Pensamentos desvirgulados

Vivo como um sem-abrigo do pensamento nas frases feitas
com as palavras que escrevo livres de pontuação
e que atropelam as vírgulas
não param nos pontos finais porque não os reconhecem
e apenas reconhecem aqueles pontos simpáticos que se empoleiram em cima dos tristes is
para depois as palavras ousadas de descaramento
agruparem-se nas frases que rodopiam em circulares
sem prioridades nem regras de passagem para as outras que circulam por dentro
mesmo quando elas desembocam em frases que embatem em becos sem saída
em esquinas cegas
por perpendiculares transviadas
e deprimidas pela proximidade impossível das avenidas
a correrem lado a lado com outras transversais secantes de paralelas afuniladas
presas pelos traços mais descontínuos do que contínuos de coerências
arrumadinhas nas filas seguidas de monotonias exasperantes de branco neutro de cor todas juntas em nenhuma outra
sem exclamações
mas afogadas nas reticências que nada dizem
e tudo significam
antes de esbarrarem nos dois pontinhos que requerem de seguida explicações e pormenorizações
a que não acodem os ordenadores pontos e vírgulas
nas frases ora deprimentes ora exultantes
onde me espraio sem água que me molhe nem me refresque
neste abandono desordenado da rua onde não moro
esburacada por mil passagens repetidas
e perdidas na angústia da minha procura
nas tangentes que passo nas avenidas largas da felicidade
que a ladeiam rápidas e ajardinadas ao meio com flores lindas que não se deixam apanhar nem prender
nas casas dos sonhos dourados das palavras
que tentam enjaular sentimentos lindos
e muito difíceis de expressar
mesmo em lindas poesias
porque a liberdade não cabe
ainda que s-o-l-e-t-r-a-d-a
na própria palavra
tão imensa na sua aparente pequenez e
tampouco cabe nos sonhos e nos desejos sempre incompletos em que a cavalgo
porque a cada instante
lhes acrescento janelas e mais janelas
escadas e mais escadas
portas e mais portas
nos pisos e mais pisos que vou acrescentando na vertical que sorve o infinito em direção ao sorridente e luminoso sol
que depois de meia-volta completa se escapa pela curva do horizonte
para destapar as estrelas
que me conduzem no profundo firmamento
que nunca acaba
e que confunde abarca e amassa todos os meus sonhos e rasos pensamentos
onde as palavras bailam com as estrelas
brincando perdidamente às escondidas com elas em jogos de cabra-cega
nas ideias loucas que nunca se completam
porque não se querem deixar apanhar em asilos lúgubres de paredes desmaiadas de cores gastas
onde me procuro sem nunca me descobrir
porque fujo de mim
assim que me encontro
nas pracetas redondas da solidão imensa e interminável
e fico sem saber se ela mora dentro de mim
ou se eu é que moro dentro dela
que é quase do tamanho da vida
que existe no devir incerto e frágil
em que uma simples palavra
uma atitude precipitada
um sorriso lindo
podem mudar para sempre o futuro
que leva e traz o amor
que desponta e morre quando menos se espera
num bem-me-quer e num mal-me-quer desflorido e sem fim
nesta profusão de ilusões ruidosas
como a chuva de lágrimas coloridas do fogo-de-artifício na noite escura da festa
que celebra a felicidade
e os momentos que se traem nas frases onde
como um vagabundo sem destino certo viajo
contrariando a vontade deste tempo que hoje
faz em mim sessenta anos exatos
sem lhe saber quando é o seu ponto final
que sei que é certo
nesta minha vida já cansada
que um dia descasarei.

COMENTÁRIOS

ou registe-se gratuitamente para comentar.
Critérios de publicação
Caracteres restantes: 500

mais

QUEM SOMOS

O «Figueira Na Hora» é um órgão de comunicação social devidamente registado na ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social). Encontra-se em pleno funcionamento desde abril de 2013, tendo como ponto fulcral da sua actividade as plataformas digitais e redes sociais na Internet.

CONTACTOS

967 249 166 (redacção)

geral@figueiranahora.com

design by ID PORTUGAL