O lago do meu lado esquerdo não tem cisnes, estará lá Narciso?

Tenho o punho direito trancado.
Há minutos.
Com a caneta cerrada na mão, nada se perdeu -tudo se ergueu-nesse espaço.
Não é preciso entrar numa cápsula para ir ao espaço, é preciso, para mim, dar espaço ao espaço. Essa desmultiplicação do mesmo termo com duas directivas díspares faz-nos errar. Ficamos apertados, quase sufocados, subterrados em camadas e camadas de terra.
Comemos tanta e tudo é e não era.
Entre o querer e o poder escrever. Pelo Contrário. Ganho tempo. Roubei o tempo do tempo. Tanto no tempo atmosférico como do tempo sincrónico. A esses tolos tudo roubei e, sem tempo para me poder dizer, que tempos, ninguém tem. Até nos damos ao luxo de usar uma anilha digital ou analógica no pulso ou até mesmo de corda e, um relógio chama-se para o outro de burro. Os tempos controlam e, sem nós são nadas e, nós tudo.
Enquanto ganho tempo, ilusória noção onde me tento, tenho a caneta na mão direita e na mão esquerda. A mesma caneta usa as duas mãos tão iguais e tão diferentes, tão de si perto como longe. Uma caneta tudo pode e tudo faz.
Assinalo no princípio da página, na esquerda, na direita, no título e na margem, um ponto.
Não final. Não contextualizado ou contextualizante. Um ponto.
Faço o mesmo raciocínio com a boca, com a cara, com os olhos, com os pés onde me sento.
Quero escrever. Não vale só a escrita das mãos.
Tudo é escrita, “ no princípio veio o verbo e depois veio a rima”.
Mato-me sempre que a normatividade de alguns, dita sócio endógena (a uns, a dita moralidade) me obriga a parar de fazer o que gosto, virando-me para um mundo de pernas para o ar… são tantas as coisas…“ a causa das coisas” sem deixar de pensar “nos meus problemas”, de Miguel Esteves Cardoso, um dia explicaram-me todos os bloqueios funcionais com que o autor se deparou para singrar, para subsistir e, como teve de lidar à rasca com o sucesso, que nunca quis, para poder fazer o que gostava na altura. E, eram tantas as coisas que gostava de fazer que eu ao pé dele até nisso sou “menino” ou “ moço”, como chamavam “amigos, meus”, no Algarve. Ambos os testemunhos fechados por capas, retratam tão bem o que é ser Português.
Há uma série chamada “ os contemporâneos” que embora longe para mim da esfera televisiva (um dia uma professora de português da José Falcão mandou a boca, que só via TV quem tinha falta de vida própria, foi a única coisa que consegui aprender dela e, condenou-me, sempre que pego no comando é a dor, parece que estou a apontar para personagens ou histórias para o quotidiano esquecer) graças aos meios digitais, consigo ir vendo, ouvindo, aprendendo. Há “trechos” de M.E.C. com Bruno Nogueira que revelam todas os seus indubitáveis toques de genialidade, tão diferentes e tão iguais, com conversas, falas, sorrisos rasgados e irónica e saudosa seriedade do que éramos e do que somos, não somos piores agora, somos europeus. Já fomos. Agora resta-nos rir disso, pouco mais.
Eu não sou melhor, como disse muitos anos aos meus mais chegados, “ sou um merdas”.
Tenho os headphones nos ouvidos para não ouvir o mundo e, nem a música estou a ouvir.
Antes de saber o que me esperava cá fora, dentro da única e insubstituível realidade intrauterina, já ouvia música. E, quase a poucas horas distas de ter voado do que deixei lá dentro, rico, único e profundo, ouvi música, clássica, aí aprendi, aprendi a primeira forma de perceber e enganar o mundo.
Deixo uma das três playlists, tocam (nenhuma, música clássica). Conheço-as de cor e, não lhes ligo nenhuma.
Quando quero completo-as, porque são escrita e, para mim nunca há escrita acabada, fico a fazer Acapellas com o que de mim nelas sou e, no que nelas em mim me despertam, fazem.
Ando por lá e ninguém me vê, só quando abro a goela ou bato com os punhos no corpo é que deixo que me vejam.
Ferida narcísica?
Quem era Narciso? Um defeituoso produtor de uma brincadeira de crianças para adultos. Sim, as crianças também inventam brincadeiras para adultos, já repararam? Muitos pensam que são para elas e, que os “graúdos” têm de entrar de chuteiras em jogo com caneleiras e maturidade e, jeito para a “brincadeira”. (muitos têm, outros aprendem, com quem?) Com as crianças. O que é brincadeira?
São elas que nos ensinam a arte mais complicada, a arte de brincar. Olhem para os humoristas com trinta, quarenta, cinquenta anos, não parecem crianças?
Sendo ele, Narciso, tão criança, existem teorias, teses, livros, imagens e passagens em outros, onde alguns autores acham apropriado realojá-lo para acimentar a sua própria escrita, um outro ponto de vista, também é escrita, eles não estão a roubar nada a ninguém nem a idolatrar uma pseudo panca por um herói, estão sim a cantar a música “ não sou o único” com a ponta da caneta, escrita difícil e, parece mais fácil, tocar um instrumento que rasga com tinta a folha é dificílimo.
Ser adulto é ser Narciso.
Alguma Psicologia, chama “ pensamento mágico”, a esta fase (criançada...), como um ideário de condição e ideação fora da caixa numa fase ou desenvolvimento rico, rico e inexplicável e impossível de ser explorado a fundo. Um estado mental onde a criança anda no reino da ilusão rica em imagética e, ao mesmo tempo, ingénua…será? Já muitos adultos pensam que sabem tanto sobre tudo, ao ponto de quando nos olhamos ao espelho vêmo-nos, será? Eu acredito que vemos tudo, tudo, se o espelho está sujo, se a luz está fraca ou forte, se os tubos, frascos, plásticos e ferramentas parvas que usamos para limpeza diária, se estamos bem para esta sociedade obscura, sem luz de magia (se calhar por isso é que há mágicos) …( e, dos palhaços, quem é que se ri? Todas as crianças têm muito medo de início deles e, muitos adultos ainda riem mais num misto de ironia burra….porque será? ).
Vestidos, cabelos renovados para mais um dia, se estamos acompanhados ou sozinhos, se faz frio ou calor, se estamos domingueiros ou atrasados…tudo menos nós, olho a olho no primeiro ecrã feito pelo homem, o espelho. O lago.
(Se calhar é por isso que quase nenhuma criança gosta de se vestir (pior, que a “vistam”) ou pentear ao espelho). Os “papás "anarco estilistas” é que escolhem as roupas dos putos, quem é que agrada quem?
Todo o adulto acha que tem de tentar por si, pelo bem de todos e dos mais pequenos e, no entanto, raramente pede desculpa quando falha essa escadaria ínfima (como o quadro de um amigo nosso) só a ferros arrancados, orgulho ou Narciso?
E, só pede desculpa entre os racionais, pares ou ímpares…conforme lhes der jeito, não posso generalizar muito sobre isto, porém toda a minha vida ouvi pouco esse termo vindo de adultos. A porcaria do dinheiro e dos brinquedos e mais sei lá o que inventam não serve como desculpa para uma criança. O dinheiro dá logo e o brinquedo nunca, nunca joga, a não ser se o adulto brincar com ela, aí a meio do jogo a criança ri a olhar para nós, a olhar-nos nos olhos, olho no olho, acaba esse ”castigo do perdão”, já não há.
Já uma criança, sempre que nos vê aflita por qualquer coisinha dispara o “desculpa” e, se não o dispara está a rir ou aos berros, irónico, não? Porém, vi que quase sempre que riem e berram, não como muitos pensam, por desprezo ou má educação ou déspota, quiçá, por imaginarem e não raciocinarem o que é melhor para nós. A Racionalização é uma estratégia, uma estratégia que o adulto a custo aprende para defender o seu eu, negando-o, a sua essência, para disparar num argumento ou num acto um qualquer objecto ou abjecto “dito” social.
Paradoxalmente são ensinadas a pedir desculpa pelos adultos, sem saberem o que quer dizer, nem tão pouco o que fizeram… são encostadas à parede por tudo e por nada, até há quem ache que bater deve ser o primeiro passo num ciclo a meu vêr diabólico, no final ou enquanto leva a “ criança” deve impreterivelmente pedir desculpa (desculpa por ter apanhado?).
Do meu ponto de vista que é pequenino como os olhos de uma criança, quem ensina deve dar o exemplo, deve pedir desculpa primeiro à criança “ olha, desculpa, eu sei que não sabes o que fizeste ou estás a fazer (tentem pedir desculpa a uma criança quando ela se está a portar mal, pára automaticamente ou endoidece, porque será?) mas tenho de te alertar (o português existe e é para ser usado, a escolha dos seus elementos deve ser de cada um (quem sou eu para dizer o que quer que seja, afinal? Um between, julgo). Sem cópias, porque cada adulto é único, cada criança também, já o momento é sempre eterno para ambos, bom ou mau, o que um adulto não pensa, a criança imagina e, o que um uma criança pensa, um adulto imagina.
E assim, a dita “ criança” é obrigada categoricamente a pedir “desculpa” sempre que o dito técnico da coisa ou sábio iluminado imputa ao menino/ menina, essa sua ferida narcísica.
Já repararam nisso? Ou sou um maluco como uma criança um dia me disse “ O Ivo é maluco, o Ivo é maluco”.
O que é ser maluco?
Há cerca de dois anos, numa rua da nossa cidade, que para ser “nossa” para uns, tem de ser arrendada ( com muito prazer, também para uns, geralmente para os donos ). O que é que quer dizer uns? Em mais uma temporada cheia de agitação, havia um dito maluco, cheio de problemas mentais, mal vestidinho, com fome, comia o que sobrava dos lixos, por aí, num recalque de poucos, muitos, alguns, que os que só que não se acham malucos deixam isto acontecer e, assim (uns) catalogam sem ser na revista lindinha que compram sem problema algum -pop art -no seu melhor, estava eu no meio dos bares cheios, a abarrotar de miúdos sem idade para andar a pé e de carro, podres de bêbados e, curiosamente muitos com carro em pleno verão, onde tudo acontece para eles (uns). Sabe ou vê nada?. “Acham-se”. Estão-se a achar, penso.
Figueira pouco (felizmente). O resto circundante e distante muito.
Esse “dito” maluco chegava ao pé dos miúdos e começava do nada aos berros desesperado.
Uns gozavam, outros empurravam-no, outros cheinhos dos “rebuçados” e “pintarolas” “da noite” (não será do escuro?) atiravam-lhe bebidas e cigarros (seria por olharem a medo para ele e, não quererem passar por aquilo no futuro?). Eu, curioso, sozinho, acho que era o mais “velho” da rua, tentei com calma perceber e lá fui eu. (O “dito” maluco estava tão desesperado que a sua voz ouvia-se mais alto que as PA´S dos bares e dos berros dos “homens de taça”). Achei logo estranho, porque os “senhores” estavam-se a divertir e, ele não. Um doidivanas, um quase varrido pelos carros que passam a fundo naquelas ruas que contêm passadeiras e semáforos (elementos figueirenses para protecção de todos que fica arrumada de lado por quem cá vem, por muitos sem, passo a redundância, todos, como em todas as vielas, bairros, cidades, urbes -por aí- não estava já morto por sorte. Fui atrás dele, tinha numa rua paralela dois caixotes de lixo -grandes os papelões- as caixas das bebidas transformadas em cama. Eu sei porque fui lá ver.
Vêr dá muito trabalho quando se está cego.
E o que é a cegueira, já agora?
Não será uma “Divina Comédia” Dantista para não vermos e conseguirmos viver em sociedade?
Reparem, todo o que sabe ver, mal se desloca, está praticamente parado, em estanque, “ as melhoras” dizem-lhes, ou invés, criam uma seita com o seu nome, prostituem-no, para eles ele é o anti-herói, o Anticristo, certíssimos!
Quem é que precisa ficar melhor, afinal?
Quem é que ajuda quem na ferida narcísica? Porque é que todos, todos os técnicos de saúde do patamar mais baixo ao mais alto (sem preciosismos, não conheço muitos, “ uns”) com que privei, confessaram-me que quando estão doentes ficam pior que os seus utentes/pacientes/clientes com a (mesmíssima doença) …( giras as designações que dão, julgo eu que fogem nas nomenclaturas aquela imagem no lago que Narciso teve.
Eu devia era voltar para a primária e aprender tudo de novo.
O beábá da escola, o vomitado do queijo, a metralhadora de legos feita a perícias de medo, a esfera que esmaga os berlindes mais pequenos nos imensos campos de “berlocas” que haviam em Buarcos.
Sabem, há já á vários anos distos, foi considerado um ex-professor de Harvard a pessoa mais feliz do mundo. Um canhão de teorias e práticas académicas e profissionais, pai e bom marido, bom amigo, com tudo, todos os adereços e mimos protésicos possíveis da vida.
Antes de ter conquistado Harvard e o mundo, tinha tanto que não tinha nada, disse ele quando rumou ao Tibete. Foi considerado o homem mais feliz do mundo lá, passados alguns anos (até o Tibete está prostituído agora, devia ter ido com cinco anos, porque agora, tudo, tudo é negócio, até o Tibete, os monges vendem sonhos, ilusões, soluções, rectas finais de vida, segui o Tibete durante vários anos e, quando vi a transmutação imposta pelo Ocidente, desisti) porque aos olhos da ciência era o homem que lhe tinha passado (pelas mãos?) com a área límbica mais desperta. Consideraram tal acontecimento com um eletroencefalograma, secalhar se fosse electroencefalográfico, eu parava logo aí, nessa busca desmedida, numa cerebralização incessante, numa busca… O porquê? O como? (“pára, escuta, vê”).
Posso-vos explicar com poucos erros o caminho onde estou sentado até ao Tibet.
Não me iludo, não sou melhor que este portátil que não vale nada e que me sujeita a esperar o slowmotion das teclas, tenho de esperar. Quando encrava fico desesperado, falo, falo, falo, dois menos trezentas e mil e uma voltas na casa em semicírculo e, quando dá o click volto aqui, onde estou agora. Esperar é complicadíssimo, pior ainda quando se sabe o que se espera.
Porque é que Saudade é o nome de uma música de Cesária Évora? Há uns dias vi uma das muitas apresentações de livros que vejo nos domínios digitais, a autora que não me lembro o nome, lançou um livro de crianças para adultos sobre “gaivotas”, a mesma disse que não consegue, é-lhe impossível deixar traduzir a palavra Saudade noutra língua. “ Na hora das gaivotas, nirvana ia”, escrevi eu um dia, um texto que tinha a mesma ideia, sem gaivotas e com gaivotas, com tudo e com nada, como cada escrita é, por isso é que nunca "dei" nem me vou dar ao trabalho de explicar o que escrevo. Não me prostituo mais do que isso. Para mim, deixar escrito num papel o que penso é quase prostituição intelectual, acreditam? Os meus mais de perto sabem-no perfeitamente e, quando lhes explico respondem: então mas quando tu falas, o que é uma cebola, que cebola é? Melhor... Ivo, este é o teu melhor texto. E ambos discordam entre si, concordando ao mesmo tempo, porque o amor é assim, “um dá cá a mão e toma a minha”.
Porque é que Esperança é nome de mulher? Podia haver um homem chamado Esperanço (o meu não é melhor nem pior), existem nomes “masculinos” e “ femininos” acabados em vogal fechada e aberta porquê?Quem são os arquitectos das conjunturas possessivas e casualísticas? Dar um nome é condenar um ser.
E, “Luz”, também nome de mulher, que nos dá a faculdade de vêr? Porque é que a única Luz que nos passa na vida uma ou duas vezes é tão intensa que não conseguimos vêr nada?
E, tanto a luz como nós achamos que não tem nada a haver?

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