Maria do Carmo

Dos tempos de menino retenho a figura esguia da Maria do Carmo. Frequência assídua do café, pedia sempre o mesmo
Uma cerveja preta, se faz favor
e o líquido espumoso evaporava-se no espaço de tempo que durava um cigarro. Os olhos pequeninos, pretos como a cerveja e quase sempre brilhantes como o vidro da garrafa, falavam pouco. Da boca, de lábios magros, quase transparentes, ouviam-se palavras rarefeitas, sempre educadas, a confissão de uma dor nos ossos ou de uma noite mal dormida. A roupa aldeã, o avental de cozinha com manchas de gordura e os pés sem meias dentro de uns chinelos baratos, compunham a mulher, que nunca tinha frio.
A cerveja aquece
diziam as outras mulheres, embrulhadas em xailes de pelúcia, aquecendo as mãos agarradas às chávenas de chá e a alma com as vidas do mundo inteiro.
A rapariga fazia limpezas, tinha a força de um animal selvagem, indomável. Ideal para lavar passadeiras, tapetes e acolchoados com água corrente. Deitava as peças sobre o chão, botava-lhes detergente em pó e humedecia o tecido com a água que escorria de uma mangueira. Depois era vê-la esfregar sofregamente, num movimento de vai e vem, acelerado, intenso. A mulher esfregava os tapetes como se esfregasse a própria vida, arrancando das entranhas a sujidade acumulada, desfazendo-se em espuma de sabão.
Era uma besta a trabalhar, a Maria do Carmo. Enchia-se de nódoas negras e, às vezes, entrava a mancar no café, com o sorriso fino aquiescido
Ossos do ofício
dizia, quase a cantar o fado, fatal como o destino e depois
Uma cerveja preta, se faz favor
e por ali se quedava, revelando as preocupações com os gatos vadios, deitados à sua sorte, de que ela cuidava, pondo-lhes às esquinas das ruas sacos com restos de comida como se alimentasse uma prol de filhos.
Quando a cerveja preta deixou de se vender a minha mãe perguntou às outras mulheres pela Maria do Carmo. Convenceram-se todos de que alguma coisa de estranho se passava quando os gatos voltaram a miar esfaimados. Ao fim de alguns dias, a porta da casa da rapariga foi arrombada na presença das autoridades.
Dois cadáveres
disse um homem que entrou no café e pediu um traçado.
O homem matou-a
disse outro, que lia o jornal do dia.
Bebia demais
disse um terceiro que não se sabe o que fazia, nem o que dizia.

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