Olhar para trás!

O que somos nós senão memórias? Perguntei-me certo dia, quando angustiado constatei que sou mais memórias vivas do que a vida que ainda me resta para viver!
Doeu-me! Tocou-me lá no fundo da minha alma! Chocalhou aquela sineta que tentamos desesperadamente silenciar, que tudo fazemos para que permaneça adormecida... Mas..., os dois vídeos seguidos que acabei de ver, abanaram-me, pareciam que eram uma conspiração do acaso que por acaso não é por acaso que existe... e, confesso, que não acredito no acaso...
Um dos vídeos mexeu com as minhas memórias profundas, mexeu com as memórias da minha sagrada infância, mexeu com o: "Quero buzinar o meu calhambeque, bip, bip"; "A namorada dum amigo meu"; refiro-me ao Roberto Carlos -O REI- que foi um dos ídolos da minha infância e refiro-me também ao vídeo duma Serenata em Coimbra (Balada de Despedida do 5º Ano Jurídico 88/89 - Queima das Fitas Coimbra 2013 com 1.067.065 visualizações).
Estes dois vídeos abanaram a corda da sineta que começou a tinir de mansinho e, de repente, pareciam sinos a rebate num desespero que no auge, superavam os carrilhões de Mafra em angustiante chamamento!
Saudades! Saudade é o nome que se dá a este desespero! Saudade daquilo que vivemos e que se transformou em MEMÓRIAS! Saudades dum tempo "vigoroso" que foi nosso, que nos foi querido, dum tempo em que éramos muito, muito felizes sem nos apercebermos. Saudades das doces ilusões daquele tempo...que julgávamos que nunca passaria..., que julgávamos na nossa doce inocência que seria sempre assim... porque julgávamos que eramos, de facto, assim..., mas..., passou..., passou! Passou! Passou...
No primeiro vídeo, o REI, ainda novo, vigoroso, cantava uma música melodiosa, alegre, para muitos "pirosa", mas que me fazem as lágrimas aflorarem com honesta nostalgia. Ela, a canção, intitula-se: "Bailinho da fazenda, bão demais, né?". Nela, ele é o REI, a Sanfona é a Rainha. Rei e Rainha em harmonia criam a magia daquele vídeo em que os corpos jovens, lindos, exalando encanto, ritmo, alegria, descontração, sorrisos lindos, desejos explícitos e implícitos, comemoram a vida, dançam-na numa vertigem, dançam vida, vida, vida promissora!, e o REI repete o refrão: "Ai!, Aiaiai, (bis) a madrugada que passou não volta mais!". Dói-me ouvir aquela verdade, neste corpo, tão sentida. Geme.., chora a linda sanfona..., soa lamentos nos seus melodiosos e maravilhosos acordes, tão maravilhosos e melodiosos quanto é a vida naquela idade..., e a voz envolvente e graciosa do REI canta e encanta: «O baile vai correndo a noite inteira// o povo todo se diverte nesta festa// que vai até o dia clarear. // Casais dão passos soltos no salão inteiro// um casalzinho não sai do lugar...// ... o baile é bom, mas bom é também namorar... // ...quanta alegria está no rosto dessa gente// que esquece tudo e não dá pelo tempo passar. // "Ai!, Aiaiai, (bis) a madrugada que passou não volta mais!".// "Ai!, Aiaiai, (bis) a madrugada que passou não volta mais!".// "Ai!, Aiaiai, (bis) a madrugada que passou não volta mais!"». Dói-me tanto, dói-me demais, ouvir aquela verdade neste corpo tão sentida. E a voz envolvente e graciosa do REI canta, encanta e continua: «O sol nascendo e o sanfoneiro continua// o baile acaba e ele não pára de tocar// sai pela porta e todo o mundo vai seguindo// e pela estrada o povo a cantar// "Ai!, Aiaiai, (bis) a madrugada que passou não volta mais!".// "Ai!, Aiaiai, (bis) a madrugada que passou não volta mais!".// "Ai!, Aiaiai, (bis) a madrugada que passou não volta mais!"»
É assim o "baile" da vida! É assim o "baile" de todas as vidas! «...quanta alegria está no rosto dessa gente// que esquece tudo e não dá pelo tempo passar.»
No outro vídeo, o registo é duma serenata. É o registo da derradeira serenata, da última a que assiste a safada e surrada batina do estudante. É o registo daquela serenata que encerra, que fecha um dos ciclos mais importantes, senão o mais importante ciclo da vida! Atrevo-me a julgar que, para todos nós que por lá passámos, que vivemos e interiorizámos a Coimbra dos Estudantes, este é o período mais lindo, mais encantado e mais generoso da vida!
Lamuriava a viola, lastimava-se a guitarra, sulcava a portentosa voz do fadista, a alma doída dos estudantes que choravam lágrimas de saudades e despedida daquela que já fora, apesar de ainda ser, a sua vida: "Sentes que tempo acabou!// Primavera toda adormecida// qualquer coisa que não volta, que voou// que foi um rio mar na tua vida. (...) recordações dum passado do bater da velha cabra// A voz negra da saudade, do vento da partida// Segredos desta cidade que levo comigo para a vida// Sabes que o desenho do adeus é tudo o que nos queima devagar/».
Quantas verdades, quanta vida, quantos sonhos, quantas partidas, quantas despedidas, quantos fins condensados em tão poucas palavras...
Ai!, como dói sentir..., ai!!, como dói ao coração constactar que neste físico, que dentro deste corpo engelhado que me trai e que quase já não se mexe, está presa uma alma que nunca envelhece e que sofre, cada vez mais, a cada dia que passa...
Confesso-vos: a verdadeira vida, vive-se através das emoções..., pode significar mais um olhar silenciosamente "amordaçado" do que um corpo inteiro durante toda a noite usado...
Também dói muito e só sabe quem por lá passou..., só sabem aqueles cujos corações gritam: "Ai!, meus olhos ficaram lá" e esses, quando começam a pressentir a "curva cega" sabem nos seus corações magoados com os desconcertos da história que apesar de tudo: "Vou levar-te comigo; Vou levar-te comigo" terra amada que me viste nascer.
É assim o "baile" da vida! É assim o "baile" de todas as vidas! «...quanta alegria está no rosto dessa gente// que esquece tudo e não dá pelo tempo passar.»
O que somos nós senão memórias? Perguntei-me certo dia, quando angustiado constatei que sou mais memórias vivas do que a vida que ainda me resta para viver!

"Ai!, Aiaiai, (bis) a madrugada que passou não volta mais!".// "Ai!, Aiaiai, (bis) a madrugada que passou não volta mais!".// "Ai!, Aiaiai, (bis) a madrugada que passou não volta mais!"»

* Este texto, foi escrito segundo os termos da ortografia anterior ao recente (des)Acordo Ortográfico.

 

 

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