O que fizeram de ti?

«O que fizeram de ti, minha alegre menina?»
Qual de nós na casa dos "entas", -com quarenta e mais anos-, não se lembra do refrão da canção da telenovela intitulada Gabriela e baseada na adaptação do romance: "Gabriela, Cravo e Canela", do saudoso e amado Jorge- Jorge Amado?
Este refrão, com as devidas adaptações, adequa-se tristemente a esta Figueira que tanto amamos: «O que fizeram de ti, minha alegre Figueira?»; Vejo-te com uma fachada triste e sinto-te sem vapor!
Ocorreram-me estes desabafos, depois de ter visto uma foto antiga, muito antiga, do Forte de Santa Catarina.
Ele, outrora jovial, alegre e imponente, protegia dezenas de banhistas que felizes e descontraídos faziam praia nas areias ao seu redor, quando o mar namoradeiro e beijoqueiro se afastava por breves horas.
Quando os ânimos do mar tornavam a subir, ele vinha desalvorado por aí acima e, durante algumas horas, ele beijava, beijava, beijava com sofreguidão as pedras do forte. Beijava-as com acúmulos de carícias e ondas sucessivas de beijos, ora repenicados, ora arremetidos de luxúrias, ânsias e força incontidas!
Nessas alturas, naqueles momentos só deles, os banhistas vinham, embevecidos, espreitá-los. Há quem ainda hoje assevere que chegava a ser contagiante...
Hoje, com tristeza pergunto: - O que fizeram de ti, meu lindo Forte?; - Tu que aplacavas com firmeza as decididas investidas do mar namoradeiro e que nunca lhe viravas as costas?
Diziam que ele, insistente apaixonado, beijava-te, beijava-te, beijava-te e acariciava-te langorosa e descaradamente.
Diziam que era lindo de se ver...
Diziam que eram beijos salgados atirados às golfadas em golfadas de água contra ti lançadas, horas e horas sem parar...
Então, homens insensatos ou invejosos, quiçá?!..., mais que invejosos e mais que insensatos..., arranjaram forma de o escorraçar: atiraram-lhe pedras, pedregulhos, "pedralhões" às toneladas e com toneladas que ajeitaram com as paredes e paredões que o afastaram cada vez mais de ti.
- Vejo que choras lágrimas de areia, que com desvelada tristeza vos separam cada vez mais.
A ti, Forte!, inutilizaram-te!; Tornaram-te sem serventia!; Entristeceram-te!
Diz quem sabe..., que choras mansinho na tua forte tristeza!
Então..., os homens, arrependidos e envergonhados com tanta maldade, quiseram redimir-se: puseram aos teus pés um enorme espelho a que chamam pomposamente: «E-s-p-e-l-h-o-d-e-Á-g-u-a». De água salobra, indolente, cálida, morta de vontade nenhuma, sem fazer ondas e onde, agora, se banha apenas a Preguiça.
Mil espelhos e mais um que te dessem..., e mil vezes maiores que aquele..., te restituiriam jamais a alegria, a beleza e a vida que te dava o mar!
Nada te restituirá aquela alegria, aquela beleza, aquela vida que te dava o mar que, agora, irritado, despeitado e afastado, te cobiça de longe com promessas de vingança!
- Sabes? - ó Forte! - Não é bom humilhar alguém! - Não é bom! - Não é nada bom humilhar o irritadiço e vingativo mar, porque ele pode desnortear-se e galgar do sul para o norte, só para se vingar da soberba dos homens!
Então! Nesse dia..., lavará com ondas medonhas de fúria arrasadora e de morte, a honra de ambos!
Nesse dia..., nesse dia serás novamente tão forte, como tão forte e majestoso sempre foste, ó Forte forte!
Dizem..., à laia de premonição, que nesse dia vocês se tornarão a beijar louca e apaixonadamente..., sem ninguém a assistir!


*Este texto foi escrito segundo os termos da ortografia anterior ao recente (des)Acordo Ortográfico.

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