Memórias de outro

O Luís Alberto III.

III- A LIBERDADE: SONHO E DESILUSÃO.

O Luís Alberto era diferente. Era diferente de todos os outros presidiários. Era afável, bem educado, e isso causava confusão aos restantes. Não conseguiam perceber porque é que ele estava preso. Por isso, questionaram-no: - Roubaste? - Não! - respondeu-lhes afavelmente; Mataste alguém? - Não!! - Violaste? - Não!!! - tornou a repetir-lhes; - Burlaste?!? - Não!!!! - Eles, também, já sem paciência, remataram: Então que porra de merda é que fizeste?!!? - Por fim, explicou-lhes por que motivos estava preso e também lhes explicou por que motivos estava ferido e doente. - Porra!!! - desabafou um deles. - Comparados com esses gajos os nossos carcereiros são uns anjos!!!! Cresceu aos olhos deles! Era finalmente respeitado e estimado. Que grande ironia, começava a reconstruir-se junto, e aos olhos, dos mais “desconstruídos” de todos. Estava a reconstruir-se, precisamente, junto dos excluídos daquela sociedade que, também, tudo fizera para o excluir e destruir. Por isso, ensinava alguns a ler e a escrever, incutia-lhes a noção de respeito próprio e provocou um levantamento de rancho. Os pratos de arroz incomestível ficaram grudados no teto do refeitório. Ele foi parar à solitária onde ensaiara uma greve de fome. O diretor da prisão odiava-o!

Ele, que lutou pelo 25 de Abril, apenas tomou conhecimento dele no dia 26, porque se encontrava preso e isolado na solitária. Já se cantava, já se sonhava, já se vivia em liberdade e ele ainda bebia do amargo fel do fascismo. Só no dia 29 de Abril, só após um telefonema violento, perentório, ameaçador, do Comandante da Região Militar do Centro ao Diretor da Cadeia Regional de Coimbra, no qual, ordenou a libertação do cidadão Luís Alberto - preso político-, até às 15 horas desse dia, sob pena de ele próprio, com a força do seu exército o ir libertar, é que, para si, aconteceu o 25 de Abril.

Transpostos os gigantescos portões da cadeia, já com os pés sobre as pedras da livre calçada, parou, imobilizou o corpo, elevou os olhos para o céu, abriu os braços, respirou fundo e gritou alto, tão alto quanto pôde: - Estou livre! Estou finalmente livre! - À sua esquerda, lado para o qual sempre olhou com desenvoltura, estavam os majestosos e imponentes arcos do aqueduto, símbolo de resistência. Com incontida alegria, via em cada rosto um amigo! Via igualdade em cada rosto! Pensou no Zeca Afonso! Estava feliz, feliz! Já sabia que ele estava também livre! Como livre estava também o seu irmão que, com o advogado, o viera libertar. Soubera que fora o último preso político a ser libertado e que o seu sonho acontecera: Já não existia nenhum preso político em Portugal! Fora o último a ser libertado por causa do imbróglio que a PIDE lhe criou com a acusação por prática dum crime de delito comum.

Finalmente, o 1º de maio é celebrado e cantado livremente, já não precisa de olhar para trás nem por cima do ombro: agora é livre, agora só baila sem casaco e sem gravata, só baila onde quer e com quer, agora já só baila com a sua gente. Finalmente está livre, está livre, até nos sonhos! Não esmoreceu a luta, não esmoreceu o combate político. O Abril das águas mil, não deu água que apagasse o lume do fascismo duma só vez. A luta, agora em liberdade, continuava. A democracia ia-se impondo aos solavancos. O 11 de Março, o 25 de Novembro, o verão quente, o ELP e tantos outros, acontecimentos vão firmando o seu legado na história recente. Frases e expressões diversas vão entrando para os anais da história. Algumas são inconfundíveis e inesquecíveis: -” Olhe que não Dr! Olhe que não Dr!” - “Olhe que sim! Olhe que sim! Elas marcaram antagónicas visões de protagonistas históricos na construção e consolidação da democracia.

Descreu! Descreu e desacreditou profundamente na revolução e no sucesso da implantação da democracia em Portugal quando, com pompa e circunstância, Mário Soares, assinou o tratado de adesão de Portugal à CEE. Não fez parte do coro, nem cantou o famoso refrão: “ Quero ver Portugal na CEE!” Infelizmente, o decurso do tempo veio dar-lhe razão.

Paulatinamente, vão-se “desconstruindo” os sonhos do 25 de Abril: suprimem-se direitos e conquistas; sobem os impostos e baixam os salários; aumenta a idade para a reforma, desconta-se mais e durante mais tempo e baixam os valores das pensões; a precariedade torna-se regra e substitui os contratos de trabalho sem termo; caem, uma após outra, as C.C.T. tão arduamente conquistadas; e mais, e mais... Portugal abre mão de partes importantes da sua soberania: abdica do direito à cunhagem da própria moeda; deixa de poder contar com a medida económica da desvalorização e da valorização da sua moeda; as medidas para o controle da economia reduzem-se, praticamente, ao aumento dos impostos e à redução das regalias e benefícios sociais, consequentemente, a população empobrece cada vez mais, e mais, e mais...
O 1º de Maio deixou de ser o dia da festa dos trabalhadores para passar a ser, novamente, um dia de luta acérrima pela reconquista dos seus direitos. Políticas económicas absurdas e lesivas dos nossos interesses são ditadas por Bruxelas: arrancam-se vinhas; abatem-se embarcações; impõem-se quotas para a pesca; impõem-se quotas para a produção de leite; impõem-se quotas para isto e para aquilo, menos para o absurdo, para prepotência e para o desmando.
O vampirismo, o compadrio, a GANÂNCIA E A VAIDADE, a corrupção e o roubo descarado e impune arrasam a nação.

Com a assinatura do TRATADO DE LISBOA, a democracia morreu! – jura o Luís Alberto - ela, na UE, é uma farsa! Estão lançadas as bases do ambicionado GOVERNO MUNDIAL, senão, vejamos: nos termos do Artigo 17º desse Tratado, a toda poderosa Comissão vela pela aplicação dos Tratados..., controla a aplicação do direito da União..., executa o orçamento e gere os programas..., exerce funções de coordenação, de execução e de gestão. Os atos legislativos da União só podem ser adotados sob proposta da Comissão, salvo disposição em contrário dos Tratados e - agora, a cerejazinha em cima do bolinho - os membros da Comissão SÃO ESCOLHIDOS em função da sua competência geral e do seu empenhamento europeu de entre personalidades que ofereçam todas as garantias de independência e, para que não restem quaisquer dúvidas, os membros da Comissão não solicitam nem aceitam instruções de nenhum Governo, instituição, órgão ou organismo. Amargura o Luís Alberto, no seu doído e desiludido pensar: os Alemães conseguiram, por via da economia, conquistar e dominar finalmente a Europa, aquilo que nunca conseguiram antes, nem mesmo com o recurso a duas guerras mundiais.

Hoje, com frequência, vejo o Luís Alberto, já carcomido pela idade, com lesões nos joelhos e nas veias das pernas, causadas pela desumana pancada sofrida no doloroso caminho para a liberdade. Vejo-o, com o olhar nostálgico, a observar os navios carregados ou vazios que cautelosamente entram pela barra da cidade do seu berço. Eles vêm ou vão carregados, vão cheios das memórias e dos balanços da vida que não viveu e, também, da vida que, por muitas circunstâncias, foi obrigado a viver. Uns vêm carregados com memórias de traidores que se venderam - memórias de ”meninos” que apenas queriam o brinquedo do outro “menino”-, meninos que se “prostituíram”, que se venderam por mais ou por menos moedas, que renegaram e renegam os valores e ideais que, no furor e no fulgor da juventude, fingiram abraçar. Meninos que não cresceram e que hoje ocupam, por via dessas e doutras “diabruras”, altos cargos (brinquedos) e que, sem pudor, açambarcam às pazadas, as legítimas migalhas dos desvalidos, dos reformados, dos forçadamente desempregados e doutros e doutros tantos..., migalhas essas, amontoadas e transformadas em rico, sobrante e desperdiçado pão, que os fazem sonhar com aplicações financeiras, férias em resorts de luxo, estadias no Dubai, carros de luxo, vivendas sobredimensionadas, vivendas daquelas em que as pessoas, se não se perderem, podem passar dias dentro delas sem se cruzarem. Aquelas migalhas acumuladas servem para as desbaratar nas convenientes e indispensáveis Reservas dos vinhos Bacalhôa, nos DOC de outras zonas, nos Vintages, nas avantajadas peças de picanha importada e noutros acepipes “indispensáveis” e de refinado gosto, com que apimentam as festanças nas quais, com selecionados amigos da mesma laia, se conluiem, renovam votos, urdem novas investidas, combinam novos tachos, firmam novas alianças e desfazem as antigas, com o fim de açambarcarem mais e mais, muito mais! Estas manigâncias são facadas na memória daqueles que, como o Zeca Afonso e tantos outros, deixaram de viver outras possíveis vidas, em prol do ideal da liberdade, da igualdade e da fraternidade. Traidores, vampiros, marionetas vaidosas e gananciosas de hoje!

Olha para o que se passa por toda a parte e não consegue compreender porque há tanta fome, tanto sofrimento, tanta maldade. Interroga-se a que perversa “inteligência” serve tanto sofrimento? Que forças se “alimentam” disso? Que maldito “convénio” é este? Porque se escondem? Porque usam “paus mandados”? Porque usam estas “ longa manus” estas marionetas gananciosas e vaidosas? Quem nos engana tão bem e porquê? Ele sabe que é mais do que uma regra básica, é mais do que uma regra elementar, é um princípio, é uma lei universal da matemática, uma lei dessa precisa ciência que determina que, para se resolver qualquer questão, para se resolver qualquer problema, em primeiro lugar é preciso entendê-lo, é necessário equacioná-lo corretamente. A história tem demonstrado que a humanidade, regra geral, gasta mais tempo a equacionar um problema do que aquele que leva depois para resolvê-lo. Intui que está próximo de conseguir equacioná-lo, por isso, prossegue, insiste teimosamente..., pensa. Pensa!

Outras vezes, nos seus ousados sonhos, carrega os barcos com tantos sonhos, mas tantos, tantos que correm o risco de se afundarem. Vão carregadinhos de sonhos, sonhos comuns nos homens de dura e reta cerviz que acalentam no íntimo das suas cansadas almas, que este Portugal ainda se cumprirá e que, como cantou do lado de lá do Atlântico, o poeta sonhador da linda voz: “...sei que estás em festa, pá! … esse país, ainda será um imenso Portugal”!

Orgulho-me de ser amigo do Luís Alberto, de ser amigo desse homem, garbo de dignidade, que à vista de toda a gente, em plena luz do dia, caminha anonimamente pelas ruas onde, outrora, às escondidas, pela calada da noite, quando outros soltavam o sono em convidativos lençóis, pintava nas paredes dessas ruas slogans revolucionários e subversivos que geraram o 25 de Abril! Tenho muita vaidade em ser um dos seus muitos amigos! Tenho o privilégio de escutar muitas das suas memórias, confissões e desabafos!

“Mudar o mundo, meu amigo Sancho, não é loucura, não é utopia, é justiça!”
“Dom Quixote” - Miguel de Cervantes

 

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