Quando tu me foges!

Naquele dia quando adormeci a tua presença era forte, mas quando acordei já não estavas lá, inesperadamente tinhas-te ausentado. Aguardo por ti em vão. Entretanto, nem um único sinal de ti. Sinto-me cada vez mais triste. Farto-me de chamar por ti, mas não vens. Chego a passar dias inteiros à tua espera ou até semanas e, tu sem me dares nenhum sinal de ti.
Nessas alturas assola-me a dúvida, a ansiedade e até o desespero. Quando tal acontece, não me consigo controlar. Sofro muitas vezes em silêncio, até chego a disfarçar para que os outros não se apercebam. Assalta-me a dúvida perniciosa que descarrega o seu veneno e então dou comigo a pensar: «Será que ela voltará? Ter-me-á abandonado de vez? E se ela nunca mais voltar, o que será de mim?»
Quando te ausentas, quando te demoras, quando parece que nunca mais voltarás, o meu mundo treme, começa a querer ruir, ameaça desmoronar-se completamente. Enegrece-se-me a alma. Aquele negrume começa a aniquilar-me. Perco o ânimo e até chego a perder a razão. Dou comigo a barafustar desesperado e até chego a praguejar. Ralho com os outros e, quando não tenho ninguém com quem ralhar, ralho comigo, mesmo sem razão. Fico descontrolado. Frequentemente, acordo a meio da noite e não consigo tornar a reconciliar-me com o sono, então, levanto-me e venho para a varanda. Com as estrelas mudas e distantes por testemunhas, chamo por ti. Pergunto-me por onde andas, peço-te, imploro-te que voltes depressa.
Nessas alturas parece que ninguém me entende. Todos me pedem para ter calma, dizem-me que é mesmo assim. Todos me dizem que tu voltarás, dizem-me que tu sempre voltaste, dizem-me que confie, que aguarde serenamente porque já me aconteceu diversas vezes e esta não será diferente certamente. Dizem-me até, que é muito mais fácil tu voltares se eu me acalmar. Alguns asseveram-me que também já passaram pelo mesmo e, eu até lhes reconheço terem razão e que estão absolutamente certos, mas… é tão difícil!
Verdadeiramente, sinto-me vazio. Sinto-me sem alegria. Quando tu não estás, o tempo parece que não passa, parece até que as estrelas brilham menos, parece que a lua se sente comprometida e se esconde e parece que o vento não sopra com medo de me perturbar. Todos parecem carregar uma culpa que não é sua. Não é justo que se sintam assim.
Quando tu não estás é lento o passar das horas. Doem! Gemem os relógios. Sangram os minutos. Não se desmarcam os segundos. Queda-se muda a torre da igreja. Agigantam-se as noites…, parecem valerem por quatro. Só eu cresço no meu desassossego…
Até que…, inesperadamente, repentinamente, esteja eu acordado ou não, esteja eu onde estiver…, tu regressas como se nada se tivesse passado entretanto. Regressas inocente e pura. Regressas envolta no teu véu de fantasias e coberta de novas promessas… e novos sonhos…
Tu! - Inspiração desejada- voltas a fervilhar-me novamente as ideias. Enches-me! Afogas-me de alegria e ânimo. As letras ganham vida novamente. O azul lindo carrega-se de azul ainda mais lindo e todas as cores brotam cores ainda mais lindas e carregadas de mil outras, tudo recomeça a florir, tudo ganha ânimo e vida novamente. Agitam-se os relógios e sucedem-se sem mágoas as horas, os minutos e os segundos na cantante torre. Apequenam-se as noites. Sorri a lua sem vestígios de culpas. Assobia alegremente o vento todas as suas melodias cheias de alegria.
Contigo novamente de volta tudo e todos se tornam entusiastas e colaborantes: o papel submete-se cordeiramente ao furor da lapiseira; a lapiseira escorre tinta e mais tinta; a tinta transforma--se em letras; as letras agregam--se em palavras; as palavras correm nas carreirinhas das linhas que as amparam carinhosamente e que pautam as obedientes e vivas folhas de papel onde me espraio a caminho do mar aberto e da criação sem limites…
As letras ganham vida e eu, feliz, feliz, e agora já verdadeiramente cheio de ti, encho folhas e folhas e mais folhas, resmas e mais resmas de brancas folhas com pensamentos frescos, com as ideias que não me surgiam, com fantasias belas, com encantos, com histórias infantis, com versos, com rimas e com poemas completos que não sei onde tu –imaginação prodigiosa- vais desencantar…

* Este texto, foi escrito segundo os termos da ortografia anterior ao recente (des)Acordo Ortográfico.

COMENTÁRIOS

ou registe-se gratuitamente para comentar.
Critérios de publicação
Caracteres restantes: 500

mais

QUEM SOMOS

O «Figueira Na Hora» é um órgão de comunicação social devidamente registado na ERC (Entidade Reguladora para a Comunicação Social). Encontra-se em pleno funcionamento desde abril de 2013, tendo como ponto fulcral da sua actividade as plataformas digitais e redes sociais na Internet.

CONTACTOS

967 249 166 (redacção)

geral@figueiranahora.com

design by ID PORTUGAL