Mete dó!

Mete Dó, é o nome duma escola de música!

Ela é a escola de música mais antiga do mundo. É, com certeza, a mais frequentada de todas. Subsidiária desta, há uma outra, tirada a papel químico- agora chamada fotocópia- que é um pouco mais distante, mas, igualmente, muito concorrida e eficaz, é a famosa Dá dó!

Digo! Digo bem alto! Entre uma e a outra, o diabo que escolha (escrevo o nome dele com letra minúscula, em sinal de assumida desconsideração!): ambas são de refinado mau gosto e mau efeito, contudo, os seus biliões e biliões de alunos são-lhes gratos, fiéis e, sobretudo, muito aplicados. Vestem as respetivas camisolas com tanto empenho e ardor que, na generalidade, usam referir-se-lhes com um obstinado pronome possessivo, saindo-lhes, assim, das bocarras, com desusada frequência: “ METE-ME DÓ!; DÁ-ME DÓ!”

Mete-me dó e Dá-me dó, estão de tal forma enraizadas e espalhadas que, sem qualquer prejuízo, são sinónimas daquela máxima muito usada no jargão deles, que diz: -” Não te rales, deixa estar como está, porque assim é que está bem!” Delas saem instrumentistas e maestros com o mais alto gabarito. De lá, saem os verdadeiros músicos, os artistas de toda aquela música tocada de ouvido.

Tenho a particularidade de ser duro de ouvido. Só quando a música é de fato (facto soa-me melhor, por que música de fato, faz-me lembrar os Concertos de Fim de Ano em Viena de Áustria, os quais, de resto, me empolgam!) música, quando a música é boa de tão linda, só quando a música me agrada, é que me deixo embalar por ela, senão nem sequer a oiço. Ponto!

Além de ser duro de ouvido, tenho ainda outro defeito que me é misericordioso: gosto de “cuscar”, sou curioso quanto baste e, por isso, dei-me ao cuidado de passar, rapidamente, os olhos pelos seus currículos abertos, de par em par.

Abominei! Arrancaram-se-me os vómitos à mistura. Embrulhou-se-me o estômago com aquele cheiro “saurico”. Li apenas por uma pequena parte dos currículos, respeitante ao primeiro ano.

Dizem logo no preâmbulo que, no primeiro ano, o objetivo principal é que os alunos aprendam e fiquem aptos - como base e para o resto das suas vidas- a tocarem e interpretarem magistralmente a famosíssima Opera do (Bom) Malandro, salvaguardando desde logo que, importante, mesmo importante, é a parte respeitante ao Malandro, porque quanto ao Bom, por ser suscetível de perniciosos equívocos, não fazem grande questão!

Com grande destaque curricular, aparece o Solfejo. Solfejam, interminavelmente, notas de: Cinismo; Impiedade; Ingratidão; Má-língua; Vernáculo; “Ditoches” maldosos e falsos; Júbilo e regozijo com a desgraça alheia, e mais tantas outras “refinadas” e maldosas notas...

Começam pelo bê-á-bá imprescindível para a leitura das muitas pautas das músicas, através das quais regerão a vida, aprendendo, para tanto sons e tons, tons-abaixo e tons-acima, floreados por colcheias, semicolcheias, fusas e semifusas, tudo muito bem marcado por compassos binários, ternários e quaternários, ornamentados pelos desesperados ais daqueles desgraçados, a quem deviam ajudar a remover a nódoa da camisa e, ao invés, acabam por se apossar, desavergonhada e desalmadamente, dela. Sendo que os mais finórios, há muito, as tocam de ouvido.

Não quis saber de mais nada! Não aguentei mais! Vomitei! À pressa, esbaforido, virei as costas e fugi dali!

Escrito enquanto me deliciava a ouvir o Chico Buarque interpretando a Ópera do (verdadeiro e do genuinamente, BOM) Malandro.

 

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