Memórias II.

O que somos nós? O que somos nós senão memórias?
À medida que nos mingua o tempo crescem-nos, aumentam em nós as memórias. É por isso que vemos frequentemente os tufos brancos com o olhar perdido num tempo que só existe nas suas memórias.
Estão com os olhos fixos num tempo que nos é absolutamente silencioso. Num tempo mudo e que os ensurdece de saudades. Um tempo que os olhos fixam mas que não procuram, porque ele desfila diante deles, desfila sons, ecos milhentas vezes repetidos, desfila cheiros, sabores, sensações que entopem os sentidos daqueles tufos brancos que na sua imobilidade fervilham de vida e borbulham memórias nos caldeirões transbordantes de pensamentos e ininterruptas viagens no tempo.
Os velhos, essas bibliotecas..., esses acúmulos de experiências irrepetíveis, condensam vida e vivem quietos em muitas vidas. Eles vivem muito, vivem muito mais do que aquilo que podem imaginar os novos que com enfadada condescendência os ignoram, que com enfadada condescendência desprezam e desperdiçam aquilo que com eles podiam ainda aprender.
Os tufos brancos, conformam-se com sábia resignação, compreendem e até a aceitam como moeda de troco daquilo que a outros já fizeram na sua santa e tanta ignorância.
Assim, se passa por estas bandas, assim se passa comigo e em mim, onde o Walter(ido) se apresenta enorme, se apresenta maior que o "Corcovado" ao pequenino e enfezadinho Walter(é), quem sabe?..., ainda muito maior que o Walter(será), quem sabe?, quem sabe?...
Acabo de chegar aonde pretendia. O que somos nós? Somos memórias, somos muitas memórias e nelas vivemos e nelas revivemos intensamente no resto da vida que temos. Muitas vezes tentamos apagar com a borracha do arrependimento e tentamos reescrever com a tinta do perdão ou com a tinta florescente da sabedoria muitos capítulos da nossa vida passada. Tentamos correcções que ela, a vida passada, ignora e que alheada desses furores, desses arrependimentos, mantém inalterado o escrito e escreve para futuro a BOLD e SUBLINHADO, as inevitáveis e inalteráveis consequências...
Gozo, sofro, vivo e revivo intensamente quando a caneta arrastada pela mão dextra espalha memórias a azul ou a preto no branco que com indiferença as aceita. No buliço da minha mente, com verdade, passam diariamente, "flashes" de centenas de memórias em catadupa, às vezes sobrepostas a uma velocidade e sequência estonteantes, sem parágrafos nem pausas ou delimitações.
Alvoraçadas, elas atropelam-se numa cacofonia silenciosamente ensurdecedora, surgem ou desaparecem por tudo e por nada duma forma inquietante e simultaneamente bela e viva: na mais antiga e recorrente, revejo-me a chorar, encolhido num cantinho meu e secreto, entre as mobílias da sala de castanha madeira. Nela, e naquele esconderijo, o menino que sou, recrimina o menino que também sou e que choro, dizendo-me:« Sabias que estavas a fazer mal; Sabias que ias apanhar tautau e, mesmo assim, fizestes!...» Ficou-me a memória..., ainda hoje choro as minhas culpas sem as passar para ninguém, também me ficou..., reavivou-a a leitura da obra de Ana Sofia Fonseca intitulada: "Angola, terra prometida", ela agita-me muitas memórias, remexe-me com muitas..., mesmo muitas..., eu e o meu coleguinha de carteira regressámos do recreio, vínhamos muito agitados e irrequietos, já o punho negro do senhor padre sobressaía do branco imaculado da sotaina e escrevia o sumário do futuro que julgávamos ser a preto e branco, escrito com giz branco na ardósia negra, quando o senhor padre, irritado com a agitação, se dirigiu para a carteira onde estávamos sentados.
Os seus olhos não olharam para mim, ignoraram-me, como se a minha pele fosse de translúcida brancura e fixaram-se no menino negro de bata branca igual à minha e a sua voz em tom conivente, comprometida, eivada de traição histórica e eivada de traição cristã e religiosa, pior que judas, "ósculou" o menino negro, perguntando-lhe:« É assim que o menino se está a preparar para receber a independência? É assim que o menino se está a preparar para um dia conduzir o futuro da sua nação?». Naquele instante percebi a dimensão negra do ódio, percebi que o futuro não seria a preto e branco, percebi que eu branco não contava no futuro vestido de, somente, negro, percebi que o branco da minha pele era de translúcidos direitos e percebi que se até aquele filho de Cristo, servo da Santa Igreja mancomunada, vestido de imaculado branco, destilava ódio negro..., morrera o sonho da igualdade e da fraternidade.
Branco e negro e negro e branco ainda meninos perderam a inocência porque o bom padre negro vestido de branco, mais tarde Bispo e creio que, também, Cardeal, interpusera nos meninos as cores que eles não viam nem usavam..., negros, bem negros, bastante negros, muito quentes e a cheirar a borracha queimada estavam os pneus largos que se desgastaram durante seis horas consecutivas, volta após volta, curva após curva, aceleração após aceleração, travagem após travagem e por fim a bandeira de xadrez branco e preto muito agitada, marcava o fim e convidava os bólides para uma última volta de consagração, desta feita, uma volta calma ao som de muitas palmas e vivas em festa e com entrada directa na área das boxes onde o último ronco e o estertor final davam descanso ao motor que ainda fervia de excitação e as rodas largas a esgueirarem-se para fora dos guarda-lamas abolados onde elas não cabiam e que lhes dava um ar agressivo e musculado reforçado pelos olhos redondos de vidro protegidos por fitas adesivas como as sobrancelhas dos pugilistas e que tornavam o Ford Escort vermelho, num dos carros mais lindos da competição, são "flashes", são na sua maioria "flashes", uns mais demorados, outros mais rápidos, uns mais aconchegantes e saborosos, outros tristes ou amargos, mas que não deixam de ser pedaços de vida sustentados pelas memórias da vida e não consigo, quando me lembro..., não consigo deixar de sentir o calor com que as 14:30 daquele dia de Julho na Praça da República em Coimbra abrasava. Um forno, um autêntico forno, não buliam as folhas e não se expunha o passaredo que chilreava protestos pendurados nos galhos a coberto do verde viçoso. Escolhi propositadamente uma mesa ao sol, precisava de retemperar, precisava de recarregar aquele súbito vazio de preocupações que me levou todas as forças.
Estava sem um pingo de vitalidade, pendiam-me os braços e as pernas molengas negavam-se a suportar o corpo desfalecido. Pedi duma assentada, três garrafas frescas de Água das Pedras. Dum só trago esvaziei uma. Nas minhas costas, do outro lado da rua estavam os Correios. Tinha de telefonar. Tinha urgência em telefonar. Devia telefonar..., mas a lassidão em que me encontrava, não mo permitia..., faltavam-me as forças. Eu estava em festa! Já há mais de hora e meia que não cabia em mim, estourava por dentro, foguetes, fogo de pesado artifício rebentava em lágrimas, línguas e cores mil que só eu via, estouros, canhonadas que só eu, quieto, muito quieto, mudo, completamente mudo, escutava e via... Era a minha festa, estava em festa, fazia a minha festa, gritava, cantava, pulava, chorava, gargalhava correia sem destino com os braços abertos como asas de avião que me levavam aos céus e a pique me traziam de novo à terra. Eu e os meus muitos outros eus que permanentemente me acompanham, abraçavam-me, davam-me "caldaços", limpavam-me as alegres lágrimas, atiravam-me ao ar, puxavam-me para aqui, para ali, puxavam-me, puxavam-me sem destino porque aquela era a hora de me sentir totalmente livre, arrepanhavam as roupas, rasgavam-nas sem intenção, ensurdeciam-me com eferreás contínuos e altissonantes, uma leveza, uma lassidão que nunca experimentara, tomara conta de mim, não caminhava, eu levitava, ascendia, furava o ar pesado, tinha de telefonar..., pedi duma assentada, mais três garrafas frescas de Água das Pedras e dum só trago tornei a vazar a quarta garrafa.
Estava bêbado, completamente bêbado de alegria com aquela água que borbulhava e picava na boca, não controlava dentro de mim as emoções, não cabia em mim, o sonho extravasava, corriam, sonhos, lutas, dores e alegrias pela Av. Sá da Bandeira abaixo, inundavam-na e molhavam os incautos e desavisados transeuntes. Nas minhas costas, do outro lado da rua estavam os Correios, tinha de telefonar, tinha urgência em telefonar..., devia telefonar..., mas comemorar, saborear, era também imperioso, enquanto me deleitava com mais um trago de água que borbulhava e picava a garganta, meu deus!..., que bebedeira de azul e de vida, que desatino tão atinado, guardava, guardava, memorizava, memorizava, memorizava porque estas eram para levar comigo até morrer. Já o sol se cansava, abrandava, começava a correr um fiozinho de vento, retomava o passaredo os voos rasos e estonteantes, algaraviavam ensurdecedoramente, juntaram-se à minha festa, passava já das 16:30 e à minha frente, na minha mesa, seis desoladas e vazias garrafas de água penavam ao sol e nas minhas costas, do outro lado da rua estavam os Correios e tinha de telefonar..., tinha urgência em telefonar, devia telefonar..., a senhora indicou-me a cabine número 3, disquei, disquei ansioso, disquei primeiro o dois, levava o seu tempo até aquela tira em metal, perfurada retornar à posição inicial e poder discar outro número da sequência, era lento marcar um número, demorava o tempo daquele tempo...«Ah! Olá Cida! O meu pai não está aí? Oh!!! que pena! Diz-lhe que acabei! Acabei!!!! Acabei!!!! Estou formado! Beijinhos, beijinhos, depois volto a telefonar!» - ainda ouvi do outro lado: « Parabéns! Para...» Lá fora, também na praça, o Túlio, mais o seu séquito, iam com uma cardina..., ele ia, literalmente, todo roto!
Certamente, já teria telefonado há muito tempo... que alegria! Que alegria..., que alegria!!!! Sempre comemorei e sempre sofri dentro de mim os grandes acontecimentos que deixam sulcos profundos por onde escorre a água que nesses momentos me retempera, me apazigua ou lava as feridas, mas... com dor, com verdadeiro sofrimento que a voz ansiosa e a pergunta persistente avivava perguntava o menino em desespero, ao amiguinho: «Tá liga, né? Tá liga, né?» - perguntava o menino desesperado, enquanto caminhava atrás, enquanto perseguia a soberba do amigo que se ofendera... Ele, ainda muito pequenino, apenas queria certificar-se, apenas queria assegurar-se que a amizade se mantinha, queria matar aquela dor que sentia, queria abjurar aquele sentimento de perda, "tadinho"... meu rico menino..., assim se rastejava ante a indiferença do forte de orgulho, ficou-me .... e ficou-me, ficaram-me também os olhos rasos de lágrimas quando, separados por um enorme vidro e pela incubadora, te via dentro dela, te via enorme, quase não cabias dentro dela com os teus cinquenta e um centímetros e com os teu três quilos e duzentas, mas foi preciso..., foi necessário, por umas horas foi necessário, enquanto ainda estavas roxo, enquanto recuperavas daquele duplo laço asfixiante do cordão umbilical e, eu..., ciciava, ciciava-te: «Olá companheirão, olá rapagão, põe-te bom depressa, quero pegar em ti, quero-te ao meu colo, anda, anda! Sê bem-vindo!, meu menino, meu querido filhinho!» Parecias um gigante no meio dos outros bebés prematuros...SOMOS MEMÓRIAS!
Vivemos, revivemos e prolongamos a nossa vida nelas. Nas memórias saltamos os pontos finais, unimos os parágrafos, esquecemos a pontuação ou maximizamo-la a contento, porque elas correm vertiginosas, estouram como pipocas, às dezenas, às centenas, sem nos darem tempo para as compassarmos, são como os números aleatórios paridos nas tômbolas... MEMÓRIAS... MEMÓRIAS..., O QUE SOMOS AFINAL, SENÃO MEMÓRIAS?!
Este escrevi-o para mim, para meu gozo, rebusquei-o em três minutos condensados na fita contínua da vida em muitas memórias guardada.

*Este texto, por maioria de razão, foi escrito segundo os termos da ortografia anterior ao recente (des)Acordo Ortográfico.

 

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