Portas!

Vê-mo-las como entradas, quase nunca como saídas também, mas a derradeira, já é somente uma saída.
Durante a nossa vida deparamos com imensas, inúmeras, incontáveis portas. Portas que dão para outras portas. Portas que se não forem abertas, impedirão outras de se abrirem e, por isso, desviam e cortam-nos caminhos ou descaminhos... As portas são sempre acessos para caminhos…, mas nunca abriremos a maior parte delas: umas, não abriremos por ignorância; outras, por medo; outras, porque não queremos e outras ainda, como resultado duma impossibilidade natural e também temporal.
Portas, portas, portas, tantas portas de todos os tamanhos e feitios tornam-se num desassossego. A tremer como uma cana verde, ou com uma resolução estóica, transpus sempre a maioria das portas com que fui deparando durante a minha vida. Algumas, apenas as entreabri e espreitei a medo o que me mostravam e recuei sempre que me desagradavam os caminhos que me mostravam, ou até os cheiros que por detrás delas exalavam – não me atrevi quando não me cheiraram bem. Nessas fiquei literalmente à porta! Muitas, com olhos doces, diziam-me: -“vem por aqui!” – a essas recitei-lhes bem alto o Cântico Negro de José Régio:
«Não sei por onde vou
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!»
Por essas não fui, não vou e sei que nunca irei por aí! (Drogas; Ansiolíticos; Roubos; Tráfico de influências… e tantas outras más portas!)Diferente, muito diferente, foi a forma como transpus as portas que abri e em que me atrevi e a forma como saí, porque sempre que entramos por uma porta começamos a caminhar inexoravelmente para a sua saída, começamos a caminhar para uma outra porta que a outra e a outra e a outra e mais outra nos levam numa ilusão quase sem fim.
Como as deixei atrás de mim?
Muitas ficaram despudoradamente abertas, ficaram escancaradas, tal foi a pressa e o descuido, ou desleixo… com que as atravessei; outras fechei-as com singular cuidado e com o mesmo carinho com que se fecha a porta do quarto onde dorme o nosso inocente bebezinho; outras…, por si se fecharam sem que eu tivesse dado conta sequer, de tal modo se fecharam que mesmo que as procure, jamais as tornarei a encontrar; muitas rangeram…, estavam emperradas, abri-as com muito esforço, com muita luta, muita determinação, porque havia muita gente – sobretudo gente invejosa- que não queria que eu as transpusesse, mas atrevi-me, sonhei, vivi, colhi oportunidades, decifrei mistérios, engrandeci-me…, reclamei e lutei pelo meu quinhão, sempre com o cuidado de nunca pisar nem “entalar” ninguém, nem privar ninguém do seu justo, merecido, inalienável e honrado pão, ninguém passou fome por minha culpa, venci!, – felizmente, tenho conseguido!; noutras feri-me…, ainda hoje sangro; algumas bateram com tal violência e estrondo que fizeram tremer o edifício da minha vida, abriram rachas nas paredes, fizeram abanar os alicerces, abalaram as minhas fortes convicções e quase desacreditei em mim e nos outros – mas mesmo assim não sucumbi.
Portas, portas, portas, tantas portas de todos os tamanhos e feitios tornam-se num desassossego. Todas estas portas têm uma coisa em comum: elas não permitem recuos, obrigam-nos a prosseguir. Mesmo quando parece que estamos perante uma repetição ou perante um “dejá vu”, não estamos, porque esta porta apesar de parecer em tudo muito semelhante a uma outra…, é uma porta nova e dá para um novo caminho.
Eu continuo conscientemente a abrir portas, portas, portas e mais portas em direcção àquela derradeira que se fechará para sempre e que me cerrará o caminho e o conhecimento e me rumará a esse desconhecido que tanto tememos. Só já peço que ela me seja suave e leve, que deslize rapidamente, sem ruído e que sejam bem oleados os seus gonzos.
Portas, portas, portas, tantas portas…, vejo-as como entradas, quase nunca como saídas também, mas uma será a derradeira, será somente uma saída.
Portas, portas, portas, tantas portas de todos os tamanhos e feitios tornam-se num desassossego permanente, até àquela última do sossego final!

*Este texto foi escrito segundo os termos da ortografia anterior ao recente (des)Acordo Ortográfico.

 

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