Mundi caput (homem-sem-fim)

não é aconselhável escrever sobre a decomposição ecuménica a um incógnito
mas eu sou-me assim
entranho-me com arrebunhas de “não, querido, não sejas assim”
este mundo já caput, e esqueceram-se de nós aqui
falta o verso à rima e a rima ao verbo
e ao verbo um sentido de si
ideias de mundo sem polidura no seu estado impróprio
berro
de tudo o que não, e se queria, talvez não, talvez sim, domingueira homília?
treta
torneado e guerreado, tempo, letra, tempo-a-tempo
que caretas
dos que usam luneta por hospício
dos que andam de lambreta por ofício
adeus verso
rima e verbo
olá poesia, de ti eu tudo queria
deusa dos amores
deusa da mentira
será que o que sei do mundo
passa, começa em mim se finda?
perguntas-respostas de mim-mentira, pura mentira
a um eu, a um alguém, a um por aí
a fugir de seguida
com tanta promessa de, enfim
nalgum lado tem de se construir a letra
falta o verso à rima e a rima ao verbo
e a rima em avesso
a bom termo
me despeço
perguntas-respostas
não-talvez-sim
de se poder construir uma opinião
de julgarmos letra a letra
e não percebermos qual a verdadeira razão
do próprio constructo abstracto que confecciona cada letra
ao mesmo tempo que desejamos uma sem fim actualização
aumentamos a sua mesma ignomínia-converseta
passando-a de mão em mão
de lambreta a luneta
se o mundo acabar
o que será de nós?
e, se nós acabarmos
o que ficará dele?
este mundo já caput, e esqueceram-se de nós
aqui, na calçada fria e borrenta
ficou a verso, rima-preta
preso
à espera da tal letra
do tal, peço
porque achámos a tal ideia mais certa
naquela ou outra ideia-treta
plangentes nós que damos corda que sustém o respiro
que controla o expiro
que engole o suspiro
corda bamba do estalido
não sei se vou em bom caminho
quem não alimenta o sem abrigo
mas em sua "casa" abriga-o com o “bem-vindo, querido amigo”
quem é mais mendigo?
instala toda a baixa na praia da claridade
na bóia a céu vazio
ventoso e dúbio
és um " seu"
um "seu" (mais não digo)
e verás o que te digo
senhoras, ai de vós
vejam a mais pura felicidade do que foi de nós
naquele menino encostado às portas (de murro no estômago por nossa vaidade) na nossa cidade, na nossa calçada portuguesa, arma veloz de “olha a nossa arte”, "vai com certeza por toda a parte” ser eternizada por todos os avós, que beleza
um dia serei cidade-campo-serra-horto-mar, por toda a parte, enquanto me banho no encanto das praias mais incivis, de tudo, de todos, enfim a sós, aparte, de certeza, sim é mentira, sim é verdade, ai de nós
besta
ao passar pelas cidades, pego numa quimera e vou para o entanto-canto-campo-cidade, eu sou eu (h)era, eu sou se(rei), e escrevo por toda a parte, de gera em gera, de ébrio a água lisa com sabor a noz, outro invento de alguém
há tempos passei numa ruela, vim um homem-sem-fim, não deixei nenhuma moeda no seu tacho de covas sem fim
para se deixar de pensar
que o mundo também (disso) é assim
há coisas que (não) vale mesmo a pena tentar
só se forem por um propósito ou situar um fim

sejamos nós a não ser assim.
este mundo já caput, e esqueceram-se de nós aqui
adeus verso
rima
e verbo
olá poesia, de ti que tanto eu queria,
falta o avesso da poesia no homem
esse que todo queria e não queria
que fosse animal
que fosse homem
o homem-sem-fim
tal e qual
assim eu queria

 

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