginá-las atarantadas a tentar descobrir quem é quem e a quem pertence a quem…, estou a imaginar os carros a saírem à pressa e os meus colegas a rogarem-me pragas, a maioria abespinha-se com a mínima contrariedade.» E ria-se…, ria-se sem conseguir parar.
Confesso que também me comecei a rir. Mas…, de repente perguntei-lhe: - Zé, e depois?… Como é que te safas? Ainda a rir, respondeu-me: « -Digo que foi erro do GPS!» - E se algum deles se recusa a desfazer a troca? -retorqui-lhe preocupado.
«-Eh lá! Isso não! É melhor, não! Isso dava uma bronca danada! – disse preocupado.»
Depois, com um ar muito sério voltou-se para mim e perguntou- -me: «-Se lhe contar uma…, guarda segredo?»
- Claro! –respondi-lhe com naturalidade.
Então ele começou a falar: «-Lembra-se que aqui há alguns tempos –deve estar a fazer um ano- alguém trocou as ruas, os largos, as praças, as travessas e até os becos da cidade de sítio?»
- Sim, lembro-me muito bem –respondi-lhe. A Rua da República foi parar à Rua da Liberdade; o Jardim da cidade apareceu no campo da Naval; a Fonte Luminosa apareceu no espelho de água; a Câmara Municipal e o Forte de Santa Catarina trocaram de lugares entre si; o Relógio-de-sol foi posto à sombra e deixou de marcar horas; só não trocaram o rio, a praia e a serra. – Claro que me lembro! Quem é que não se lembra? Fomos invadidos pelas televisões de todo o mundo. Nesse dia houve “ Buarqueiros” que deram consigo a falar “Chinolês” e “Japonolas” para as televisões…. – disse-lhe a rir-me perdidamente.
« -Fui eu! – disse-me com uma confidente seriedade. Fui eu – tornou a repetir ainda mais baixinho. Nunca pensei que desse uma confusão tão grande. As pessoas não têm nenhum sentido de humor – disse para si próprio com um ar agastado. Quando me apercebi, já a ronca tocava, parecia que o som vinha lá dos lados de Tavarede ou de Brenha, sei lá!; a Voz do Mondego emitia as notícias sem saber de onde, nem qual era a sua nova frequência; o meu amigo Jorge Lemos da figeiranahora.com não tinha parança, anunciava ao minuto e até ponderava em nome da verdade informativa, mudar o nome da entidade para figueiraominuto.com. Nesse dia, tudo o que era instituição, tudo o que mandava, mesmo que não decidisse nada, já estava metida na confusão, já estava metida ao barulho; eram reuniões na Câmara com a Protecção Civil, com a Divisão de Trânsito da PSP, com o Comando da GNR, com os Bombeiros, com a Capitania do Porto da Figueira – ninguém tocou no rio nem na praia, vejam lá bem…-, com as Finanças, com a Conservatória do Registo Predial e até com a Central dos Táxis, tudo barafustava e puxava a brasa à sua sardinha.
Aventavam-se soluções, muitas, muitas…, mas nenhuma agradava. Uma delas, para mim talvez a melhor, passava por deixar tudo como estava. Decretava-se uma semana de férias para as pessoas conhecerem a nova cidade e a nova localização das suas casas, dos serviços e do comércio, bastando remover apenas um sinal ou outro de trânsito e mudar o sentido duma ou doutra rua -esta solução obteve a acérrima oposição de alguns dos moradores mais idosos da Rua da Liberdade que alegavam que a proximidade do rio lhes iria agravar as dores reumáticas. Só a Sãozinha é que delirou com a ideia, dizendo que finalmente iria poder tomar completamente nua os seus banhos de sol na varanda do seu quarto das traseiras que agora ficava virado ao rio e sem os embirrantes vizinhos mirones; outra hipótese passava pela simples mudança das placas toponímicas, trazendo a da Rua da República cá para baixo e levando a da Rua da Liberdade lá para cima… e assim por diante. Que não, e não, e não, barafustaram quase possessos o Chefe da Repartição de Finanças e a Senhora Conservadora do Registo Predial, ela porque teria que refazer e corrigir todas as confrontações dos prédios da cidade e ele porque por justiça tributária teria que fazer uma nova avaliação dos prédios para efeitos de incidência do IMI. Entretanto, passavam-se as horas sem se encontrar nenhuma solução a contento.
As televisões, agora com um espaço imenso, montaram o circo mediático no sítio onde era Parque das Gaivotas estendendo-o pela praia adentro no cenário de um magnífico “Sunset”.»
Entretanto, o Zé Manel -que como disse, é fino- estacionou a “carreta” algures, e num tom lamuriento, telefonou para a central confessando-se perdido e sem saber onde estaria agora o quartel e não sabendo sequer como ir lá ter, pelo que ia tentar descobrir onde estava e que voltaria a telefonar.
Entretanto, o Zé Manel esfregava as mãos de contente, à medida que se ia apercebendo do imbróglio que causara. Ia sabendo tudo pela rádio e pelo esforço diligente do também meu amigo Lemos da figueiranahora.com que tudo “Netava” ao minuto.
Estava o amigo Zé Manel descansado quando recebeu uma chamada da namorada –uma aquelas chamadas que só as mulheres sabem fazer e que tiram até um santo do sossego- na qual ela barafustava pelo seu atraso e o informava que já não iam a tempo de ir ao cinema e que acabaram de deitar fora o dinheiro dos bilhetes.
Foi nesse instante que ele caiu em si e resolveu dar por terminada a brincadeira e, por artes mágicas, repôs tudo como dantes e apareceu no quartel para entregar a ambulância saindo de fininho, não fosse alguma colega começar com muitas perguntas…
Para finalizar, disse-me que teve sorte…, porque o cinema, dada a confusão… resolveu, e bem…, devolver o dinheiro dos bilhetes! Teve realmente pena da Sãozinha, a única que ficou muito decepcionda com a reviravolta…
«Nunca mais! Nunca mais!» –disse-me com um ar ainda assustado.
Não é nada! O Zé Manel é um bom rapaz! Ele era incapaz…, foi apenas uma maroteira minha!

*Este texto foi escrito segundo os termos da ortografia anterior ao recente (des)Acordo Ortográfico.

 

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