Os meus pensamentos, a minha vadiagem mental!

Vou contar-vos, confidenciar-vos, alguns dos meus pensamentos, pensando alto, enquanto ando por aqui e por ali...
Estava perdido nos meus pensamentos, aguardando e vigiando a sua chegada, quando olhei outra vez para o relógio - («Oito horas e três minutos, ainda não estão atrasados.») - e voltei novamente a mirar pelo retrovisor. Ela apareceu a fundo da rua, vestida como seu traje habitual. Vinha bem disposta, como sempre.
Elas são várias. Quase todas se vestem de branco e vermelho, o que as torna singulares. Trazem sempre o nome da respectiva corporação escrito nas suas laterais, bem como as siglas VTD (Viatura de Transporte de Doentes) e o respectivo número de viatura.
Aquelas "meninas", são encontradas em qualquer recanto a recolher ou a deixar doentes. - («Quem as vê passar, geralmente cheias de pessoas, não imagina o peso do sofrimento que elas carregam. Carregam dores, carregam sofrimentos, sonhos interrompidos e alguns até desfeitos. Carregam vidas suspensas!»). Sendo tantas, ainda são poucas, infelizmente, para uma população envelhecida como a nossa, muitas mais seriam necessárias.
Em suma, - («carregam energias doentes e desesperançadas. Carregam, muitas vezes, silêncios profundos, expressão afinada do medo que sufoca as palavras; outras vezes, carregam palavras apressadas, risadas disparatadas, que apenas pretendem abafar o silêncio que o medo tenta instalar à força.»).
Os passageiros, em comum, só têm o destino daquela pequena viagem e o facto de sofrerem duma doença. Nem as respectivas doenças não têm nada em comum, excepto, serem todas elas doenças muito severas que debilitam e esfrangalham de forma diferente as infelizes vítimas.
Antes de iniciarmos o caminho para irmos recolher o último doente, não resisti..., olhei!..., procurei-a... e, numa cadência vertiginosa, formaram-se os pensamentos: - (« passei na Rua da Saudade! Hoje passei pela rua onde mora a saudade e vi aquela casa que me é querida, que me deixa tantas saudades... Estavam as portas fechadas e também as portadas, até parecia que já não tinha janelas!»).
Naquela viagem, naquela corrida contra a morte, íamos quatro doentes, dois acompanhantes e o condutor; -(«Sete mundos distintos e fechados, cada qual em si mesmo; uns sofrendo directamente as dores da doença e, os outros sofrendo uma outra dor muito diferente, sofrendo a dor imensa que a doença causa em quem não a sofre directamente»).
Viajávamos absortos, ou talvez bloqueados, nos nossos pensamentos. Viajávamos fechados nos respectivos mundos com as suas órbitas ajustadas à dimensão de cada um. - («Sabe Deus..., à volta de que sol, orbita cada um...»).
Ninguém falava, nem ninguém esboçava a menor vontade de falar. - («Apenas eu tagarelava comigo, em silêncio, como, de resto, quase sempre faço.»).
Interrogava-me, como tantas vezes me interrogo: - (« - Em que estarão estas pessoas a pensar?; quais serão os seus pensamentos?; serão lógicos ou absurdos; sonham com o futuro ou ruminam o passado?; serão violentos ou pacíficos, tristes ou alegres?»).
Não sei! Mas confesso que é uma curiosidade que me persegue. Por vezes, surpreendo certas expressões na cara das pessoas que me levam a concluir que se travam autênticos combates de boxe naquelas mentes; outras faces, são tão vazias, tão vazias e tão inexpressivas, que fazem lembrar pistas de neve abandonadas. Naquela ambulância, os rostos frios e sem expressão faziam -me lembrar estâncias turísticas tomadas pelo gelo!
Sei que em alguma coisa ou de alguma forma teriam que estar a pensar, mas isso era lá com eles; desliguei-me deles e liguei-me a mim, e zarpei. Zarpei dali para fora!
(«É isso mesmo! É lá com eles!»).
Não sei se acontece da mesma forma com as outras pessoas, mas os meus pensamentos, as minhas divagações, geralmente, nunca se confinam ao local onde deixo o corpo estacionado.
Fica o corpo! Eu, em pensamento, afasto-me para muito longe. Os meus pensamentos sobem como balões de ar e vão..., vão por aí afora sem destino. («Não temo soltá-los, ao contrário de muita gente que teme, que teme que ele nunca mais lhe retorne ao corpo. Eu não temo que eles me percam no mundo.»).
Não pensem que é uma ideia parva! Não pensem que é uma idiotice! Sei de muita gente que se perdeu dos seus pensamentos e cujos corpos erram por aí; sei de outras que se perderam dentro delas próprias. - Estou a lembrar-me do escritor José Cardoso Pires que na sua obra intitulada: "De Profundis, Valsa Lenta", escrita depois de ter recuperado dum Acidente Vascular Cerebral (AVC) que lhe bloqueou a área cerebral da escrita, a da oralidade e a da memória, nos conta, afastando-se de si mesmo, aquele seu drama como se de outra pessoa se tratasse. Aquele-ele-outro, vagueava pelos corredores do hospital à procura de si próprio, sem saber sequer quem era ele, quem era aquele que ele procurava dentro e si mesmo, aquele-outro-ele-mesmo-próprio, que se perdera dentro de si mesmo e que estava bloqueado algures nele, em si mesmo por uma simples gota de sangue. Miraculosamente, como se pela intervenção do nada, ou outra qualquer coisa ou entidade equivalentemente poderosa, silenciosamente..., o seu pensamento reencontrou-se, como por acaso, em si, dentro de si e dentro do seu próprio corpo que supostamente tão bem deveria conhecer -, mas..., infelizmente..., nem sempre tudo corre assim tão bem!, muitos perdem-se de si mesmos..., para sempre...; outros, voltam ao corpo com os pensamentos tão transtornados, que eles nunca mais cabem lá naquele corpo, e passam a viver de costas voltadas para o corpo, como se vê tantas e tantas vezes acontecer, alguns até se agridem e auto mutilam!, passam a odiar-se sem saberem porquê.
(«Eu não temo que eles -os meus pensamentos- me percam no mundo.»). Fica o corpo! Costumo afastar-me para muito longe de mim, corpo. Evadem-se-me os pensamentos! Não temo, como muitos, que eles nunca mais me retornem ao corpo. («se temesse..., deixaria de viajar, e, então sim!, sentir-me-ia perdido, que medo!»). Não temo que eles me percam por esse mundo!
Temo muito mais, poder um dia...(« lagarto, lagarto; truz, truz..., madeira dura») poder começar a aperceber-me que o corpo está a ficar vazio de pensamentos, de memórias, de reconhecimentos..., como, infelizmente se está a tornar tão comum; temo muito mais, que o corpo se rebele de tal forma, que deixe de obedecer às ordens do pensamento, que se trone unicamente uma masmorra do pensamento, um carcereiro impiedoso que somente infrinja dor...(«... é pavoroso pensar que, alguma coisa de tudo isto nos possa acontecer..., mas pode...»).
Rola a ambulância...parece esfomeada de alcatrão...(« em que irá ela a pensar..., gostava de saber..., na minha imaginação..., tudo é possível. -Como seria se as ambulâncias também se apaixonassem?...»). De vez em quando, ele -o meu pensamento- volta. Quando ele volta, olho para a estrada e vejo a ambulância a devorar velozmente a fita de asfalto («ela alimenta-se de negro») que imediatamente repõe atrás de si, para que outros o devorem de seguida e , de seguida, o reponham também!
Lá vamos... num só "coro silencioso". A ambulância, indiferente aos dramas que transporta -(«julgo eu!»)- devora o negro que se estende à sua frente. Vai com pressa. («Para trás, fica o que instantes antes, era futuro... e que agora, ao olhar para trás, já é passado...; passado, presente e futuro devoram-se na ilusão de que um é (presente), de que o outro será... (futuro), e o terceiro outro (passado), ainda é também...,ou até será o único que é, e sempre será! - o tempo é autofágico!»)
Pesava o silêncio! («Os pensamentos são assim; são desordenados. São cheios de pontas soltas que se soltam e perdem nas suas ventanias...»). Pesava o silêncio, e os meus pensamentos iam - à medida que o tempo ia passando- descoordenando-se, soltando-se, («irá ela a contaras plantas que estão no separador das vias... parece que quase não respira...») eu já não pensava sequer no que pensava («ainda é uma senhora tão nova! Porra! Que sentido faz tudo isto?....»). Pesava o silêncio! Eles saltavam sem nexo, saltavam ao sabor do meu olhar, -(«tantos eucaliptos a nascerem espontânea e desordenadamente; é espantosa a força da natureza; é uma vida que se agarra à vida e que não se entrega nem desanima...; foi um incêndio pavoroso! Dantesco!; Da Figueira apenas se via um manto enorme de fumo negro e asfixiante durante o dia e à noite via-se o mesmo manto avermelhado de morte, qual deles o mais assustador...»)- pi-pi ouviu-se o meu relógio de pulso a sinalizar o começo duma nova hora, («por mim e para mim, estamos a tempo, mas para os outros e pelos outros, já estamos atrasados»)- aquele pi-pi sobressaltou alguns dos ocupantes, desenterrou-os dos seus pensamentos!
Ela, fez uma suave festa na mão do marido e perguntou-lhe ao ouvido («deduzo eu..., quebrado no meu silenciosos divagar»): -« -Como estás?; sentes-te bem?; não sentes dores?»; ele virou a cabeça sem cabelos -efeitos colaterais da agressão da quimioterapia- e tentou estoicamente serená-la com a mentira piedosa escancarada no olhar cúmplice de tantas décadas vivida a par. Quase me convenceu! Mas não a convenceu a ela que traz os olhos sempre rasos de lágrimas secas. Ardem-lhe os olhos de tanta dor silenciosamente abafada; dores quebradas por gritos silenciosos que lhe rasgam a alma: « - Porquê? - Porquê meu Deus! - Que mal é que ele te fez?»; grita ela; grita na sua humana incompreensão. (« -porquê?; porquê?; porquê? - leio-lhe os pensamentos!»)
(« sinto as pernas dormentes; já não tenho posição confortável; vamos, com certeza, apanhar muito trânsito à entrada em Coimbra..., já recomeçaram as aulas!»)
Os outros..., lá seguiam com os olhares travados pelos pensamentos, ou seriam os olhares que lhes travavam os pensamentos? («não sei! apenas oiço o motor e vou vigiando o condutor - tenho sempre receio que aconteça!; ficou-me!; que parvoíce..., não pode estar cansado!; ainda agora pegou ao serviço!»).
Vruuuuuuuummmmm!!!!!! (« bolas!; leva o diabo no corpo! se não for a mais..., vai quase a trezentos..., uns a tentarem livrar-se da bocarra da morte... e aquele estúpido a brincar com ela, a fazer-lhe negaças...; brinca, brinca, a única vantagem é que nem a sentes!»)
Uns escassos minutos depois, a ambulância passou pela portagem sem parar. As máquinas fizeram todo o trabalho em décimos de segundo (« que maravilha..., e também, que maldição!...; se ganham a exploração das auto estradas, o governo, como contrapartida devia impor a criação de postos de trabalho para "X" portageiros por cada "Y" de quilómetros concessionados para combater o desemprego; porra! as pessoas existem e necessitam de trabalhar, o trabalho faz parte do direito à dignidade!..., apesar de muito mal pago! ... eu até sei explicar e até percebo muito bem, porque é que se paga pouco mais de quinhentos euros a um portageiro, porque é que se paga um salário de cerca de 2 500 euros a um investigador que contribui para a descoberta, na luta contra o cancro, e percebo muito bem, porque é que se paga cerca de 80.000euros de salário a uma Cristina cuja função é distrair as pessoas de pensarem. Pensar é muito perigoso! Pensar pode causar sérios problemas..., não só aos pensantes!
Também os condutores das ambulâncias -bombeiros- com o passar do tempo, à força de tanto segurarem o sofrimento dos outros, à força de tanto conviverem com a realidade do medo escancarado em doenças tenebrosas, vão perdendo a vitalidade! Vão murchando! Vão perdendo a alegria, vão perdendo o riso espontâneo, vão adoecendo lentamente; o primeiro sinal manifesta-se por aquela tristeza sem explicação que deles se apossa, pelo cansaço extenuante que vai aumentando a cada dia que passa, que é maior, maior e cada vez maior... e que os vai tolhendo! Daí, aos ansiolíticos enganadores, é apenas um passo. Daí, à escalada terapêutica, é apenas outro. Cedo se apossa deles uma tristeza que os escraviza, porque é impossível, é humanamente impossível lidar com tanta dor diariamente, durante muito tempo...(«Senhor Marta Soares, olhe pelos seus homens! Bata-se pelo merecido estatuto de profissão com desgaste acelerado! Rápido! Rapidíssimo! Aceleradíssimo!»).
(« Estamos quase a chegar!»); Passaram-se 90 minutos; pergunto-me novamente: (« - Em que estarão estas pessoas a pensar?; quais serão os seus pensamentos? ; serão lógicos ou absurdos; sonham com o futuro ou ruminam o passado?; serão violentos ou pacíficos, tristes ou alegres?»); (« Viajam com os olhares travados pelos pensamentos, ou serão os olhares que lhes travavam os pensamentos?») Não sei! Chegámos finalmente! Travo e recolho os meus pensamentos vadios!
- « Quando estiver despachado, telefono para a central a avisar! Despeço-me: Até logo!

Figueira da Foz - Coimbra durante 90 minutos de franca vadiagem mental, 18 de Setembro de 2018.

 

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