O DEUS DAS MOSCAS!

Há dias, a minha amiga Margarida Duarte - Sim!, precisamente essa (num universo de sete milhões de portugueses devem existir umas centenas de pessoas com o mesmo nome e apelido) - ofereceu-me mais um livro. Ambos gostamos muito de ler e, consequentemente, temos sempre uns minutinhos para “espanejar” as ideias e para trocar livros e algumas impressões sobre livros.
- Ah! Sim!, claro que digo! É dele, ou com base nele, que vou escrever este texto.
– O livro intitula-se, O DEUS DAS MOSCAS, publicado em 1954, o seu autor é William Golding (Prémio Nobel da Literatura em 1983).
É um livro de leitura muito fácil. Leitura corrida, embaladora, mas que contém uma densidade que se avoluma em função da disponibilidade, da capacidade, da riqueza e da bagagem intelectual do leitor. Por isso, é um livro enganador. Ele pode ser lido por qualquer criança a partir dos doze anos, como um simples livro de aventuras juvenis. Também pode ser lido assim por qualquer adulto que no final o ponha para o lado como mais um na sua lista pessoal dos livros lidos.
Mas, ele também pode ferrar-nos. Ele pode levar-nos a pensar muito seriamente em alguns assuntos, igualmente muito sérios. Escusado será dizer que ele ferrou-me. Ferrou-me fundo e a sério. Para mim, não foi apenas mais um livro. Ando, como os adolescentes gostam de dizer, ando a “desmoer” o livro. Ando a saboreá-lo, ando a espremê-lo, ando a tirar-lhe o sumo, ando a fazer a sua lenta digestão.
O enredo é simples e sem datas.
Na sequência dum acidente de aviação, um grupo de crianças e alguns adolescentes a ele sobreviventes, todos do sexo masculino, vêem-se sozinhos numa ilha sem a tutela de nenhum adulto.
O cenário é paradisíaco, mas torna-se rapidamente pobre em termos descritivos, dado que se esgota após a primeira descrição e, para aquelas crianças e para aqueles adolescentes, depressa se converte numa imensa prisão a céu aberto, ou como muito bem diz a definição de ilha, converte-se num pedaço de terra cercada pelo mar por todos os lados.
É a partir destas circunstâncias que um grupo de crianças e alguns adolescentes desamparados, a maioria desconhecendo-se entre si, têm de se organizar para sobreviverem e assim começam a estruturar uma comunidade. Começam a estruturar uma micro sociedade, enquanto alimentam a esperança que alguém os venha salvar…
O autor introduz neste enredo dois objectos completamente díspares, mas que vêm a ser determinantes para a trama: esses objectos são, tão somente, um búzio e um punhal; o búzio foi encontrado na ilha, tornou-se num instrumento aglutinador, tornou-se num instrumento de comunicação, uma vez que foi através do seu som, do seu chamado, que os sobreviventes convergiram para o ponto da ilha onde ele estava a ser assoprado. Esse búzio, posteriormente, tornou-se também num símbolo de poder e num instrumento agregador que serviu para a determinação duma liderança (democrática, inteligente e unificadora); o punhal ou a faca será sempre uma arma e como arma que é, depressa e facilmente se transforma num instrumento de abuso pelo seu mau uso.
Quatro personagens são fundamentais para o desenvolvimento da história:
- Ralph, o adolescente detentor do búzio e líder eleito na primeira reunião; é possuidor duma personalidade conciliadora com cariz democrático e com boa índole; é um líder nato sem o saber.
- Piggy é um miúdo inteligente; com muito bom senso; complexado; gordo, com asma, dependente de óculos com lentes grossas; pensador, uma espécie de eminência parda, um líder sombra;
- Jack, é o adolescente dono da faca; é ambicioso; ambiciona o poder, ambiciona liderar mas não é um verdadeiro líder; é fanfarrão; é obstinado; é obtuso; é inconsequente e obcecado pelo poder; é um mau ser humano para quem os fins justificam os meios é, em suma, um ditador em potência;
- Simon é uma criança com uma ligeira perturbação mental, embora oculta - possivelmente esquizofrénico - com a qual luta silenciosamente; é corajoso; é tímido e tem muita dificuldade em comunicar; é um solitário e é inteligente; isola-se e age sozinho, mas assertivamente.
Inicialmente, Ralph é eleito líder por causa de ser o possuidor do búzio e também por possuir alguns dotes oratórios e alguns dotes físicos. A sua principal preocupação é salvar-se e salvar os restantes, tornando a presença deles notada fora da ilha; a única forma de o conseguir é produzindo fumo. Ele está consciente de que o fumo é o único meio de transpor a informação da sua presença para o exterior da ilha.
Jack é o dono da faca e antes da primeira reunião já se havia conseguido tornar o chefe do seu grupo de adolescentes, ao qual chamara de exploradores. Em eleições realizadas pela votação com o braço no ar perdeu, na primeira reunião, a liderança para o Ralph. Nunca aceitou verdadeiramente o facto. Depressa converteu os seus exploradores em caçadores munidos de lanças (armas) fabricadas graças à utilização da faca. A sua prioridade instintiva e primária era caçar, era obter a gordura que distribuiu pelo grupo e com a qual dividiu o grupo e minou as suas prioridades e o poder e a autoridade de Ralph. Ele desautorizou, dividiu, roubou, manipulou, atemorizou, torturou e até causou mortes. Transformou o seu grupo numa tribo de autênticos selvagens com o recurso a danças, rituais frenéticos e cânticos de guerra: «- Matem o monstro! Cortem-lhe as goelas! Derramem–lhe o sangue!»
Antes de partir para outras associações de ideias, antes de abordar outros microcosmos, e porque os porcos são neste enredo um elemento muito importante e são uma peça carregada de muitas simbologias, frisarei antecipadamente que quando um porco doméstico se evade do seu chiqueiro para a natureza, (quando se evade dos condicionalismos antinaturais a que os humanos submeteram a espécie) rapidamente, em poucos meses de liberdade, readquire a sua natureza selvagem e regressa ao seu primitivo estado. Pelos vistos, com os humanos, quando ficam completamente entregues a si e à natureza, também parece acontecer o mesmo, começo a ficar cada vez mais convencido disso.
Tal como o porco que foge do chiqueiro e que se torna selvagem num curto espaço de tempo, também Jack se tornou um selvagem e tornou aquelas crianças numa tribo selvagem, tementes de fantasmas, monstros e inimigos imaginários.
Directa ou indirectamente, Jack foi o responsável pela morte da criança desconhecida, pela morte de Simon e pela morte de Piggy. Após aquelas mortes, Ralph, completamente isolado, transformou-se no inimigo a abater e, consequentemente, por ordem de Jack, inicia-se uma perseguição implacável a Ralph, tendo o Jack ordenado que se pusesse fogo à mata com o intuito de o desalojar do seu esconderijo. Acossado e desesperado Ralph foge para a praia onde, in extremis, é surpreendido e salvo pela presença dum escaler, alguns marinheiros e o comandante dum navio ancorado ao largo.
- «- Vimos o fumo e viemos ver o que é que está a acontecer» - disse-lhe o comandante, enquanto os outros eram surpreendidos na sua desenfreada perseguição.
- «- Quem é o líder?» -perguntou o comandante.
- «- Eu sou o líder!» - respondeu imediatamente o Ralph, enquanto o Jack tentava dissimular-se no meio dos outros.
(Introduzo um parêntesis para aludir a duas situações reais e bastante recentes, nas quais, uma liderança real e eficaz salvou sem mortes e sem desagregação, todos os elementos de ambos os grupos, refiro-me aos mineiros soterrados no Chile e às crianças encurraladas na gruta na Indonésia).
Posto isto!, foi-me muito fácil partir para a primeira associação de ideias.
- A humanidade, ao longo da sua história tem agido como aquele grupo de crianças e adolescentes, ela também se sente abandonada nesta ilha que se chama Planeta Terra. Ela tem estado completamente entregue a si, sem a tutela nem a supervisão de nenhum “adulto”, ela tem tentado organizar-se para sobreviver, sempre com a esperança de encontrar alguém ou algo com poder e que possa vir salvá-la.
- Também no nosso dia-a-dia deparamos e defrontamo-nos com imensas ilhas povoadas por muitas e diferentes tribos extremamente selvagens e manipuladas por “líderes” selvagens e cobardes, sequiosos de poder, chantagistas, manipuladores e distribuidores de gorduras como o Jack.
- Existem ilhas nas escolas que albergam diferentes tribos, muitas das quais, formam-se por falta da devida supervisão e autoridade dos adultos. Existem muitas tribos facilmente identificáveis pelos seus rituais, pelas suas formas de vestir, pelas suas danças, pelas músicas que ouvem, pelas tatuagens, pelos piercings e que exercem intrigas, falsidades e que castigam com o bullying cobarde, com maldades, com desmandos e que descarregam muitos tipos de violências que matam os inocentes Piggy, os inocentes Simon e tantos outros inocentes meninos desconhecidos… Cuidado! Essas ilhas e essas tribos são o alfobre dos inúmeros Jack`s com que nos deparamos ao longo da vida, sejam eles criminosos de colarinho branco ou sujo, surrado, surradíssimo!
Também existem numerosas ilhas no mundo do trabalho! Esse mundo está pejado de Jack`s dissimulados e perigosíssimos!, inconsequentes!, que formam a esmo grupos de “caçadores” ávidos de indecorosas “gorduras”, conseguidas por estratagemas diversos, tais como: a intriga, a perseguição, a inveja, a ostracização, a criação de grupos e grupinhos unidos pela desforra do “Tu Não!”, sobre a inocente vítima que açoitam através de rituais, danças e canções que causam sofrimento, desespero e, por vezes, até a morte das vítimas.
Também assim acontece no verrinoso mundo da política, dos interesses e dos favores.
Cabe a cada um de nós sermos o nosso próprio Ralph e não pactuarmos, não nos acobardarmos, não perdermos a objectividade e o sentido que salva a nossa vida e a vida dos outros. Cabe-nos a nós não pactuarmos, não nos sujarmos com as tais gorduras alcançadas por caçadores despudorados e distribuídas por falsos líderes…, gananciosos de poder.
Somos nós que temos que ser fortes e inteligentes para impedir que os Jack`s alucinados e a restante t-r-a-m-p-a que se apropriou do mundo e que o desgoverna, continuem a causar as tragédias como a morte da criança desconhecida, como a do Simon e do Piggy.
A história da humanidade é um reflexo em espelho claro daquilo que sucedeu naquela ilha. Hoje os poucos Ralph`s que existem são perseguidos impiedosamente. Eles são acossados pelo “fogo” que devasta a terra e os empurra para a praia onde desesperadamente procuram socorro, onde procuram encontrar o escaler do navio salvador.
- E agora humanidade?
- Quem nos salvará dos Jack`s, do Governo Mundial e de toda a restante t-r-a-m-p-a?
- Há livros que, sem aparentemente falarem de assuntos importantes, falam-nos de tanta coisa tão importante…

COMENTÁRIOS

ou registe-se gratuitamente para comentar.
Critérios de publicação
Caracteres restantes: 500

mais

QUEM SOMOS

O «Figueira Na Hora» é um órgão de comunicação social devidamente registado na ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social). Encontra-se em pleno funcionamento desde abril de 2013, tendo como ponto fulcral da sua actividade as plataformas digitais e redes sociais na Internet.

CONTACTOS

967 249 166 (redacção)

geral@figueiranahora.com

design by ID PORTUGAL