Não na hora das gaivotas, nirvana ia

Estavam três meninos sozinhos na areia, sem que isso constituísse qualquer tipo de surpresa para mim, não na não hora das gaivotas.
Na hora delas, eles não se vêm por aqui.
O dia entardecia, o ar armado em vento sussurrava e deglutia todo o pouco que por lá havia, pois sem gaivotas, pouco havia, apenas existia pouca poesia (e ali eu em mais nada me via).
Na noite anterior tinha-me entretido a contar as estrelas, quando ultrapassei as dez quis chegar às cem, e quando as ultrapassei, acabei por não parar até às mil e uma, jurei para mim mesmo que um dia ia voltar a contá-las, e que, no mínimo teria se encontrar mais uma, mil e duas, pelo menos.
Os rapazitos sarapantavam todos os que tentavam fazer praia ao final do dia, ninguém conseguia passar por aquele muro de seis braços e outras tantas pernas sujas pelo sol.
A praia pertencia-lhes, o muro suportava-os, ao contrário de mim, que só me irritava.
Um estava empedrado, com os pés humentes e cheios de britadas pequenas e amoladas que por lá se entreviam e contratavam nirvanistas. Aqueles que não na hora das gaivotas, tudo seriam.
O segundo a contar da esquerda, batia palmas com os pés ao mesmo tempo que sorridente e perturbante arranhava quem tentava passar por si, como se mais do que praia, nada havia a mais, para si.
O último trazia consigo uma caixa, que por muito que pudesse vir a suceder, não a podia abrir, nunca, até mais não haver. Tinha uma chave e uma combinação, a chave desapertava os apertos do peito e a combinação soltava os talentos do coração.
Estiveram nunca e sempre no meu pensamento.
Na verdade, eles só apareciam, quando as gaivotas já não se viam.
Já o mar, a todos pertencia.
Ao longe ouviram um assobio. Era eu. Tentava testar tanto a extensão da minha voz por aquele areal a fora como também se conseguia criar ondas só com a minha voz.
Quando dei por mim, os miúdos já não me interessavam, interessava-me sim, ver se conseguia levantar bocados de areia e criar ondas gigantes com a minha voz.
Os meninos, que se entretinham a olhar para o que eu tentava e conseguia ora não conseguia, começaram a ficar aflitos. Tomara, tudo se ouvia.
Melhor, pensaram que eu é que estava aflito por berrar assim ao entardecer a olhar em frente, onde tudo e nada podia acontecer, assim pensava eu. Eles não. Deviam pensar que se passava alguma coisa em minha casa, pois, só viam ao fundo uma imagem aos berros para a praia.
Estiveram nunca e sempre no meu pensamento.
Já o mar, a todos pertencia. nirvana ia.

 

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