Notícias que nos mudam a vida...

Há poucos dias, os meus dedos percorriam calmamente as folhas desbotadas duma agenda antiga. Essas folhas já marcaram um tempo que foi futuro. Marcaram um tempo futuro que se consumiu num presente que a correr se tornou no passado que hoje é, e que será no sempre ainda futuro.
Com curiosidade procurei-lhe a data. Encontrei-lhe uma data doída do ido ano de 1999. «Porque razão, a terei guardado durante quase vinte anos?- assaltou-me a dúvida! » Comecei a inspeccioná-la lentamente. A primeira de Janeiro era uma Sexta-feira cortada de cima a baixo com um risco oblíquo. A quarta correspondia ao dia quatro e era uma Segunda de trabalho com uma profusão de sem importâncias, de ninharias que me roubaram anos de vida, que me consumiram, exauriram, irritaram, apressaram, aprazaram-me, fizeram-me correr dum lado para o outro a ponto de ter parecido uma barata tonta. Para quê? Onde é que eu tinha a minha cabeça? Tudo aquilo é nada. Tudo se esfumou. Tudo com um prazo marcado e... tudo passou de prazo. Tudo deu em nada, no nada a que tudo estava condenado, porque o tempo não poupa nada!
Desapareceram mundos desse mundo! Desapareceram pessoas e desapareceram as suas inquietações. Silenciaram-se os irritantes telefones, serenaram-se as azáfamas, as correrias, as canseiras parvas, as discussões estéreis, as desmedidas ambições, descansaram os carteiros e esvaziaram-se as contas bancárias que escravizaram os iludidos titulares e que tanto, na minha tonteira, me fizeram correr.
A curiosidade levou-me ao dia do meu aniversário. Nesse Domingo, nada a assinalar. Mas na Segunda imediata..., zá pás, pás zás, zás pás!!!..., lá estava o ferrete! Colei! Estava escrito com firme letra, então, ainda minha!: «Às 10:43 horas recebi uma chamada da Neurologia a informar-me que está fechado o diagnóstico e que se confirma a Esclerose Múltipla; Marcar consulta com o Dr. Manuel Cardoso».
Na véspera tinha completado 40 anos! Meia idade! Meia idade porque oiço dizer que dos oitenta para a frente... só com dor se contam os anos. Larguei a agenda! Ela já não tinha nada de importante para me fazer recordar.
Transitei para mim! Entrei no "modo memória": A manhã estava claramente fria naquele Março que é ainda mais frio na Curia. Fria também estava a água do lago do hotel que, ainda assim, transpirava vapor até uns dez centímetros acima de si. Os coloridos peixes, se buliam, não se viam por causa da névoa, mas certamente também já babujavam sofregamente porque há muito que já era dia de mais um dia para viverem na simplicidade frenética com que se entregavam à vida.
Latejam-me na cabeça aquelas palavras daquele mais do que esperado telefonema e que me soaram a uma inapelável sentença de morte. Sim! Morria em mim, dentro de mim, morria devagarinho! Fraquejaram-me tanto o ânimo como as pernas! Apenas tinha aquele banco de pedra para me sentar. Sentei-me nele desfalecido. Deixei de ver... apenas sentia, sentia que nada sentia senão a enorme tristeza que me consumia.
Aproximou-se um barco. Vinha feliz com um casalinho que acercava-se da metade da minha idade, mas carregava no barco duas vezes o dobro do que foram as minhas ilusões. Precisamente o dobro do dobro daquelas minhas ilusões que pareciam que estavam a afogar--se na margem daquele lago. As minhas ilusões estavam a afundar-se vertiginosamente naquele lago, enquanto o barco do casalinho enamorado ameaçava também afundar-se com o peso de tantos sonhos, tantas ilusões, promessas, juras, vidas cheias de vida por viver...
Mais atrás, outro barco se lhe seguia. Acabara de aparecer na curva, mas havia muito que o lago se enchia com os gritinhos e as gargalhadas esfusiantes das criancinhas que numa incontida felicidade ameaçavam fazer transbordar as águas susceptíveis do lago.
Atrás, à popa, o papá remava com cuidado. À proa, virada para a popa, a zelosa mamã vigiava-as. Entretanto, dois pares de olhos adultos confiantes cruzam olhares apaixonados da popa para a proa e da proa para a popa num constante vai vem muito mais rápidos e promissores que aquele remansado remar.
Aqueles dois barquinhos serenos no seu vogar, levantaram ondas grandes que me abanaram de cima a baixo, que me fizeram estremecer e, com o medo de cair, acabei por "realizar": «Também estou ainda vivo, também ainda tenho vida linda por viver..., também existe um barquinho para nele atravessar as águas da vida que ainda tenho para sulcar.»
Fui a correr alugar um barquinho daqueles e carreguei-o com tudo aquilo que os outros dois levavam, também o atulhei com amigos. Alguns desses amigos vão tão maravilhados que rasgam a água com as mãos ou com os pés e salpicam os outros com a doce água em infindáveis galhofas.
Resumindo, vos digo que aquele lago e aquele barquinho se tornaram pequenos e que, passada outra metade daqueles 40 anos que eram já meia vida da minha expectável vida, sulco a vida no imenso mar aberto. Sulco-a na proa do meu barco com o peito insuflado e com os cabelos ao vento. Sulco ondas de incertezas, afundo-me em esperanças e sonhos, venço pesadelos, domino medos com a certeza que estou a viver uma vida ainda cheia de vida promissora felizmente feliz!
Aguardo serenamente, sem medo nem angústias, pela grande e derradeira onda libertadora que me levará a navegar eternamente nas águas desconhecidas... na grande e ininterrupta e inteira viagem sem metades, nem metades de metades, sem dores nem condores...
Levarei comigo e na minha bagagem, apenas os momentos felizes desta curta passagem..., os restantes foram frustrante desperdício...

*Este texto foi escrito segundo os termos da ortografia anterior ao recente (des)Acordo Ortográfico.

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