Os irracionais

O homem já teve de engolir tanta da sua soberba, mas tanta, tanta... O pior é que, geralmente, retalia fortemente. Sacrifica, previamente, o ousado mensageiro que o faz engoli-la, ou seja, com raiva, engole a ambos – a soberba e o ousado mensageiro acusador. Assim aconteceu com Galileu Gallilei: “ E pur si muove”...

Confesso que encontro mais irracionalidade nos auto-denominados racionais do que encontro, propriamente, nos denominados irracionais. Descansem, não estou confuso nem perturbado! Eu explico!

Todos os dias, na Internet, deparo-me, sou confrontado, com exemplos de extrema “humanidade” dados pelos animais e, com grande pesar, deparo-me, sou confrontado, com exemplos de extrema “desumanidade”, exemplos de pura irracionalidade, vindos de homens e, a talhe de foice, digo já que a única baleia má que conheço é uma certa Baleia Azul, aquela baleia virtual, criada pela malvadez e pela irracionalidade dum humanóide, não digo, intencionalmente, homem! Às vezes penso, sou levado a pensar que o mundo está virado de patas - perdão!-, de pernas para o ar.

A Web, esse repositório do bom e do mau - à disposição do utilizador-, dá-nos todos os dias imagens e informações que comprovam amplamente aquilo que acabo de afirmar e aquilo que pretendo demonstrar: ora são cachorrinhas que, a par da sua pesada ninhada, adotam, alimentam, salvam, criam, enchem de amor, crias de outras espécies; ora são aves que adotam e protegem mamíferos; ora são cobras que protegem cachorrinhos bebés; ora são leoas que protegem crias de herbívoros; ora são leopardos fêmeas que protegem crias de macacos, ora...., ora... Podíamos perder-nos em exemplos sem fim! Amiúde, o primário instinto maternal sobrepõe-se, imediatamente, ao instinto, igualmente primário, essencial à sobrevivência – o de matar para comer.

Por vezes, não raramente, os animais adotados por espécies diferentes, alteram alguns comportamentos inatos, facto que muito daria que pensar a Darwin e a tantos outros pensadores e teorizadores, tal como, também, nos dá muito que pensar e mexe com consolidadas ideias evolucionistas, deterministas e muitos conceitos psicossociais.

Com orgulho e satisfação, constato, com muita frequência, que muitos humanos põem em risco as suas próprias vidas para salvar animais em perigo. Por vezes, formam-se correntes humanas espontâneas para salvar animais em perigo. Apraz-me que assim suceda! Mas, nós humanos, nós seres racionais -Oh! Como gostaria de saber o que é que isso realmente significa!-, nós temos, enquanto espécie, tanto de maravilhoso quanto temos de horroroso. Somos capazes de mobilizar meios e esforços incalculáveis para salvar um animal em perigo e, de seguida, com uma insensibilidade cega e indescritível, somos capazes de levar espécies à extinção porque, para azar delas, têm uma carne saborosa, têm um pelo lustroso e suave, têm, supostamente, um chifre afrodisíaco e..., e....

Nós, ditos -por nós- humanos e classificados -também por nós- como racionais, somos a única espécie que mata para além do necessário. Somos a única espécie que mata por diversão e lazer e, ao que julgo, somos a única espécie que mata de forma cruel e sádica, como sucede quando se frita peixes vivos e mergulha cães em água a ferver porque, dizem, o alimento adquire mais e diferente sabor.

Frequentemente, mergulho o meu olhar dentro do oceano profundo e tranquilo que se estende por detrás dos olhos serenos, confiáveis e cheios de incondicional amor, da minha Bianca (minha inseparável cachorrinha) e regresso restaurado, regresso convencido de que há um propósito grande na “criação” e capacito-me de que esse propósito vai muito para além daquele talho ao fundo da minha rua.

Sei de pessoas “estéreis” no amor, sei de pessoas profundamente desiludidas e desenganadas com a dita “humanidade” que encetaram o processo de recuperação e reaproximação às pessoas graças ao amor que receberam, que reencontraram, junto dos “irracionais”.

Congratulo-me com a lei recentemente aprovada que – finalmente! - diferencia os animais das coisas, que os diferencia das, por alguns, “endeusadas” cadeiras do séc. XVIII. Ocorre-me plagiar Neil Armstrong quando disse: “ Um pequeno passo para o homem, um grande salto para a humanidade.” Sim! Mais do que um grande salto para os animais é-o, com certeza, para a humanidade. O real alcance desta lei só se sentirá daqui a dez ou mais anos, mas garanto que importará profundas alterações em certas formas de divertimento, certas indústrias e, também, na forma de alimentação da humanidade.


O homem já teve de engolir tanta da sua soberba, mas tanta, tanta... Pode ser que desta vez escape, pode ser que não tenha que rever os conceitos de racionalidade e irracionalidade e pode ser que não tenha que trocar as posições que ele e os animais ocupam nesta classificação.

“ E pur si muove”...

Ao sabor dum café!

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