Com a Figueira da Foz, com os Figueirenses.

não há flores que morram cedo

Figueira da Foz
19 de março de 2018
Íamos de viagem.
A poesia tinha saído para a rua.
O relógio, esse acessório que hoje em dia está por demais em voga e que a mim só me faz sentir mais e mais controlado, mostrava-me as quase nove horas da manhã.
Tornava-se esta a senda propiciante para uma inicial mescla de encontros com rastos emocionais, impostos a cada um. Parecia um sinal, o pior é que a terra não estremecia, para podermos culpar a natureza, essa que às vezes até rotulamos como se não fosse igual aos pedaços de velha (quiçá designada assim em alguma desvairada terra) fruta seca, (h)era. Somos arrancados à mais animalesca árvore sim e não fera, que nos cobre da cabeça aos pés e numa outra vez a quem peça, de mim és, de mim és. Olhando para ela e perguntado: quem és tu, afinal? Quem ou qual de mim, tu és? Como me és? A natureza também erra? O que quer dizer afinal a forma verbal erra?
Todos queriam e não queriam saber de si, a cada curva, o carro ora nos obrigava a guinar a cabeça para um lado, ora para outro. Os eixos extrapiramidais lá a acompanhavam em discordância, para o lado oposto, em mais uma e outra volta e reviravolta nos âmagos sentidos por cada murro no estômago estacionado a bom "porto".
Contudo, muito bem apertados íamos nós, pelos cintos de segurança sentidos por cada um no que a mãe é de terra, para um depois "aterra", que eu gosto assim. Merda para tantos uns e para mim. Mas que coração o meu, merda. Sejando ou não flores ou capim, tudo se sente, num profundo imutável sentimento de si.
Com sorte ou azar, conforme a perspectiva que cada um tem de viajar, já estávamos desapertados de esperança, na verdade pouca ou quase nenhuma por ali havia, talvez por esta não ser demorada e sorridente, talvez por esta também nos fazer levar por tantas e tantas vezes a pôr o cinto "como companhia" ao apanhar uma boleia, não se podendo cabimentar ou reduzir esse facto a um mero e "passageiro" princípio, meio e fim. Não se pode falar assim da vida, dividindo-a. Para tal, não há possível argumento. Esse eterno sim para quem cuida e destrói as flores de cada jardim.
Tirando quem guiava, que já tinha missão destinada, já ninguém sabia bem o que dizer, como estar sentado no carro, o que fazer, para onde direccionar a íris e a córnea que bamboleavam nos meandros de cada aviso de alerta que detectava a caverna ocular naquele estranho amanhecer de princípios de primavera, altura onde de tantas rezas e aplausos renasce o que de muito bonito há, para morrer depois esquecido e feio no fim das águas que cumprem cabalmente cada sussurrar dos ventos secos de fins de cada passagem de paixões assolapadas típicas de veraneios de (espla)nada. As flores que morrem de amores em amores, sem serem esquecidas de jardim em jardim, ao de longe (não) se fazem em nada. Até os vasos se querem com água, digo-me eu que, enfim.
Havia um lado da estrada que nos ia ditando o caminho, devagar, devagar, devagarinho. Víamos as faces de cada um a dar sinais de possíveis diferentes trajectórias para aquele "Zezinho".
Emaranhados num misto inconcreto de ideias enubladas naquela estrada caótica construída por homens de braços certos com ideias erradas, ou então, o inverso, homens errados com ideias certas. Ambas as acepções colidem entre si só no constructo de serem perfiladas em embaraços de braços que se amam sem fim, sem se pedirem num "só", só assim, por nada, de si. Sem ai nem ui nem um dó.
Como se a poesia saísse de facto para a rua.
Agora a céu aberto rumávamos mais uma vez em direcção ao Hospital que ficava no outro lado da cidade, a sua casa ficava numa das várias e distintas colinas da serra, num pequeno vilarejo, com sítios sãos e bonitos, muitos, para se estar e refastelar e uma pequena capela quase quase milenar. E de lá todas as estrelas se vêm numa troca imensa de beijos com o eterno e eloquente mar. Misturado "esse pedaço de céu" por novos burgueses e antigos e orgulhos serranos, que de lá tudo sabiam, até o que não há e "viviam". Tínhamos assim mais uma vez a tarefa de passar a cidade toda de uma ponta à outra, para chegarmos até à ponte com o humanizado nome de Edgar Cardoso, essa que sempre nos obrigava a cheirar os ternos e levadiços "calos" das flores de sal mais altas do mar que fugiam dos cantos e recantos das varinas que ainda nas suas teimosias moravam por lá.
Já lhe perdêramos a conta a quantidade dessas viagens, de idas apressadas na ponte a ultrapassar tudo e todos, a voar mais alto que as gaivotas, a vindas a vinte à hora, ou menos, a suspirar de alívio, a rir e a cantarolar, a gozar com a vida, todos de mãos dadas, aquelas sim, poderíamos dizer que eram horas nossas, só nossas. Tínhamos de ir. Tínhamos sempre de ir. Pois, das leis da vida, não há como fugir.
Como todo o resto na vida de José, até o seu olá ou adeus a isto, que dizem que tem nome, a que chamam de vida, tinha de ser simples, sem "drama queens" como dizia, nem grandes conversas (falar, falávamos ao nosso "vaso" redentor que tínhamos partilhado a meias com o outro que ainda tentava a custo saber plantar algo em nós a dissabor).
Ser pessoa é ser isso. É essa a verdadeira condição humana, um eterno ir e voltar de nós para nós mesmos, com partes nossas desconexas e convexas ainda por descobrir.
José Carlos tinha agora 63 anos. Com ele, ia eu, a filha e a mulher.
A poesia estava quase, estava completa, se é que há poesia em estado final, nunca me acreditei muito nisso, qualquer um pode e deve retirar ou acrescentar nela o que nela se e não revê, de vírgula a "presente" mescla, ou não presente ponto final na festa, no arraial. Ou um obrigada, queria ele ou ela dizer mesmo o quê? Tolos de esplanada ou comícios de homens-palavra. Não, na poesia não sobra nada. Toda a vírgula é virgulada. E ponto é final, é intemporal.
Para trás, naquele buraco no tempo e com pouco "espaço" por dentro, só dele e meu, entre um braço e outro da ponte, quase me contou a sua história, estivemos parados, para variar, não é assim Matilde?
Devido a um aparatoso acidente na ponte, tivemos de parar o carro e aí permanecermos algumas horas, vítimas do transito parado e super congestionado atípico à cidade da Figueira, enquanto uma equipe de desencarceramento estava a tentar tirar vida de dentro de dois carros. Ganhámos tempo de vida sem o saber, é curioso, às vezes parece-nos que nos estão a tirar algo de muito importante, mas, na verdade, estão-nos a dar algo muito maior, quase uma dádiva que para que possa existir não pode coexistir com o que nos foi posto de parte antes.
José e eu entrámos num mundo "em parte". Enquanto a Matilde tirava fotos às gaivotas que circundavam os feridos que iam sendo recolhidos um a um, Clara teimava com os três, para ela todos estávamos errados. Até ela que nada fazia e fazia sempre tanto quando íamos por aqueles lados.-Tantas flores aí para quê? Na vida tudo se parte e reparte, outra lei para qualquer um, sim, arte.
José sentia-se impelido em contar-me tudo, (menos com tinha conseguido "arranjar" todas as flores do jardim municipal sem aparente razão nem sobretudo), uma história que mal acabou, a mal o deixou. As mãos, íamos ao hospital porque ele tinha "problemas em mãos" E, aconteceu completamente o contrário, há um poeta, daqueles de rua, que tem um nome para isso, chama-lhe "o amor da razão". Assim, naquele momento perdido no tempo e levantado no céu, ao bom e único sabor de bocados de areias de sal perdidas pelos ares da Figueira e com os cânticos das "rosas do mar" fiquei quase a saber a história, por completo. Sim, na Figueira as areias chegam até ao cimo da ponte e passam-na. De concreto. Até aos mais de lá.
Na verdade, já há muito que existiam meia dúzia de peças no puzzle de José Carlos que por muito que tentasse não conseguia encontrar para poder encaixá-lo como pessoa, como ser integrante de um todo, de um tudo. Pensei em tempos até que tal ideia era impossível, era como se todos nós tivéssemos peças soltas perdidas por aí, e, que os nossos mais próximos por muito que tentassem não as conseguiam nunca encontrar, estava profundamente enganado como me confirmou José Carlos. Pois, quase, quase o concluí.
Por entre solavancos e algumas lágrimas lá conseguíamos reatar a meias com o relantim do carro, o caminho ia-se vendo a tornar quase desimpedido até ao hospital.
Coincidência ou não, tudo parecia estar a renascer, as caras das pessoas apareciam por entre as janelas do 2 cavalos de Matilde, as ruas pareciam bafejadas por pessoas boas, certas e acertadas. As músicas, essas malditas que nos chegam sempre no momento errado com a pessoa certa, ou no momento certo com a pessoa errada, passavam na rádio onde José teve mil e uma invenções sempre que se chateava com a sua mulher, Clara.
Geralmente quando discutiam, Clara já sabia em que sintonia ia por no rádio do quarto deles. Nessa noite até José se cansar de inventar trinta por uma linha, no bom filme de velho de clarinete apontado para cima, no mau filme de velho sem saber o que fazer quando não está por "cima" Lá passava músicas na rádio da cidade, tão dispares como do punk mais hiperactivo ao romanceio pop rock mais calminho, do mais basilar ao mais extravagante possível. Como é "tão possível" este meu querido amigo.
Somos bons camaradas e com orgulho posso até me congratular por ter sido eu o depositário daquelas sílabas coladas a cuspo no meu ouvido enquanto as gaivotas bailavam a norte sorrindo. Releu-me um texto seu no limiar do quase imperceptível, devido ao terrífico estado das suas mãos, (que de dor só nos tremiam, num indo) que já lera no seu último programa, a que deu o nome de “A arte do aparte quando as gaivotas voam e não voam em toda a parte em busca do que não viam a caminho". Nesse programa, ouvido talvez ( digo eu, supondo que ) por um ou dois seguranças que tentavam amainar a noite, outros tantos taxistas que apanhavam uma seca tremenda dentro dos seus carros porque choviam lágrimas a cântaros dos Deuses mais chateados das palavras trocadas por outros alguns nas "reuniões intemporais", outros escassos trabalhadores mais velhos de fábricas que trabalhavam por turnos e, que cansados do barulho das máquinas lá punham os headphones na tentativa de passar melhor aquele turno, e nós, todo o resto da humanidade que teimava sempre em sonhar acordado o proibido no sonho dormido. Tudo. Esse tudo.
-A vida de um Homem não pode demorar mais de cinco minutos a ser contada, dizia-nos, depois de finda a sua emissão. - Zé, tu só cortaste as mãos! O curioso é que todos pensávamos sempre que era a última vez, era um problema recorrente o Zé ter problemas com flores, e, sempre, sempre as dedicava a Clara. A "sua única". E foram e não foram essas as suas únicas flores, pelo menos a sessão foi, como Clara, que sendo, também não o foi. -Flores, as flores são sempre raras.
Na sua última difusão radiofónica que já contava com algum historial na bagagem, conseguiu despedir-se categórica e ritualmente de todas as cores e pautas sonhadas, vividas e pintadas no estúdio, e, enquanto ele fotografava com o coração mais uma pequena história da sua vida, eu corri desesperadamente à procura do papel onde estava o texto, não o tinha percebido bem, mas pelo que ouvi, tinha vontade de o ler com mais calma, como sempre o fazia ou tentava fazer.
Tive a sorte no azar de outros, pois só devido a um aparatoso e infeliz acidente, com vidas em risco, pude ouvir o texto outra vez, com calma e discernimento.
No fim de ouvir essas tais palavras que me magoaram em parte, ele vira-se para mim e diz-Por isso amigo, conto tudo agora em cinco minutos, se demorar mais do que isso não sou teu amigo.-Posso saber que ideia tola é essa José Carlos?” Perguntei-lhe eu, porém, ele já não teve coragem para me responder. Todo ele tremelicava num profundo erro "sentido".
Nisto, Matilde baixa o som do rádio, tocava John Mayer, a “Comfortable”, uma das baladas dos amores de verão que se enterram tão bem na areia, meneia o retrovisor do seu 2 cavalos a par e passo com a tosse do pai, ajusta os seus óculos pesados, sujos e desajustados comparativamente ao que os universitários usam nos "cortejos" de hoje em dia, e, entre risos rasgados diz-me -O que não souberes eu depois conto-te, não te preocupes!
Com Matilde até o pior momento virava o melhor, era como se um retrato do qual ninguém quisesse pertencer, fosse graças a ela, pintado pelo melhor artista, sendo esse condecorado e honrado depois, até em casos a título póstumo, só pelo prazer de haver tinta. Do artista ter a grande sorte de poder usar tinta. A sua tinta (a da mais ninguém). A pessoal e única quimera de pinta.
Clara para destoar segurava nas nossas mãos, nas dele e nas minhas, rezava num silêncio que me arrepia até hoje, dos ossos mais esquecidos do meu corpo até aos poros da pele mais visíveis e sentidos como sendo amigo, dando-me estes a confirmação que não estavam mortas as mãos de José. Havia ainda perigo. Para mim, só quando chegamos a uma certa idade é que sempre que um problema realmente se nos apresenta, realmente é. Por entre lágrimas e soluços digo, -Zeca, para quê isso? Pareces o namorado da Matilde quando eles se chateiam, sim, até isso sobra para mim! E digo-te mais, se não tivesse tão condoído com a noite de ontem não te passava cartão, credo nunca mais bebo cerveja feita pelo puto!!! Aquela Tupa Pint de amoras frescas deu cabo do meu estômago.
-O puto é fixe essa a cerveja é muito boa, as framboesas são todas apanhadas de manhã pela Matilde, é esse o segredo! Vais ver que ele ainda vai ser um empresário de topo! Responde-me ele, arrancando um sorriso de orelha a orelha à sua ainda iniciante poetisa.
-O quão longe me fizeram ir (as mãos, as flores). Disse-me lavado em lágrimas .-Já sabem, só quero escrito na lápide -1,e, mais nada, não quero mais acessórios, poupem-me disso, pelo menos na minha morte. -Bem, já nos fizeram uma vez mais passar a ponte e ainda não vi o fim da estrada, disse-nos Matilde no seu belo e único irónico jeito de adolescente com um raciocínio lógico e hipotético dedutivo apuradíssimo.
Nota: A Matilde não deixava ninguém sentar-se no lado do pendura, só a sua gata Euphelia tinha tal privilégio, sabe-se lá porquê essa sua ideia de aventura. Mas assim tal e qual era e ainda é.
Começávamos a aceitar o fim de estrada que começava a vir ter connosco? - Pai, não posso parar aqui, estamos quase a chegar, só falta a última curva, olha ali a farmácia da tua amiga, tem calma mãe, cuida do pai, cuida. -Há flores ali, há flores ali!
-Olha que eu salto fora- É para já! - Carlos ria e chorava, das flores, que todas amava. Fosse qual fosse o seu caminho. por aí.
Ao mesmo tempo que Clara acalmava ou tentava, rezava-se em voz alta...estávamos gastos, confusos, o ontem parecia amanhã e o aqui e o agora era fértil e desfragmentado. Não sei que força se aumentava em cada um de nós nos últimos bons e maus "tempos".
Dizia-se este tipo de coisas destoando com a atmosfera de final daquela ponte, como aquele bólide velhinho cheio de mossas de cor vermelho sangue, destoado também menos na cor dos carros de hoje em dia.
Tínhamos pressa, a Matilde tentava vencer o seu medo de acelerar a sua juventude na Clara e esta lá se acalmou, ouviam-se sons lá para fora e cá para dentro. Eu não sabia do que ter mais medo, era tudo um cocktail forte demais por causa de flores, maldita "ramagem". Enquanto José discursava como se voltássemos todos, incluindo quem passava na ponte, menos ele. E estrada, muita estrada. E aragem, sabem para quê? Para que do chão, flores haja.
E, entre as curvas mais acelerações parvas, inseguras e descabidas da Matilde, à entrada do hospital José Carlos começa a vomitar o coração, era seu terrível o seu estado, eu não percebia na altura o que este vomitava, pareciam pedaços de sílabas cobertas com "acentos de sangue", só dizia:-Eu não gosto de azeitonas, eu não gosto de azeitonas - a um ritmo frenético, o que não se coadunava nem com a lamúria de Clara, sua mulher, nem com o meu agora mutismo. Hoje percebo, ou tento, pois como aprendi com José Carlos, ser pessoa é isso, nem sempre (não) é preciso flores "arrancar", até podemos ser "Pessoa" a vomitar, é só esse constante querer estar perto para também ver um bocado nosso a ir por aí sem rumo a viajar.
Hoje olhando para trás, para esse dia, vejo a imagem de amores que não têm nunca um ponto final, enquanto houver sangue nas veias ou imagens de tantas nossas (ideias feias) teimas de amores por sinal ou de ideários de homens-fera, de semi-deuses ainda presos na condição animal sem quinta nem quintal, mas que berram quando alguém erra. Mas, para quê tanto sinal?
Como dizia mais uma vez aquele poeta: "Só fazendo alguns rodeios se chega a um meio final. -Matilde, aquelas flores...!-Pai, espera!-Zé, outra vez ! Só duas, desta vez, não há flores que morram cedo, assim. -Agora vês?

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