Metamorfose em Praga!

Já lá vão uns dezoito anos desde que visitei Praga!
Já nessa altura sofri o horror do turismo de massas. Estavam lá muitos milhares de pessoas estranhas à cidade e aos seus costumes. Era uma chusma de gente amontoada em grupos e grupinhos, com ou sem guias, que se guiavam todos pelos mesmos cartazes e folhetos turísticos multilingues que concentravam as pessoas nos mesmos pontos às horas tidas por convenientes.
Elas (todos nós), na pressa de tudo conseguirem ver, cumpriam os roteiros sugeridos como obedientes e organizados cordeiros; para tudo olhavam e pouco ou nada viam, pouco ou nada admiravam porque a pressa não as deixava; percorriam em magotes as ruas que separavam os pontos turísticos assinalados nos mapas e nos roteiros da cidade; tiravam fotografias sobre fotografias, seguidas, impreparadas, à pressa e sob o efeito da contagiante loucura de tudo abarcar; snaps, snaps, snaps e flashes, flashes, flashes poluíam o ambiente, distorciam a luz e qualquer gesto, qualquer movimento que fizéssemos, estragava umas quantas fotografias dos outros apressados e incautos colectores de imagens. Era uma loucura!
Como os demais, cumpri até à exaustão o sugerido no maldito folheto. Calcorreei, subi e desci, desci e subi, ziguezagueei por ruas e ruelas empedradas, cimentadas ou só alcatroadas, percorri igrejas, capelas, museus, cafés, pubs, exposições e até cemitérios judeus com os corpos enterrados na vertical por falta de espaço.
Acordes de Bach, Vivaldi, Mozart e muitos outros mais, escapavam-se das igrejas, das capelas, das salas de concertos abrasadas de calor e fugiam para a rua à procura duma brisa fresca e acabavam por se embrulharem numa impressionante cacofonia.
Depois de muito ziguezaguear, de passar e tornar a passar pelas mesmas ruas e ruelas em cega obediência ao malfadado folheto, dei comigo misturado num branquinho e dócil rebanho a subir, a subir, a subir em direcção ao altaneiro castelo.
Praga é bela!
É bela mas não assim!
Deus me livre!
Levei e dei tantos encontrões, mas tantos, tantos que até aprendi a pedir desculpa em seis ou sete línguas diferentes. Tantas fonéticas diferentes…, tanto chulé concentrado…, tanta confusão causavam-me mais stress do que prazer…Tanto corre corre, tanto olha ali…, tanta gente a olhar sem ver… a passar sem se aperceber…Subi, subi, subi, até que cheguei finalmente ao alto do alto castelo. Tantas vistas maravilhosas e deslumbrantes pediam uma manhã inteira de sossegada admiração, mas não…
Mas…, para mim, a cereja em cima do bolo estava na visita à Viela Dourada (ZLATÀ ULICKA 22) na Cidade Medieval. Foi ali que me saiu aquele: Ahhhh! que nos abafa a respiração. Senti-o quando entrei na modesta “casa de bonecas” onde Kafka viveu durante um ano e onde, supostamente, terá escrito «A Country Doctor», supostamente…, - já duvido de tudo. Ali, muito mais do que no seu café preferido –o Grand Café Praha, junto ao Relógio Astronómico- senti a sua presença.
Ele, -Kafka-, um dos maiores vultos da literatura universal, vivera naquela diminuta casinha, estivera sentado ali. Escrevera em cima daquela diminuta mesa e sentara-se naquelas modestas e frágeis cadeiras de crua e nua madeira. Uma parte dele, uma parte da sua genialidade, dos seus tormentosos pensamentos, como também, algumas das suas personagens por ali viveram, por ali andaram, cresceram, sofreram e algumas até morreram…, sem luxos, sem conforto, ali escreveu muitas cartas de amor à sua “Ofelinha”- Felice Bauer; imaginei-o a juntar letrinha a letrinha, durante horas e horas de escrita, de solidão, de recolhimento interior…, no extremo frio inverno de Praga.
Foi ali, foi naquela salinha, foi naquele austero e doído ambiente, foi naquele sufoco opressor que me consciencializei, que interiorizei a grandeza da «METAMORFOSE».
A Metamorfose é uma das obras literárias que mais me marcou, que mais me angustiou, que mais me angustia, que mais me fez crescer, que mais me libertou e que mais horizontes me abriu…
Ali, naquela salinha, compreendi que todos nós somos o último reduto de nós mesmos, somos uma ilha, a única ilha…, somos um pedaço de terra (gente) cercados por mar (muita gente) por todos os lados.
Sorte grande a de algumas ilhas -como eu- que estão cercadas de mar (gente) onde há, onde existem, excepções (sobretudo gente - pessoas) de amor verdadeiro.
Ali, (apesar dele ali não ter estado) vi, senti, Gregor Samsa (o caixeiro–viajante que fora com o seu trabalho o único suporte da família), já metamorfoseado em gafanhoto, (já um pesado e inútil fardo para todos, até para a sua amada irmã Greta que inicialmente cuidou amorosa e diligentemente de si) a andar pelo teto, de costas voltadas para baixo e já com uma perspectiva (pensamentos) muito diferentes da vida e do seu quotidiano, até acabar por morrer de inanição por abandono.
Foi dentro daquela salinha, foi lá, foi ali, que eu tomei consciência da verdadeira metamorfose que em virtude da doença, estava a ocorrer dentro de mim, e que me destinava o mesmo triste fim que o de Gregor Samsa.
Foi ali, foi lá, foi naquela salinha, -não foi de joelhos dobrados aos pés do altar da Virgem Negra que na véspera visitara, que me encontrei e me salvei-, foi ali, foi lá, foi naquela salinha que resolvi partir para os braços do verdadeiro amor, de gente de verdade e que em verdade me amava e que de coração partido chorava e sofria por mim e por causa da minha maldita metamorfose.
Foi dali, foi de lá, foi daquela salinha que parti para chegar muitos dias mais tarde aos seus abertos e sofridos, braços de amor.
Metamorfoses, há-as muitas! Elas, as metamorfoses, podem desencadear-se pelos mais diversos motivos. Na maioria das vezes desencadeiam-se por doença, ou por causa dos vícios e dependências, por desafectos, por desamor, por morte do ente querido, por decepção e, também, por muita dor, muita dor…
Mas, desenganem-se os que pensam que quase muitas têm um final tão feliz como a minha.
Não! Não! Pelo contrário!
A maioria, quase quase a totalidade (se não fosse o negócio dos lares para idosos) teriam um final igual à de Gregor Samsa que morreu de inanição devido ao abandono e…
Depois de ele morrer…, depois de varridos os seus vestígios confrangedores…, a família saiu em alegre e libertador passeio pelo parque da cidade (estava um dia de sol maravilhoso).
Gregor Samsa, nem sequer se pôs a jeito…, fará se se tivesse posto….
É assim a vida…., é assim a vida…

* Este texto, foi escrito segundo os termos da ortografia anterior ao recente (des)Acordo Ortográfico.

 

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