O meu bairro!

O meu bairro é muito lindo – ou devia ser, - mas também é muito triste, porque no meu bairro não existem meninos. É por não existirem meninos que ele é tão triste e, é por isso que eu não gosto de viver nele e não me sinto feliz.
Os prédios do meu bairro são novos e altos. As suas cores são suaves e graciosas, mas elas enganam, porque aparentam uma harmonia que não existe. Neles mora a solidão alimentada pelo abandono que apressa a morte dos velhinhos.
O meu bairro tem ruas largas e passeios alinhados mas vazios, cheios da tristeza do desuso, neles não correm nem passam meninos.
O meu bairro é limpo, muito limpo, limpinho, até dá gosto, mas tem o asseio do esquecimento, parece que até as folhas se recusam a cair e a rolar nele, porque ninguém atenta nelas. Nele até o vento é esquivo, coitado!, sente-se inútil porque não há cabelos para desalinhar.
No meu bairro, mais de metade das portadas nunca são abertas, porque essas casas são cheias de nadas, são desabitadas de vidas e estão repletas dos fantasmas que lhes carcomem as paredes mofas e que as emprenham de hálitos repelentes. Essas casas que não são casas, são espaços fechados, são espaços reféns da ganância que as impede aos desabrigados, porque eles apenas poderiam pagar por elas o mesmo nada que elas rendem desabitadas e, esse nada da miséria, é menos que nada, é menos que qualquer outro nada igual a nada.
O meu bairro tem muitas árvores viçosas e indiferentes à solidão e tem jardins floridos de muitas cores alheias aos dramas da vida e tem bancos que nunca conheceram namorados apaixonados nem ouviram as suas promessas e tem baloiços que não baloiçam e tem escorregas em que nada escorrega e tem campos onde nada acontece e onde não rebolam bolas e não gritam crianças e as crianças não correm e não fintam as ilusões da vida e se continuo… acabo em lágrimas!!!
O meu bairro tem até um lago grande com muitos peixes, uns amarelos, outros vermelhos, também pretos e outros brancos e muitos misturados na mistura harmoniosa destas cores todas, tem uma tartaruga de carapaça triste e solitária, tem patinhos diversos também misturados, tem gaivotas, melros, rolas e pombinhas sedentas e muitos passarinhos que quase não conhecem homens de quem devam ter medo.
O meu bairro tem dores, muitas dores, tem mulheres e homens idosos com muita dor – podia chamar-se o “Bairro dos Condores”. Alguém com má graça, acrescentou o prefixo (in) à carismática Rua da Felicidade! Diz –se até, embora sem graça, que todas as suas ruas são rentes e embicam à Rua do Cemitério.
No meu bairro existe uma parede que é o tormento dos seus moradores, os que por ela passam e que com curiosidade a olham, benzem-se de imediato, porque se usa colar nela as fotos fúnebres dos seus recém idos… Quem irá a seguir, quem irá acrescer esta lista que deserta o meu bairro?…, aterrorizados, fogem dela os parcos e restantes curiosos!
O meu bairro, é igual aos outros bairros da minha cidade e também é igual à grande maioria dos bairros desta Europa rica e desenvolvida de dor e sem jovem cor!
O meu bairro é muito lindo – ou devia ser-, mas também é muito triste, porque no meu bairro não existem meninos. É por não existirem meninos que ele é tão triste e, é por isso que eu não gosto de viver nele e não me sinto feliz.

* Este texto, foi escrito segundo os termos da ortografia anterior ao recente (des)Acordo Ortográfico.

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