O Quinito!

Aguardava pela minha vez e encontrava-me, como é hábito, absorto, remoendo, revolvendo os meus pensamentos e dançando tranquilamente na minha mente, enquanto desfrutava, celebrava, silenciosa, alegre e intensamente o dom da vida como invariavelmente faço, quando chegou um senhor que aparentava ter uma idade próxima da minha. Fazia-se transportar num triciclo elétrico, próprio para deslocar pessoas fisicamente deficientes.

Educadamente, cumprimentou de forma clara e audível todos os presentes. Prontamente, de forma audível, devolvi - lhe o cumprimento. Reparei que trazia no veículo um par de muletas, daquelas que se encaixam debaixo dos sovacos e, reparei, também, que lhe haviam amputado uma perna.

Nos primeiros momentos, ocupou-se a puxar o lustro ao guiador do veículo, enquanto esperava pela sua vez. Por fim, alguns minutos depois de ter chegado, inesperadamente, entabulou conversa comigo. Disse-me que levara uma vida muito desregrada, que abusara do seu físico e, que devido ao excesso de álcool, de tabaco e muitas outras coisas, dera cabo das suas veias e as consequências estavam à vista.

Confesso que me surpreendeu tamanha franqueza e tão lúcida assunção de culpas. Respondi-lhe, tentando minimizar os seus sentimentos de culpas, dizendo-lhe que tal vivência pode ter contribuído para aquele desfecho, pese embora possa não ter sido determinante. Por contraposição, eu, levara uma vida”certinha”, sem vícios nem excessos, fora praticante e apaixonado por desportos diversos e, nem por isso, deixara de me calhar a “fava”, nem por isso deixara de ser premiado na “ roleta negativa” da vida.

Desfiávamos esta deprimente e absurda conversa, linguajávamos sobre a desdita, pese embora sem lamentações, quando o médico chamou pelo senhor Joaquim Silva. Com acrobática destreza, aquele senhor - o senhor Joaquim Silva - passou do triciclo para as muletas e seguiu o médico com determinação.

Passados alguns minutos, o Senhor Joaquim Silva saiu e dirigiu-se para o seu veículo elétrico, moderno, ágil e silencioso, enquanto o médico, assomando àquela porta, chamou pelo senhor Walter Ramalhete. Prontamente, alavanquei-me nas minhas “gémeas” - as canadianas- e segui o médico, tão rápido quanto possível.

Acabada a consulta, ao abrir a porta, deparei com o senhor Joaquim Silva que, aguardava eufórico e, sem dar-me tempo, disparou: - Ó Walter! Desculpa-me! Não te reconheci!

Atónito, completamente atónito!, fiquei a olhar para ele enquanto o meu cérebro, acelerada e desesperadamente, revolvia, remexia, esgravatava, rebuscava e despejava arquivos e mais arquivos, armazenados, arrumados, compartimentados, “enterrados” nas profundezas das memórias do meu “ eu” - francamente vivido-, enquanto o meu cérebro fazia buscas, fazia associações de ideias, rebuscava imagens, triava sons e vocalizações à procura - nos esconsos da memória - do, agora, somente, Joaquim Silva. Tamanho esforço resultara em: Nada!, Nadinha!, Nicles!, Zero!, Zerinho!, Branca total!, “Empty!”, “Empty!”, “Empty!”

Os circunstantes, médico incluído, expectantes, miravam-me, interrogativos. Até que se ouviu: - Sou o Quinito, porra! Fomos colegas! Formámos equipa como Nadadores Salvadores! Vigiámos na Bola de Nívea e na Concessão do Américo!

Não caí! Juro - juro, eu que sou totalmente contra as juras- juro que não caí! Mas tive que me sentar! Por educação, por princípios, por norma, por hábito, porque sou mesmo assim, geralmente, não digo asneiras, mas desta vez, saiu-me: - Qual Senhor Joaquim Silva!? Qual Joaquim Silva! Sempre, sempre e somente, te conheci por Quinito, porra!
Ias-me queimando os fusíveis!
Quase me derreteste o cérebro!
- Repara no cheiro a queimado que aqui está, dizia-lhe, enquanto que, com um forte, muito forte, aperto de mãos – substituto do forte e fraternal abraço que jamais voltaremos a dar - acordámos e reavivámos a amizade verdadeira, genuína, que por tantos anos de separação estivera hibernada.
Entretanto, o meu humor -a minha forma grata de ver e de estar na vida e com a vida, de trocar-lhe as voltas, de a desarmar, mesmo quando ela, com severidade e traiçoeiramente, me tenta derrubar e esmagar- veio, instantânea e naturalmente, “ao de cima”, como se usa dizer, lá para as bandas das “Gândaras” e, rindo-me, disse-lhe:
- Olha lá, amigo Quinito! Como é que querias que nos reconhecessemos?: Eras um “Galã”..., eras um “ Mister Músculos” de negro, farto e comprido cabelo, em quem alvos, certos, e perfeitos dentes emolduravam aquele sorriso com que encantavas e seduzias as “estranjas”, sem saberes, muitas vezes, uma só palavra da línguas delas!

Agora: Tens cabelo raro, curto e branco; Tens músculos envergonhadamente escondidos atrás de muita pele descaída; Tens intermitentes dentes de amarelo retocados… Olha lá Quinito!- perguntei? - Quem é o teu o teu “ conselheiro”, o teu “ produtor” de imagem? Despede-o! Ele é um verdadeiro erro de casting! Repara no que ele fez contigo! Eu já despedi o meu, há muito tempo, contudo, sem remédio, os erros e o mal ficaram cá, são irreversíveis, dizia eu, enquanto me ria com alargado prazer.
Por fim, amistosa e consoladoramente, disse-lhe:
-Não te importes! É próprio da erosão do tempo. É prova, “provadinha”, de que vivemos e de que ainda estamos vivos. Ela -a erosão do tempo- foi bem mais ingrata e bem mais mazinha com a Esfínge de Gizé, à qual, até arrancou o nariz. Nós, pelo menos,... ainda somos senhores dos nossos, muito feios, narizes! - dizia enquanto nos riamos com descontraído prazer.

O Quinito! O Quinito! Quem diria...?!

Um herói! Um verdadeiro herói! Um herói anónimo. Um herói que salvou tantas, mas tantas, vidas. Que salvou muitos homens, muitas mulheres e muitas crianças de morrerem afogadas. Que se atirou tantas e tantas vezes para dentro do revoltado e temível mar, desafiando-o, pondo em muito sério risco a sua própria e única vida, para salvar vidas de inocentes e, também, as vidas de desrespeitadores, vidas de teimosos, de mal educados, de fanfarrões e de inconscientes criaturas que, por desrespeitarem o poderoso e inclemente mar, por ignorarem as trémulas, as sábias e boas conselheiras bandeiras e os solenes avisos e apitos, puseram em perigo as suas próprias vidas e as vidas de muitos outros.

- Ainda sem teres o curso de Nadador Salvador, naquele dia, naquele memorável dia..., por quatro vezes consecutivas te atiraste para dentro do mar. Nele, com ele, dentro dele, sozinho, te bateste e debateste furiosamente, para resgatares da morte mais do que certa as vidas daquelas quatro mulheres que incautamente –na praia do garrafão- foram molhar as pernas, aproveitando aquela língua de água, aquele refluxo enganador e traiçoeiro, daquela manhosa e sabida onda que as desequilibrou e as arrastou para o fundo das alterosas, impiedosas e salgadas águas, carregadas de instinto de morte, que com força e raiva, puxavam os corpos indefesos e agonizantes para dentro de si, para o fundo de si e, tu -Quinito!-, com redobrada força, até à extrema exaustão, com cega determinação e coragem, lhos roubaste e lhos puxaste da abocanhadora morte, um após outro. Por pouco, muito pouco, ela não venceu. Por pouco, muito pouco, ela – a trágica morte- não somou mais cinco. Depois desse dia, muitos mais salvamentos fizeste, sempre com a mesma coragem, determinação, amor ao próximo e total desprendimento, pela tua própria vida. É verdade! Tens absoluta razão quando dizes que não respeitaste o teu corpo, muitas vezes, desrespeitaste – o pelas mais honrosas e sublimes razões! Bem hajas, Quinito!

Hoje, quem sabe de ti? Quem te reconhece? Quem te respeita? És ostensiva e intencionalmente ignorado, umas vezes, por inveja, outras vezes, com ressaibos de maldade. Contudo, tens a fibra e os genes dessa valorosa gente – pescadores e homens no mar - que sem medo, sem qualquer receio, sempre sulcaram esse gigante e o ainda mais gigante de todos os mares: – a vida!

Deram-te..., agraciaram-te... com alguma Comenda? Claro que não! Quais Comendas? Quais Comendadores? Pelo menos, não te ofenderam, não te embrulharam num “saco”, num rótulo em que, muitas delas – as Comendas, são puros produtos, retoques e trucagens, a alto preço conseguidas, por pagamentos – “Comendas por encomendas”- a uma certa..., e nada recomendável..., imprensa.

Gente que não se orgulha dos seus, gente que não valoriza os seus, gente que não se revê nos seus, está condenada a desaparecer porque é gente sem memória, gente demasiado pequena. Senhores políticos, senhores presidentes de Juntas de Freguesia e de outra tantas presidências..., valorizem os, genuinamente, vossos concidadãos: “Os Quinitos”, “Os grandes Mestres”, “Os Manéis dos Caracóis”, “Os, forçadamente, Emigrados”, reergam os vossos com orgulho! Estudem e preservem a vossa história..., prestem atenção à vossa toponímia! Qual Rua das Farturas!, qual Rua Abaixo da Rua de Cima!, qual Prolongamento à Esquerda da Rua Direita!..., perdoem-me o intencional, o ousado e abusado e, quase, indecoroso sarcasmo, contudo, intimamente respeitoso e bem intencionado..., “estrangeiro” sou eu, e interesso-me..., orgulho-me dos vossos e, também, meus concidadãos!

Quanto a ti, caro e querido amigo Quinito, não terás no meu coração e, no coração daqueles que - para além dos teus humanos defeitos -, reconhecem e sabem da tua grandeza, do teu heroísmo, dizia, não terás, apenas uma rua com o teu nome e para tua memória, terás, sempre, nos nossos corações, belas, floridas e extensas Avenidas com o teu nome: “Quinito- Salvador Nadador!”.

 

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