Persistir em defender o indefensável!

Este foi seguramente um dos textos mais difíceis e mais sofridos que escrevi. Ele foi arrancado de dentro de mim, como quem tem de arrancar pedacinhos de carne morta pela decepção e pela indignação. Foi arrancado com a certeza da necessidade de manter viva a luta pela vida dos touros e matar a tourada.
Fiquei atordoado quando ouvi um mito, quando ouvi uma referência intelectual da minha juventude, um poeta (Manuel Alegre) que escreveu, entre muitos outros, dois versos maravilhosos que influenciaram positivamente a minha existência, defender o indefensável, defender e tentar desesperadamente legitimar um ritual violento, bárbaro, causador de gratuito sofrimento e morte a animais inocentes e indefesos - defender a tourada.
Nem o melhor exercício de retórica consegue tornar justificável o injustificável.
A tourada ou a corrida de touros, como eufemisticamente lhe pretendem chamar, é um ritual intolerável, injustificável, bárbaro, de gratuita e feroz violência.
Tampouco o conseguiu Manuel Alegre com o recurso a um raciocínio sofrível, apoiado numa retórica desbotada, sem brilho, recheado de chavões sem sentido, debitados numa entrevista que se arrastou penosamente na TSF/Diário de Notícias na qual, ele, Manuel Alegre, tentou legitimar e defendeu um ritual bárbaro, violento, causador de dor insuportável e morte a animais inocentes e indefesos.
Para tanto, aquele senhor -também caçador por sinal- disparou contra tudo, disparou tiros sem sentido e sem lógica. Usou argumentos que ofendem a sã inteligência. Vou citar e comentar apenas estes três:
1- Ele disse que «(…) recusa “engenharias” sociais ou artificiais messiânicas. Isso tem uma carga totalitária muito perigosa.»
Sinceramente! Tendo como base a discussão sobre a aplicação de uma taxa reduzida de Iva de 6% às touradas ou a taxa normal, o que é que este arrazoado quer dizer naquele contexto?
2- Disse também que: « (…) Eu sou pelas pessoas e sou por qualquer coisa de sagrado que há na corrida, qualquer de sagrado e muito antigo.»
- Sim? - E já agora, o que é isso do sagrado?
Para o pensador francês René Girard, historiador, crítico literário, antropólogo, filósofo, teólogo, professor de literatura comparada na Universidade de Stanford na Califórnia, nos Estados Unidos, autor da obra intitulada a VIOLÊNCIA E O SAGRADO: “A violência e o sagrado são inseparáveis”; “É a violência que constitui o verdadeiro coração e a alma secreta do sagrado”; “ A palavra sacrifício significa fazer sagrado e opera na estrutura do bode expiatório”; (neste caso não é um bode, mas é um pobre dum touro, para gáudio de gente de instintos primitivos sedenta de dor, sangue e morte); “ A violência do sacrifício além de produzir o sagrado, também sacraliza a própria violência que passa a ser considerada purificadora. O mecanismo do bode expiatório é a fonte de tudo o que há nas religiões mítico-rituais. Todo o mito religioso provém da vítima expiatória, e as grandes instituições humanas, religiosas e profanas, provêm do rito.”
Ora, na corrida o que há é violência, sacrifício e ritos primitivos e bárbaros, nada mais!
Há muito tempo que ganhei consciência que um TOURO não é um brinquedo!!!! Não é um jogo da Play Station! Não é uma abstracção, não é sequer um poema, não é um produto da fantasia nem do pensamento humano! Ele é um ser vivo! É um dos seres mais complexos e mais "elevados" na cadeia da vida!
Há muito tempo que ganhei consciência que a natureza não brinca com a vida! Quem costuma brincar com a vida é o ser humano que tudo tenta transformar e usar a seu bel-prazer, mas não cria vida!
O TOURO é vida. É uma vida complexa, com sentimentos, uma vida que sente felicidade, medo e dor! Ele nasceu, como tudo o que é vida, -e como toda a vida que coabita nesta “nave espacial” que se chama Planeta Terra-, com um desígnio evolutivo - TOMEMOS CONSCIÊNCIA DISTO, DUMA VEZ POR TODAS!
Ele não nasceu para ser um parque de diversões para sádicos, e se o deixarem ser apenas ele, se o deixarem cumprir-se naturalmente, ele é um ser dócil, com uma alma e uma natureza pacífica, evolutiva, altiva, que anima as pradarias e as pastagens soalheiras!
Ele também é infinitamente feliz no lado soalheiro da vida, no lado da vida que almejam todos os seres viventes!
Quando o capturam e o aprisionam naquele inferno de tortura, sangue, farpas, olés, cornetas e cornetins, mantas pretas, lenços e lencinhos, gritaria, palmas e bravos selvagens, curros e bandarilhas, capas vermelhas como sangue, metido no meio de energúmenos toureiros trajados com roupas apertadíssimas, com bandarilheiros, com forcados aos montes e com cheiro a sangue, com cavalos engalanados e apavorados, a sua contristada e inocente alma, -através das suas duas janelas, o seu par de olhos- a sua alma completamente inocente, implora por clemência e por misericórdia àquela besta humana, ao maldito algoz que, cego, sedento de sangue e sofrimento, brinca, diverte-se, excita-se e extasia-se, dá largas a uma animalidade que ofende a animalidade e tortura-o e mata-o sem piedade! Mata com extrema dor e sofrimento atroz, rouba-lhe o sopro de vida que ele jamais conseguirá criar.
Lá fora, fora desses recintos de dor e morte sádica e selvagem, outros seres humanos de boa índole suplicam, gritam com as vozes alteradas pela dor que lhes enegrece a alma com a mesma cor que o negro touro tem. Eles imploram com cartazes e pouco mais..., aos demais..., demasiados..., que parem..., que reflitam..., que acabem com essa ignomínia..., que parem com essa bárbara "diversão"...., que brinca com a vida que não cria!
3- Por fim (porque por aqui me fico) disse também: «Quem não percebe a corrida também não percebe a poesia, não percebe a literatura.»
Não satisfeito, cita uma série de vultos ilustres que na sua época, naquelas circunstâncias, e com aquela consciência, eram a favor da tourada, contudo, é abusivo presumir que esses vultos, se fossem vivos hoje, não teriam evoluído…
«Quem não percebe a corrida também não percebe a poesia, não percebe a literatura.»
Que afronta! Que insulto grosseiro a todas as almas sensíveis, verdadeiros amantes e verdadeiros produtores da verdadeira e bela poesia e da literatura e, por isso mesmo, intolerantes à barbaridade e aos rituais de sangue e morte, isso sim, isso é contrário à poesia e à maior parte da literatura.
Fiquei, contudo, a saber que John Maxwell Coetzee, prémio Nobel da Literatura em 2003, não percebe a poesia e não percebe a literatura, porque quem não percebe a corrida também não percebe a poesia e não percebe a literatura, porque ele, referindo-se à tourada disse: ”Trata-se de um espectáculo violento e sangrento, um regresso aos tempos nos quais o bem-estar animal não era tido em conta e onde o touro era submetido à tortura nas mãos de miúdos que queriam impressionar os amigos.”
Também fiquei a saber que 68% dos Espanhóis e 90% dos Brasileiros não percebem nada de poesia e de literatura…, porque não compreendem a corrida e são a favor da abolição das touradas… Reparem que nem sequer me dou ao trabalho de mencionar a opinião dos restantes povos civilizados da Europa.
Os defensores da tourada espalham o mito falso da batalha da razão contra a força bruta e confundem a besta humana e caótica com o touro enraivecido por torturas sádicas e malévolas. Deturpam a virilidade, vestindo homens com roupas floridas, de rosa cor, e muitíssimo apertadas para evidenciar as partes pudendas, práticas burlescas tão do agrado dos infantilizados marialvas.
Sopram decisivamente novos ventos!
Sopram os ventos duma nova CONSCIÊNCIA!
Sopram os ventos duma Nova Era da Humanidade!
Sopram ventos que fazem expandir a nossa consciência e que nos catapultam para os confins do Universo. Sopram ventos que são ecos do imenso Cosmos.
É então que o voo que paira sustentado no invisível vento, me faz ter consciência que aquela gaivota é parte e comparte tão importante do Universo quanto eu, quanto o vento, quanto o mar, quanto o ínfimo grão de areia -que é um Evereste para os átomos-, quanto as baleias e as bactérias...
Todos e tudo, somos unos com o Universo e o Universo é uno, com todos e com tudo. Mas..., -há sempre um mas-, ser uno não significa ser anódino, por isso, eu não sou igual, a minha consciência não é igual à do toureiro, à do caçador que mata por prazer e vaidade, à do poluidor que..., à do ganancioso que..., não é igual porque..., porque..., porque...
Pergunto-me, interrogo-me, penso: - Até quando? - Até quando a nossa boa índole..., continuará impolutamente boa?
Atenção! Atenção, porque todos nós, mas mesmo todos nós, temos um lado negro! A única diferença é que uns lutam contra ele, abafam-no, e outros extravasam-no, alimentam-no..., porque gostam de tourear e matar!
- QUAL CHEIRO A TOTALITARISMOS, QUAL CARAPUÇA!
O Partido Socialista tem-se satisfeito com uma navegação de cabotagem, sempre com terra à vista, OPORTUNA qb., ao sabor das ondas e das tormentas e, depois, admiram-se com a força que tem um só deputado, o André Silva e o PAN.
Senhores decisores!!!..., acabem com as touradas, proíbam-nas!, porque senão..., nós que abominamos as touradas, nós que somos também uma muito larga maioria de eleitores..., acabaremos por, em eleições democráticas, tomar os vossos lugares para decidirmos diferentemente... e acabar com as touradas, proibindo-as conforme é a vontade da maioria do povo em Portugal. Se têm dúvidas, referendem!
Nós eleitores democratas, já o fizemos, -na imparável senda da evolução das trevas para a luz-, com a abolição da escravatura, com o reconhecimento da igualdade da mulher, com a imposição do voto universal, com a proibição da tortura, da pena de morte, da pena de prisão perpétua e..., e..., e de que estão à espera?
Senhores decisores....., quem avisa....
EU QUERO A PROIBIÇÃO DAS TOURADAS!
Declaro que assumo a obrigação de votar num partido político que assuma o compromisso de LUTAR PELA PROIBIÇÃO DAS TOURADAS EM PORTUGAL!
Já somos muitos milhares, senão mesmo, mais de milhão!

*Este texto foi escrito segundo os termos da ortografia anterior ao recente (des)Acordo Ortográfico.

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