Nós e o arquétipo da morte

A morte é um dos arquétipos recorrentes da nossa civilização. Ela tem sido abordada desde os primórdios da civilização, abordou-a Platão, os empiristas, Jung e, abordam-na pela vida fora todos os restantes homens, incluindo até os mais humildes como eu.
Ela causa-nos uma constante aflição, mas maior aflição nos causa incerteza daquilo que sucederá nos depois.
Quanto à sua certeza e aos efeitos devastadores que ela causa naqueles que amam o que partiu, comungo das palavras de José Saramago – “Ela é a ausência”. Quando ela chega, descarrega sobre os sobrevivos a única certeza do NUNCA MAIS!, em relação ao falecido.
Lobo Antunes, na sua enorme solidão, assaltado pelas memórias que lhe alimentam a fornalha da vida, aborda e revive com muita frequência, aquele momento certo, em que a última certeza se abateu sobre os seus idos entes queridos e o devastou, a ele, –lobo velho, solitário e astuto por força das agruras da vida que lhe sulcaram a face com vincados traços profundos de sofrimentos e doutros condimentos da vida -tal como o fazem sempre os inclementes vendavais.
Valter Hugo Mãe na obra intitulada “apocalipse dos trabalhadores” também não foge àquele arquétipo e abordou-a (a morte), espreitando-a por vários prismas (maria da graça, o senhor ferreira e o seu pai, o rapaz desconhecido, andriy e os seus pais, Sasha e ekaterina).
Um dos maiores tormentos que a CERTEZA (morte) nos lega, é o das palavras que ficaram por dizer por dizer, por nossa cobardia ou porque pensávamos que tínhamos tempo para as dizer quando fosse mais oportuno, ou, ainda, aquelas palavras que o saudoso nos quis dizer, mas já não conseguiu ( (…) de coração na mão, o senhor ferreira precipitou-se sobre ele e pensou ajudá-lo levando-o a sentar-se confusamente. Nesse instante o velho homem conseguiu enrolar os braços em redor do corpo do filho e o senhor ferreira sentiu clara e profundamente aquele abraço. as lágrimas irromperam dos seus olhos no momento em que procurou na expressão do pai uma voz e teve a nítida sensação de que ele abria a boca para falar. Abriu a boca e morreu. o senhor ferreira sentiu ainda aquele abraço estranho, tão último e impossível e encarando a imobilidade definitiva do pai como ainda à espera de uma resposta, perguntou-lhe, pai, o que me ias dizer. In: o apocalipse dos trabalhadores de valter hugo mãe a pags. 140 e 141; Edições Quidnovi, 1ª ed. Julho de 2008.)
Dante na Divina Comédia abordou-a já no Inferno, bordou-a depois do precipício na fornalha de fogo onde só há pranto e ranger de dentes.
Eu, já enganei a minha CERTEZA por quatro vezes, não era ainda a minha hora, não era ainda a minha hora… Não senti dor, nem medo, senti paz, muita paz envolta numa bruma difusa de cor dourada. Já lhe perdi o medo.
Eu, impotente, também já assisti à sua implacabilidade, assisti à agitação incontrolada e transtornada que ela incutiu à minha mãe na sua hora da CERTEZA.
Tão depressa se sentava agarrada às grades da cama das urgências daquele hospital, como se deitava e esticava as pernas que não paravam quietas, tão possuídas dum desespero incontrolável.
Tão depressa pedia ao meu irmão que abrisse as janelas, como lhe pedia que a agasalhasse porque sentia muito frio.
Os seus olhos já tinham mudado de cor, pareciam de castanho amarelado, quase dourados da morte coloridos. A mãe está a sentir dores muito fortes? – perguntei-lhe, impotente e desesperado. Não filho! Ontem sim, senti muitas dores. Eram horríveis – disse-me num assumo de lucidez. Não sei como, nem porquê, mas ganhei coragem e disse-lhe:« Mãe, ouça-me, se Jesus a vier chamar, não hesite, vá com ele, siga-o!» Vi-lhe espanto nos olhos…, consciência talvez.
Entretanto, chegou a enfermeira envolta em branco frio e indiferente, branco limpo e imaculado, que não lhe cobria a impotência perante a CERTEZA. Preparou a seringa onde, sem eu ter que adivinhar, realizei a última e misericordiosa dose de morfina. Ordenou-nos as despedidas e o rápido abandono do local, escudada no termo da hora da visita.
Consciente de tudo, olhei uma última vez para trás, para gravar aquela derradeira memória. O meu irmão dobrado sobre as grades da cama despedia-se com o último beijo, enquanto a abanava doce e suavemente, como que tentando induzi-la com paz no eterno sono.
Muita dor aguenta o nosso frágil e minúsculo coração.
O meu irmão, o mais novo de todos nós, o nosso ainda bebé, ainda por completar os seus trinta e oito anos, quase sentado, tinha o tronco apoiado nas almofadas, uma máquina forçava a entrada do oxigénio nos pulmões colapsados, mas ele sufocava em pavoroso sofrimento. Os seus olhos já tinham mudado de cor, pareciam de castanho amarelado, quase dourados pela morte iminente. Eles estavam numa enorme, confusa e desesperada agitação, tal como os da nossa mãe no momento da sua CERTEZA. Com as suas nas minhas mãos, implorei-lhe com as mesmas palavras que a ela. Senti que ele se acalmou enquanto se entregava.
Na primeira vez que nos olhámos nos olhos, ainda nas suas primeiras horas de vida, quando o tive no meu colo pela primeira vez, sorri para ele, enquanto ele, com a sua minúscula mãozinha agarrava o meu dedo indicador. Assim, de mãos dadas, olhos nos olhos, começámos a nossa vida juntos e, de mãos dadas, olhos no olhos… O nosso irmão Ginho, inclinado sobre as grades da cama da enfermaria do hospital, amparava-lhe carinhosamente a cabeça enquanto o beijava repetidamente, e a Pi, em lágrimas, beijava-o na cabeça. Um piiiiiiiiiiiiiiiii prolongado, prolongou a linha verde da máquina dos sinais vitais, essa linha transformou-se num traço contínuo, eram 19 horas e 5 minutos quando ele partiu.
Muita dor aguenta o nosso frágil e minúsculo coração.
Mas, não é desta CERTEZA que se escancara desavergonhada e impiedosamente na nossa cara, e que nos turva a visão e os sentidos, que eu quero falar agora. Eu quero falar das incertezas que tenho, daquelas que tenho quase por certezas. Quero falar acerca da minha esperança acerca daquilo que acontece e como acontece quando aquela linha verde se transforma num traço de piiiiiiii contínuo.
Nesse momento, a partir desse piiiiiiii, creio, imagino, prefiro imaginar assim, a energia, a alma, a essência, a centelha do TUDO a que pertencemos e que somos também, tal como já demonstrou a física quântica para a matéria (para o átmo), nesse instante, nesse momento, a partir desse piiiiiiii, creio, imagino, prefiro imaginar assim, a energia, a alma, a essência, a centelha do TUDO a que pertencemos e que somos também, consegue estar em vários pontos do universo e dos cosmos ao mesmo tempo.
Nesse instante, nesse momento, a partir desse piiiiiiii a energia, a alma, a essência, a centelha do TUDO a que pertencemos e que somos também, está ali junto do corpo, está ali com os familiares, mas também já está na redescoberta maravilhosa e maravilhada de que é essência, perfume, aroma, brisa, órbita, centelha, parte do TUDO, do universo, do cosmos, é tudo no Tudo a que chamamos Deus.
Esta reintegração da essência no TUDO é adaptativa e progressiva, ela leva o seu tempo. Durante esta readaptação a alma vai reparar os danos que sofreu no seu manto durante a encarnação e vai aproveitar para experimentar e vivenciar tudo aquilo que o corpo desejou e não teve, como por exemplo: viajar de avião se nunca viajou; sentir a sensação de ter o que tano desejou, mas nunca teve (pilotar um jato, um Ferrari, tocar o tal instrumento); conhecer e experimentar o que nunca experimentou nem conheceu ou reencontrar quem desejava reencontrar; balouçar-se nas nuvens, ou dormir um descansado sonho numa delas; saciar-se; descer à profundeza das águas e, sei lá o que mais…, neste período, nem a imaginação é limite.
José Saramago, tocando neste arquétipo, aventou, e aventurou-se num portal dimensional quando no livro O Ano da Morte De Ricardo Reis, fez Ricardo Reis, médico e um dos importantes heterónimos de Fernando Pessoa, regressar do Brasil para visitar o jazigo de Fernando Pessoa, acabando por conviver com o Fernando Pessoa durante quase um ano, período durante a qual a alma dele -Fernando Pessoa- ainda por cá ia estando. O livro termina com ambos, no dia em que se completava um ano sobre a morte de Fernando Pessoa, a caminharem definitivamente para o jazigo deste, donde nunca mais tornariam a sair. Sabemos hoje, que por lá ficaram Ricardo Reis e a avó do Fernando Pessoa e que de lá retiraram Pessoa para o Panteão Nacional, mas isto são contas doutros rosários.
Serviu este percurso, esta doida divagação, esta elaborada vadiagem mental, para comprovar duas coisas:
- 1ª- que a preocupação com a CERTEZA (morte) e com a INCERTEZA do depois, foi, é e será sempre um dos arquétipos da civilização;
- 2ª- que tanto assim é que, também eu que sou um Zé ninguém no meio do ZÉ NINGUÉM, escuto e penso no arquétipo e penso que a CERTEZA é com certeza a última e única certeza, e que há muito mais incertezas quanto ao depois da CERTEZA que a todos atemoriza, com todos brinca, a todos engana e abala de certeza.
Ninguém sabe, mas eu penso assim, e quem não pensa assim como eu, está igualmente certo, tenho quase a certeza.

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