O ponto final!

A morte é o derradeiro ponto final da narrativa duma vida com muitas orações intermédias pontuadas por outros tantos pontos finais.
Para tudo na vida existe um ponto final! Para tudo existe o tal ponto que termina todas as orações que vamos escrevendo e pontuando ao longo da nossa narrativa.
É por isso que no início carregamos um saco cheio de pontos finais, saco esse, que se vai esvaziando ao longo da narrativa à medida que vamos pontuando os inúmeros parágrafos das orações que vamos encerrando.
Encerramos uma oração para poder iniciar imediatamente outra oração na imparável narrativa da vida. Fazemo-lo numa alucinante e vertiginosa cadência que vai desacelerando com o avançar da idade. Estes pontos são também, na sua essência, pontos finais que permitem o início de novas orações -etapas.
Assim, de ponto final em ponto final, vamos vivendo uma continuidade ilusória que mais não é do que um amontoado de orações mortas sinalizadas pelos respectivos pontos finais.
Põem-nos um doloroso ponto final à idade do colinho; outro ponto final ao tempo da nossa escolinha primária que nunca mais esqueceremos; no final do baile de finalistas do liceu são tantos os finais a que pomos pontos sem sequer imaginarmos…; ponto decisivamente final de um final sem retorno é o dia da licenciatura e também o primeiro dia de trabalho – adeus despreocupada juventude!
Nesse dia, ao olharmos para dentro daquele saco, verificamos angustiados que os pontos finais começam a rarear, ou pior, muito pior ainda, começam a escassear as orações da narrativa que carecem um ponto final.
Mais umas quantas orações à frente, constactamos que o espaço iluminado –vida- entre nós e a linha do horizonte que nos separa da escuridão de morte, já é muito curto.
Até agora, apenas me referi à cadência natural das orações que se vão sucedendo com o devido e esperado ponto final na natural e ordeira narrativa.
Não me referi aos abruptos e inesperados pontos que cortam frases ainda sem final na oração e que terminam inexoravelmente a narrativa da vida. Destes nem quero falar, porque eles não têm, nem nunca terão, justificação nem aceitação. Eles são apenas uns pontos finais muito vilões.
Vinha pensando apenas nos outros pontos finais dolorosos que são expectáveis e aos quais não se pode fugir, são pontos resultantes dos degaste da continuidade imparável da narrativa que nas suas milhares orações, reclamam milhares de pontos finais: é a carreira do futebolista ainda vigoroso; é o casamento ainda a menos dum terço; é o sonho que morreu mesmo antes de ter começado; é o soprano que está a perder o sopro; é o cirurgião nunca soube tanto como agora e que abandona por causa do tremor das mãos ou o doloroso ponto final do lobo que por já não conseguir acompanhar a sua alcateia, a vê a distanciar-se casa vez mais, enquanto impotente, a acompanha com a vista até a perder no longínquo horizonte…
Este é um ponto final quase final que faz apelo a toda a nossa sabedoria e a toda a nossa capacidade resignativa para podermos finalizar a nossa narrativa com uma oração gravada com um honroso e digno ponto muito bem finalizador.
José Maria Du Bocage gritou, -dizem!...-, desesperado: “Saiba morrer, quem viver não soube!”
Feliz do lobo que, apesar de todo o seu desespero, se apercebe a tempo, que é chegado o final da sua narrativa e se prepara com dignidade para lhe pôr um primoroso ponto final.
Dá-nos que pensar…,não dá?
Sosseguem…, apesar de ser um ponto próximo do final, ainda só é um digno ponto final, mas não é ainda o ponto final da narrativa, esse não veio na minha sacola, não me compete a mim colocar tal ponto! Sem remédio, aguardarei resignadamente por ele.
Estou bem! Estou muito bem! Obrigado!

*Este texto foi escrito segundo os termos da ortografia anterior ao recente (des)Acordo Ortográfico.

 

COMENTÁRIOS

ou registe-se gratuitamente para comentar.
Critérios de publicação
Caracteres restantes: 500

mais

QUEM SOMOS

O «Figueira Na Hora» é um órgão de comunicação social devidamente registado na ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social). Encontra-se em pleno funcionamento desde abril de 2013, tendo como ponto fulcral da sua actividade as plataformas digitais e redes sociais na Internet.

CONTACTOS

967 249 166 (redacção)

geral@figueiranahora.com

design by ID PORTUGAL