O Franklin!

Somos únicos, enquanto pessoas. Dito desta forma, parece uma verdade de "La Palice", mas há razões para ter começado o texto desta forma aparentemente inusitada.
Pois é! Declinava rapidamente o sol, acentuava-se o lusco-fusco. Apertava o frio que prenunciava uma noite envolta em cobertores de gelo. É assim o inverno em Madrid.
Dentro do carro a temperatura era acolhedora, era reconfortante, apetecia... Lá fora, na rua, debaixo duma ponte, dezenas de sem-abrigo fizeram as suas camas com cobertores de cartão. Eles apertavam-se uns contra os outros para conservarem o calor. Preparavam-se para sobreviver a mais uma noite de muitos frios...
Foi a primeira vez que vi aquela realidade com olhos de ver. Foi a primeira vez que sem sentir, senti o frio do abandono. Doeu-me muito, doeu-me durante muitas noites. Ocorre-me frequentemente aquela lembrança. Durante muito tempo aquela imagem perseguiu-me, incomodou-me. Sempre que está muito frio, ela ainda me vem à memória
Depois, a pouco e pouco, comecei a interessar-me por aquela realidade. Apercebi-me que são diversos os motivos que atiram as pessoas para aquele mundo: há as que lá vão parar por causa da interacção medicamentosa; há as que são empurradas pelas "traições" genéticas; há as que são empurradas pela dependência das drogas; há aquelas para as quais, a roda da vida desandou e também há umas quantas, -poucas-, que desligaram, rejeitaram, abominaram, negaram, fugiram desesperadamente do outro tipo de vida.
Não sabemos, nem conseguimos avaliar o sofrimento que sentem as pessoas abrangidas pelos dois primeiros grupos, tampouco sabemos se a maioria delas sofre. Sabemos que sofrem muito, aqueles para quem, desandou a roda da vida e aqueles que foram atirados pelas dependências. Sabemos que a maioria das pessoas do grupo restante, se comprazem verdadeiramente com aquele ou naquele tipo de vida. Com uma pontinha de inveja, chamo-lhes: «Os espíritos livres».
Tem-me mostrado a experiência que muitas daquelas pessoas, são seres extraordinários. São pessoas boas, são príncipes de boa índole colhidos nas curvas más da vida...cujas vestes andrajosas ocultam o bom perfume da sua essência.
Um dia..., há uns quatro ou cinco nos atrás, por volta das vinte e três horas, aguardava ansiosamente na sala de espera das urgências do Hospital da Universidade de Coimbra, quando o Franklin entrou. Não o via há mais de trita anos. Levei um murro no estômago. Foi um choque! Reconheci-o ao primeiro olhar. Continuava magro. Estava muito magro. Os seus olhos negros continuavam irrequietos. O cabelo polvilhado de intrusos brancos, mantinha a bonita ondulação natural, mas reclamava por asseio. A dentição estava francamente degradada. Também exibia a falha de alguns dentes. Talvez fossem mais os que faltavam do que aqueles que teimavam em permanecer. As roupas e o restante aspecto, denunciavam as dificuldades financeiras e não só..., que notoriamente atravessava. Puxava um troley de viagem de aspecto andrajoso a que se encontravam atados alguns sacos de plástico com bugigangas.
O Franklin! O Franklin..., o brilhante estudante e competentíssimo professor de filosofia que primorosamente me acolheu quando eu, ainda caloiro de Direito, aportei em Coimbra, ansioso, cheio dos naturais e salutares medos. Agora, trinta anos depois, era um sem-abrigo. Não me pareceu que mendigasse. Era notório que se defendia do frio, pernoitando naquela sala de espera.
Entrou com o à-vontade e com a altivez com que entra, qualquer resoluto cliente, no hall dum hotel. Observou o ambiente. Reservou com os seus pertences, quatro cadeiras corridas. Depois, retirou duas sandes do troley e meteu na máquina as moedas que disponibilizaram a lata vermelha do refrigerante. Bebeu e comeu com sofreguidão. A seguir, tirou um café que remexeu apressadamente, e emborcou-o sem piedade. Retirou-se para fumar. Dois minutos depois, reentrou, retirou a escova e a pasta dos dentes, indo lavá-los ao público WC. Quando regressou, encarou-me nos olhos com naturalidade e com a mesma bondade que sempre lhe conheci. Ele não me reconheceu. Ao contrário dele, eu estava fisicamente muito diferente, estava irreconhecível. O tempo castigara-me impiedosamente o físico. Com ele, talvez tivesse sido impiedoso com a mente..., não sei! Alinhou meticulosamente os sapatos, cobriu-se com uma manta e embarcou num sossegado sono em quatro cadeiras estirado.
De facto, o Franklin não estava ali. Não sei em que outro ou outros mundos estaria, mas ali, não estava com toda a certeza! Contudo, estava mais feliz e mais sereno do que eu. Acobardei-me! Não me dei a conhecer. Não o incomodei e não o "amesquinhei" com curiosidades que nada acrescentariam e que nada modificariam. "Alea jacta est", cada um de nós, havia atravessado o seu Rubicão! Perdemo-nos. Desencontrámo-nos nas dolorosas e inesperadas curvas da vida, fomos atraiçoados pela voracidade do tempo sem retorno. Doeu-me. Doeu-me muito! Durante as cinco horas seguintes, velei o seu sossegado e pausado sono. Viajei, pulei sem nexo no tempo passado, pisei e repisei, "patinhei" aqueles idos trinta anos. Visitei tempos..., visitei memórias, visitei locais, revivi sorrisos, sonhos e esperanças, vi-me e revi-me, chorei-me, "chorei-nos"..., sorri-me, "sorri-nos", porque ainda estávamos vivos e a viver...
Dei comigo a perguntar-lhe mentalmente: «Qual é a tua odisseia, meu amigo Franklin?» Os teus olhos não se mostram raiados pelo choro, como se mostravam os de Ulisses, quando jazia numa ilha, em grande sofrimento, no palácio da ninfa Calipso que o retinha à força, negando-se ele a ser transformado num imortal deus e, consequentemente, perder de vez a sua amada Penélope que fugia aos cobiçosos e assediantes pretendentes desfazendo durante a noite o que tecia em sofrimento durante o dia, e bem assim, o seu adorado filho Telémaco que crescia na ânsia de o reencontrar, bem como o seu cão fiel, que agonizando às portas da morte, aguardava pelo seu regresso. Ter-te-ás tornado num deus, Franklin? Não vislumbro sinais de choro nos teus olhos, não te sinto ansioso, nem sinto que sofras. O teu olhar é altivo, mas também é doce. Ele colhe para lá do horizonte, mas não é errático. Ele comunga da mesma paz e da mesma doçura do olhar de muitos sem-abrigo por opção que conheço.
Olha, Franklin! Fizeste-me pensar, não fosses tu professor de filosofia. Fizeste-me recentrar os valores da vida. Vi-te no lugar de Ulisses, vi-te liberto de tantas outras grandes ninfas que seduzem e enganam a maioria dos homens, transmutando-se em: RIQUEZA; VAIDADE; GANÂNCIA; SUCESSO... e tantos outros males próprios de falsas e paupérrimas deusas. Por isso, não pude deixar passar em branco a afronta e o clamoroso erro de Nietzche. Gritei forte e estrondosamente no meu íntimo: quem está morto, quem verdadeiramente morreu foi a tua errática ideia, a tua fantasia do SUPER-HOMEM; o teu SUPER-HOMEM é uma ilusão, é um fracasso, caro e idolatrado Nietzche! O que verdadeiramente existe, é o "menino-homem" à procura da centelha de Deus dentro de si! Enquanto o meu amigo Franklin "viajava" no seu repousado sono, dei comigo a pensar: será que o Franklin encontrou a sua centelha? Claro que sim! Concluí! Por momentos, invejei-o!
Dá que pensar, não dá?!?
Pensar dói, não dói?!?

NB: Vão a enterrar nas próximas horas: Laura Lacerda, Belmiro de Azevedo, Zé Pedro (Xutos & Pontapés) e mais quatro valorosos pescadores, todos sonhadores! Contudo, não vislumbro o tal SUPER-HOMEM em nenhum deles. Apenas sei que nenhum deles levou nada consigo, eles somente deixaram... A todos eles, presto a minha sentida homenagem!

* Este texto, foi escrito segundo os termos da ortografia anterior ao recente (des)Acordo Ortográfico.

 

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