Partidas da vida!

O balancear da vida é feito nas ondas das chegadas e das partidas.
Nem sempre me apercebo que acabei de chegar, mas senti sempre que acabei de partir, porque se partiu sempre qualquer coisa dentro de mim.
Nas partidas houve sempre uma palavra que soou com o estrondo de um trovão e rasgou o sonho, flagelou a esperança e matou a doce ilusão.
Sinto a partida quando começa a viagem do distanciamento que cresce incessantemente a cada segundo que passa.
Também sei quando entro num comboio ou num avião que parte e me leva dentro de si sem eu ter partido, porque nessas vezes eu não parto, apenas vou. Nessas vezes sei, sinto, que voltarei e, sempre voltei.
Nessas vezes correm com abundância as lágrima da indefinição e elas também doem muito, apesar da certeza de que ainda não parti.
Quando deveras parto não há lágrimas, seca-as a ardência insuportável da dor. Quando deveras parto, há um deserto sem cor e somente de tórrida dor. Não há paisagem, brisa, sombra, nem horizonte onde a dor acabe, só há mesmo dor! Há uma dor latente e crescente que consome o espaço da alegria e da esperança.
Nesse momento desfralda-se uma pequenina bandeira negra que começa a crescer sem parar. Ela cresce até tapar tudo como uma cortina intransponível. É então que a dor se instala definitivamente dentro de mim e ela já nem cresce nem diminui, fica assim.
Quando essa cortina negra se cerra definitiva e completamente, eu ressurjo do outro lado dela, ressurjo num outro tempo, mas já não sou o mesmo, nem nunca mais serei, porque parti.
Já parti tantas vezes! Já me parti tantas vezes! Já me doí tanto… e não há modo nem meio de aprender a não chegar para não acontecer voltar a partir… Esta é a totalidade indivisível da vida. «Alguma vez disseram Sim a uma alegria? Oh, meus amigos, então também disseram Sim a todas as dores. Todas as coisas estão ligadas entre si, todas as coisas estão em empatia; se alguma vez desejaram que um momento se repetisse, se disseram “Agradas-me, felicidade, instante, momento”, quiseram que tudo voltasse!...» Nietzsche (Assim Falava Zaratustra, IV, 19:10).
Sei que finalmente um dia partirei, mas não sei se nesse dia saberei que finalmente parti, nem sei se sentirei nesse dia que se partiu definitivamente algo dentro de mim, nem sei se haverá mais alguma coisa do outro lado da cortina negra, nem sei se me verei do outro lado… - Vacila-me a fé! Está a escurecer!

PS: Saí de Angola no dia 20 de Agosto de 1975 e cheguei a Portugal no dia seguinte. Nunca mais voltei a Angola, nem voltarei, nem quero voltar!, mas verdadeiramente sinto que só há cerca de dois anos parti! Dizem que o leão ferido arrasta-se para um refúgio onde lambe as feridas e, ou morre, ou volta sarado! Chamam a isso dignidade! Também usam chamar aos reis – Sua Dignidade! A dignidade é a realeza da alma!

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