Memórias!

Histórias com ambulâncias misturadas!

Olho para trás sem mexer sequer a cabeça. É assim que olhamos para as nossas memórias! Olha-mo-las, com os olhos fixos num qualquer ponto à nossa frente, e vemos as cenas do nosso passado. Nunca tinha pensado nisto desta forma: quando olhamos para o passado, nunca viramos a cabeça para trás.

Estou sentado à minha secretária, com a cara amparada pela minha mão esquerda, enquanto a outra -bem mandada!- rabisca as letras que, enfileiradas e agrupadas sob rígidas regras gramaticais, vão compondo estas frases. Ai! Se a senhora professora Deolinda (Mentira! Deus, não a deu linda!) me visse, assim sentado, e a escrever nesta posição, levava imediatamente com aquele maldito ponteiro de cana de bambu que o estúpido do Fernando José -graxista!!!- lhe trouxe. Deu-me tanto trabalho para conseguir sumir o anterior ponteiro e aquele estúpido, aquele parvo, foi, imediatamente, arranjar-lhe outro, ainda mais comprido e mais zurzível! Mas como Deus não dorme, e não faz apenas professoras feias e más, mas também, como sempre ouvi dizer, é um Deus de boa escrita, que escreve direito por linhas tortas, vai daí..., e zás! Quem foi o primeiro a levar, forte e feio, com o maldito ponteiro? Quem foi?...Adivinhem?!?! Pois! Foi ele mesmo! Foi o Francisco José. Bem feita!!!

Mas, hoje, não é dessas intrusas memórias que vos quero falar. Hoje quero falar-vos doutras! Hoje quero-vos falar das memórias minhas e das dos meus amigos vestidos, a meio por meio, azul abaixo e vermelho acima. Também o boné que enfiam à pressa na cabeça, quando pressentem o Comandante, é vermelho. Isso mesmo, estou a falar daqueles nossos amigos que, desesperadamente, numa luta desigual deitam água branda para cima de cerrado e impenitente fogo e apagam-no mesmo !!!!

Há mais de nove anos que esses meus amigos me acarinham. Já sou uma espécie de “Chefe-de-tráfego” daquela corporação. Lembro-me! Calhou-me a Isabel na primeira vez que me transportaram. Ela acabara de retomar o trabalho, decorrida a licença de parto da primeira filha. Como o tempo passa!!! A Isabel já dá parecença de sogra! Feitas as apresentações, entrei para uma IVECO?!? ou seria uma RENAULT ?!? - como o tempo passa!-, sem direção assistida, na qual, a custo, a então franzina Isabel se pendurava no volante para que ela lhe obedecesse. A caminho do hospital, disse a Isabel: Conheço a sua filha, conheço a Preciosa. Ela é muito simpática! Diga-lhe que lhe mando um beijinho! De mau, não desfiz o equívoco, limitei-me a agradecer e a dizer-lhe que lho daria, sim!! Semanas mais tarde, a Providência, Aquele que escreve direito por linhas tortas, encarregou-se de desfazer o equívoco! Coube à Isabel ir buscar o meu sogro às urgências, altura em que a Preciosa, a rir-se, lhe disse: “ Isabel, este senhor é o meu pai.”

Já o meu amigo Rodrigues é, por norma, brincalhão! Está sempre a inventá-las e a pregá-las! Pergunta, à queima roupa, à utente novata: - A senhora sabe onde está? Normalmente, a inquirida espicha o olhar para fora da ambulância e conclui que está em tal parte assim, assim... Não está, não! -responde o Rodrigues. Baralha-se a novata: -Não estou?!? Não! -reitera o Rodrigues. A rir-se, diz-lhe: Está dentro da ambulância! Não é verdade?!? Num certo dia, não posso precisar se foi a Sofia ou se foi o Barosa, telefonaram-lhe a perguntar onde é que ele estava. Soou-lhe a recriminação e, como ele não é bom de assoar, exaltou-se logo. Altercaram-se. Aproveitei para, imediatamente, espetar a minha farpa e disse em voz bem alta: - Senhor Rodrigues, diga! Diga agora que está dentro da ambulância! Trigo limpo!... Terminou em risada!

Os dias iam curtos e frios e, longas e ainda mais frias, iam as noites. Estava dezembro quase a finar-se. O Jerónimo ainda foi ao Hospital dos Covões buscar um doente, que acabara de submeter-se a uma sessão de quimioterapia. Depois de muito procurar o doente, continuava sem dar com ele. Ele não estava em lado nenhum. Apesar do frio, o Jerónimo já suava. Calcorreava corredores, entradas e saídas, salas das quimios, frente, traseira e laterais do hospital com os seguranças no “berlinde”. Doente? Nada! Quanto mais batia com os calcanhares no rabo, mais gaguejava. Por fim, já não se entendia nada daquilo que ele gaguejava. Finalmente, tal como o desejado Dom Sebastião, o ansiado doente, rompeu por entre as brumas, melhor dizendo, rompeu o escuro, justificando-se, candidamente, que fora espairecer. Confesso que, quando o vi aparecer, temi que o Jerónimo o desancasse de gaguez em gaguez, que lhe jogasse para cima, duma a um cento. Pelo contrário! Ficou tão feliz, ficou tão aliviado que só faltou cobri-lo de gagos beijinhos!

Isto de andar, de cá para lá, de lá para cá e ainda fazer as torna- viagens com pacientes misturados com impacientes, tolos declarados misturados com tolos disfarçados, dá-lhes uma tarimba que vai lá...vai!... Só mais esta!

Da central telefonaram à Isabel para ir, com urgência, ter com a colega -julgo que era a Verónica-, porque o doente que esta devia transportar estava estendido no chão e recusava-se a levantar-se, porque Deus lhe dissera que não podia levantar-se. Consequentemente - é fácil de imaginar, não é?-, o doente tinha de ser transportado numa maca! Mansinha -até parece que estou a vê-la-, com o andar enrolado e rebolado, a Isabel aproximou-se do doente e perguntou-lhe:- Então? O que é que se passa? Após ouvir atentamente a explicação (fartinha de virar frangos...), disse-lhe: Pois é! Eu também falo com Deus e, como tenho um rádio muito potente na ambulância, ainda o oiço melhor que vossemecê! A sério? -perguntou-lhe o esticado no chão. A sério! - disse-lhe a Isabel. E sabe que mais? - Não!- respondeu-lhe ele. Pois é! -disse ela- Há novas ordens! Até porque Ele está mesmo muito chateado consigo, porque não era para você dizer que Ele é que lhe tinha dado ordens para não se levantar. Portanto, agora as ordens são estas: -Vossemecê vai-se levantar e vai-se deitar sossegadinho na maca e, quando chegarmos ao hospital, passa para uma cadeira-de-rodas e vai esperar, sossegado e caladinho, pela sua vez. Depois, vai contar tudo direitinho aos médicos e vai dizer que já levou um grande raspanete.

Olalá! Viagem tranquila. Doente deitadinho. Sossegadinho na cadeira-de-rodas, enquanto aguardava a sua vez... E o resto? O resto foi lá com os médicos!

Mas ainda há mais! Há do Barosa, da Joana, do Fernando Castela, da Carla e doutros que mais tarde também “bailarão”...

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